sábado, 22 de outubro de 2016

O que um jornalista pode aprender com Frost/Nixon (2008)

Frost/Nixon é um filme de 2008, baseado numa dramatização das entrevistas concedidas por Richard
Nixon a David Frost em 1977, quase três anos após o escândalo de Watergate e sua renúncia. Os personagens têm o mesmo objetivo: os holofotes do sucesso. Enquanto Nixon visa sua reabilitação para a vida pública, já que mesmo tendo recebido o perdão presidencial ainda pairava sob sua cabeça a pecha de corrupto, Frost, um performer, apresentador de programas de entretenimento, tinha em mente a audiência que poderia alçá-lo à glória outra vez. O filme teve 5 indicações ao Oscar e não levou nenhum.

Ainda que os momentos de maior apreensão e atenção ocorram quando os protagonistas estão frente a frente, e aí podemos ver como um entrevistador deve ou é melhor se portar para conseguir tirar do entrevistado o que deseja, depois de dois anos de graduação em Comunicação/Jornalismo, outros pontos saltam aos olhos. 

David Frost arriscou tudo para que essa entrevista desse certo. No filme, fala-se em U$500 mil que ele estaria pagando do próprio bolso e que tentava vender a todo custo para empresas. Se não obtivesse nenhum resultado favorável com o material, provavelmente os nascidos nas décadas seguintes jamais saberiam que houve um homem que entrevistou Nixon e conseguiu dele uma resposta visualE jornalista faz isso? Faz. Tem uma matéria boa ou relevante? Manda para um jornal ou portal de notícias. Eles vão aceitar? Logicamente, nem sempre. Século XXI, 2016, há sempre a possibilidade de publicar em sites ou blogs próprios e/ou montar seu portfólio. Investir uma soma assim em um portfólio, por exemplo, é que parece completamente irreal. 

Fora a persistência de Frost, tão necessária ao jornalista, outros fatores contaram muito para que seu nome fosse salvo do esquecimento: a preparação, por exemplo. Há uma certa dificuldade em encontrar uma concordância se David Frost foi ou não jornalista. As Wikis dizem que além de apresentador, comediante, era jornalista, mas o Imdb, por exemplo, e o próprio filme dizem o contrário. Durante o longa, Frost é alvo de críticas inclusive por parte de sua própria equipe. Você não deveria descansar para sua entrevista? Isso não é coisa que um jornalista faria. Ele não age mesmo como um jornalista. 

Houve até um ensaio, antes do primeiro encontro, com as possíveis respostas de Nixon e réplicas possíveis, mas, na gravação, o básico, interromper o entrevistado quando sua resposta desvia, sequer foi tentado. Em TV sabemos que o tempo é ainda mais contado, requer jogo de cintura muito maior para que não se perca tempo, tempo é dinheiro, tempo é dinheiro!, e Frost parecia não se dar conta disso. Pior, chegou a recusar que um membro da sua equipe, pesquisador, aprofundasse em um ponto novo que poderia 'pegar' o entrevistado. Excesso de confiança seu nome é David Frost. Antes afirmava já ter feito outras entrevistas, mas sob que condições ninguém tratou de esclarecer. Parecia um novato nisso de perguntar e diante de um hábil político, que mesmo não lidando bem com gente, sabia discursar, um bebê de colo não seria mais inapto.   

Depois de dois rounds perdidos e definitivamente com a corda no pescoço, o que teria salvo David Frost foi um telefonema de Nixon bêbado que levou o então entrevistador a enfim estudar e chamar aquele seu colaborador para fazer aquela pesquisa. Teria porque acusam o roteirista de tê-lo inventado. Aqui essa polêmica pouca importa, o foco é a preparação. Se é preciso estudar o assunto antes de uma entrevista, imagine para falar com um ex-presidente. Se é preciso estudar o assunto antes de uma entrevista, imagine para falar com um ex-presidente que renunciou por conta de um escândalo, ótimo com discursos longos e do qual se espera uma confissão, um pedido de desculpas e, se possível, um julgamento que não lo deram. Era muita pressão sobre as pretensões mesquinhas de Frost por audiência? Talvez, mas ele teve que arcar com ela.            

sábado, 1 de outubro de 2016

Paixão

Uma das pautas caídas: um adesivo indesejado
Invejo as suas paixões. Esse alucinado sentimento por outrem me intriga. A intensidade, a loucura, o sofrimento. Não tenho desses descabimentos.
Queria ter.
Amanhã tem eleições e eu realmente queria encarar a urna com confiança e retribuir o sorriso de um dos candidatos cujas fotos aparecerão lá.
Dizer "meu candidato"e ter fé de que é realmente a melhor escolha, que é honesto e fará o melhor possível, no caso, pela cidade. Cantarolar o jingle com sentimento e por gosto, colar adesivos na porta de casa, no carro, distribuir santinhos, mudar a foto do facebook. Que inveja sinto dos que fazem tudo isso por livre e espontânea vontade!
E os que militam? Discutem, brigam, defendem com unhas e dentes o que/quem acreditam. Que fortes são, que corajosos, que apaixonados. Compram, propagam, colaboram com o discurso do seu candidato. Faça chuva ou faça sol. Seja absurdo ou perfeitamente lógico. Seu discurso, meu discurso.
Para quem vive política, amanhã é festa. A festa da democracia. 
Em Itumbiara (GO), nessa semana, um candidato a prefeito foi assassinado durante um comício. Um grupo de pessoas partidárias da vítima, revoltadas com o que parecia ser uma ação de fundo político, realizaram um quebra-quebra na cidade. 
Vou exercer meu direito ao voto, vou contribuir para mudar minha cidade, vou apostar nessa pessoa aqui em quem confio. Meu candidato. Prefeitão, vereadorzão. E tira foto junto e cola adesivos pelo corpo e se envolve na bandeira e. 
Que inveja.

sábado, 10 de setembro de 2016

Indeferida

Pegue a candidatura da Ciça, um carimbo e... indeferida! No horário do almoço da terça-feira (6) já alardearam. Indeferida, indeferida, indeferida. Ela pode recorrer em BH e Brasília, mas enquanto isso, no dia seguinte, manteve o cronograma: o primeiro comício no bairro que leva o nome de seu pai, praticamente sua casa. Como ela se pronunciaria? O resultado só viemos a saber dias depois, no seu horário no rádio: começaram a perguntar, "ela vai renunciar?", "você montou esse comício para renunciar?", se eu tiver que renunciar, vocês ouvirão da minha própria boca, eu sou muito mulher, eu sou muito mulher. Ovacionada, claro. Encarnou a mulher forte, madrinha braba, que luta contra uma... injustiça?

Trupe da Ciça - repare no adesivo no peito do homem de vermelho
Não tem injustiça e nem ela diz isso. Não teria coragem de mentir assim tão descaradamente. No máximo, para se defender, pergunta qual governante não tem um processo contra si. O que acaba sendo um modo bobo de dizer "Se todo mundo faz, por que eu não posso fazer também?". Seus afilhados é que ainda fazem questão de apontar perseguição política à nobre, honrada, honesta ex-prefeita... Mesmo que a participação no desfile de 7 de setembro seja mais discreta se comparada à de outro candidato.

A de um outro candidato que parece ser o Gilsen
O candidato fantasma, aquele do qual eu falava, retirou a candidatura na semana passada. Ficamos entre um menino, uma madrinha contrariada e uma vitrola quebrada que imita os colegas e usa um trecho menos pior de sua participação no último debate em seu horário eleitoral. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Comendo política (e as unhas)



É inevitável falar de política numa época como essa. Pode-se conversar sobre política todos os dias, a todo momento, em qualquer lugar, reclamar sempre, porém numa semana em que unem-se as políticas municipais às nacionais não se quer tratar de outro assunto.

No último sábado, a emissora de rádio 102 FM promoveu o 1º debate com os “prefeitáveis” do município. Dos quatro candidatos, apenas 2 apareceram. Número suficiente para que o circo pegasse fogo e incendiasse o mato seco das eleições. A ex-prefeita tratou de frisar que o candidato principiante não morava ou trabalhava nessa cidade, por isso não teria o mesmo entendimento que ela, e sua juventude – chamou-o de menino. Logicamente, o rapaz de 25 anos não deixou por menos e tratou de jogar na cara o fato dela ser ficha suja.

Na internet, enquanto os simpatizantes do rapaz adotavam o “menino”, os simpatizantes da Ciça trataram de ressuscitar vídeos de anos atrás onde um Caio jovem se mostra rebelde, mal educado e mimado. O candidato tratou de fazer um vídeo não pedindo desculpas, mas sim relembrando seus tempos de juventude, dando um tom saudosista ao que poderia ser uma mancha na sua imagem.

Frutal em polvorosa, Brasília também. A presidenta Dilma começou a semana, a segunda-feira toda, se defendendo no Senado. Trouxe uma comitiva honrosa com Chico Buarque e o ex-presidente Lula e aguentou uma série de perguntas repetitivas e enfadonhas. Na terça-feira, os pronunciamentos dos senadores se seguiram e na quarta-feira ocorreu a votação. Votos mudos afastaram Dilma do cargo definitivamente: estava sagrado o impeachment. A discussão que se seguiu se dava ao redor de seus direitos políticos. A ideia de que ela não poderia ser nem merendeira pareceu assustar os senadores que votaram pela permanência deles, uma fragmentação do processo preocupante. Cogita-se que até Eduardo Cunha, por exemplo, peça que ocorra a mesma coisa.

As manifestações que já estavam ocorrendo contra o governo interino aumentaram e com elas as repressões policiais. Temer tão logo chegou ao poder mandou que o exército fosse às ruas para as manifestações previstas para esse domingo em São Paulo.

Hoje ocorreu aqui novo debate com os “prefeitáveis”, agora na rádio 97 FM. Além dos dois fortes candidatos, um terceiro apareceu: Gilsen. Tal qual vitrola quebrada, repetiu várias vezes o descaso em que estava a cidade e o legado de seu pai, Alceu Queiroz, ex-prefeito, elogiado pela adversária como o melhor prefeito que Frutal já teve. Propostas? Trocar lixo por mantimentos, consertar calçadas, porque eu não sei falar direito, não tenho estudo, mas meu pai me ensinou, aprendi com o melhor, estou aqui para trabalhar.

O formato do debate limitava os atritos: apresentação, perguntas sorteadas, perguntas dos ouvintes direcionadas, perguntas entre si (30 segundos!) e finalização. Até as perguntas dos ouvintes, a Ciça dominou. A experiência na prefeitura deu a ela uma língua calejada de lábia e termos que agradam o ouvinte: repasses, pagamento em dia, emprego. No entanto, depois das várias indiretas trocadas durante as outras etapas do debate, ao ser confrontada por seu adversário mais forte se irritou, perdeu a calma e o tempo. Antes parecia soberana com os minutos contados sem afobamento, depois... O menino belisca e ela desata a falar até ser cortada pelo tempo limitado. A primeira pergunta volta à tecla: ficha suja. Não existe nenhum governante nesse país que não tenha processo. Se tiver, me diga o nome. Ríspida, afobada, tendo que esclarecer questões numa velocidade, sendo questionada em sua candidatura. Candidatos são só eu e o Gilsen, sua candidatura não foi deferida, candidata. O menino se recuperou e comandou os últimos minutos de programa usando bem o 3º candidato como trampolim para se promover e falar de seus projetos, enquanto a adversária chegou a dar conselhos (?!).

O quarto candidato segue sendo um mistério, um fantasma. Enquanto Gilsen pede voto sem ter visitado casas, só 45 dias de campanha, ele alega, o último sequer aparece em debates, ninguém sabe seu número ou suas propostas. Temos então que escolher entre o novo, o experiente, uma vitrola quebrada e um fantasma. Que eleição. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Para falar de política

Num muro perto do viaduto Conrado Heitor

Para falar de política é preciso chegar antes e ainda assim se chegará atrasado: a política já está acontecendo há muito, muito tempo. Sem surpresas. Quase tudo já está acontecendo quando nascemos ou acordamos pro mundo. História, por exemplo. Quantos mil anos não estudamos antes de chegarmos aos nossos dias? Erroneamente, claro, entendemos que o que aprendemos já está pronto, é a verdade, é aquilo e só. Aos poucos, vão sendo revelados mais detalhes, mais peças, mais e mais o conhecimento vai sendo engrossado para ser ensinado posteriormente... ou não, se depender do projeto Escola sem partido.

Partido por partido, voltemos à política. Já está acontecendo e é tão enfadonhamente confusa que ignoramos quando criança e continuamos ignorando quando adolescente. Tanta coisa para se preocupar. Política? pff.  A nacional ainda move paixões, partidos grandes, qualquer deslize se torna enorme (afinal, é um país), as discussões são melhores, televisionadas, mais elaboradas. Já a municipal... No entanto, quando acordamos a reação é a mesma: MEU DEUS DO CÉU, QUE QUE ISSO? Aí vemos absurdo, aí vemos abuso, aí vemos tanta coisa torta que preferimos não ver. Ou votar no menos pior. Ou nem votar. Olha, se você não se candidatar, não, prefiro pagar a taxa lá.

Uma das candidatas, a Maria Cecília Marchi Borges, a Ciça, a mesma da pichação acima, se aliou a um antigo adversário para concorrer a essa eleição. Ela foi condenado por fraudar um concurso público em 2005. E está fazendo campanha desde a semana passada. O Facebook está cheio de corações com 22. Não que adiante: ela pediu recurso, mas foi negado. Isso significa que ela não concorrerá às eleições? Não, isso só significa que ela pediu recurso e foi negado. Teoricamente ela não deveria estar fora? Teoricamente, segundo a Lei da Ficha Limpa. Mas, enfim, o que entendemos de política, não é mesmo? Seguiremos vesguíssimos com um olho no municipal e outro no nacional: começaram a julgar hoje o processo de impeachment da Dilma.  

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Hello, goodbye




Você não precisa ser exatamente um viciado em internet para ter se deparado com o meme Lula preso amanhã - em chacota à manchete do site O Antagonista. Da mesma forma, os boatos que a greve tinha acabado/acabaria amanhã iludiram os alunos exaustos por meio julho a fora. Acabou, já estamos reformulando calendário e na assembleia entre docentes seguinte Opa, não é bem assim.

Demorou. A greve dos alunos só terminou, por unanimidade, no dia 27. A greve dos professores só viria a terminar na semana seguinte, 3 de agosto, por 18 x 11. 2 abstenções. Exaustos e com pinta de heróis, alguns decidiram sair lá da Cochinchina para pôr fim à desordem causada por essa vilã chamada greve que há meses vinha assolando a pacata universidade em Frutal.

Semanas depois de dizerem que tinham feito, em tempo recorde, um novo calendário, desaprenderam. Desde a tomada da decisão para o fim da greve e com prenúncios de 5º horário e aulas aos sábados, não se quebra a cabeça com outra coisa - fortes concorrentes são o Pokémon Go e o resumo do Seminário de Pesquisa e Extensão.

Guardado o período de susto, "queda na real" e abertura das Olimpíadas, as aulas começaram o mais normalmente possível nessa segunda-feira, 8, seguindo o calendário antigo que tinham dito que havia sido suspenso. Dizem muitas coisas. A lanchonete, depois de assaltada, segue fechada, o contrato de 3 professores terminou em julho e outros 4 do curso de Administração pediram as contas. A previsão é que, seguindo o novo calendário, o primeiro semestre seja fechado em setembro e até 23 de dezembro, o ano.

Ainda que oficialmente terminada, a greve persiste em cartazes no hall de entrada (ou foyer) e nos alunos que encabeçaram o movimento. Já nos primeiros horários, os alunos se reuniram no anfiteatro para discutir maneiras de deixar o novo calendário mais aceitável já que alunos moram fora, trabalham, têm família e podem ficar prejudicados ao chegarem muito tarde ou com a 'perda' dos sábados. Chamaram à chincha: deram apoio e querem retorno.

Houve uma reunião ontem à tarde para se discutir a feitura do novo calendário. A responsável pelos horários do curso de Jornalismo saiu exausta e, fora os nomes dos professores cujos horários ainda faltavam serem preenchidos, o máximo que se ouviu foi: não dá para mexer com o governo. Aparentemente, acabaram-se os sábados.     

sábado, 6 de agosto de 2016

Crônica Olímpica


As nossas Olimpíadas
Crônicas são as reclamações, a comparação braba entre a realidade e as construções para gringo ver, o complexo de vira-lata, dizem, Londres fez melhor, Pequim então... Crônicas também são as exclamações, os oba-oba ufanistas, eu amo o Brasil, melhor país, o Brasil inventou as cores e etc... ao assistir uma cerimônia espetacular (e demoraaaada) como a que pudemos acompanhar ontem: a Cerimônia de Abertura do Jogos Olímpicos do Rio 2016. Assim, em letras maiúsculas, um baita título. E crônica é essa minha necessidade de exercitar os dedinhos no teclado, para criar textos, malhar lembranças.

Nasci alguns dias depois do início da Copa do Mundo de 1994. Logicamente, tudo o que sei da conquista do tetra foi me passado pela TV e pelos comentários da família: diferente dessa seleção aí, de meninos e penteados escandalosos, a seleção de 94 era séria, cabelos curtos, baixinhos. Minhas primeiras Olimpíadas então são de 1996 em Atlanta, diz o Google. Com 2 anos, ainda posso ser poupada de cobrança. 2 anos? Quais seriam seus interesses aos 2 anos? Comer e dormir, claro. As memórias mais antigas que tenho datam de quanto eu tinha 4 anos, 1998 portanto, mas nada, nada relacionado à Copa do Mundo. Sei que muita gente preferia esquecer, mas fazer o que, né? Minhas segundas Olimpíadas são de 2000 em Sidney. Aos 6 anos, na virada do século, eu já estava na pré-escola e teoricamente deveria me lembrar de alguma coisa. Deveria. Se a História só passa a ser História depois da invenção da escrita, talvez funcione da mesma forma para mim. 2001 começou minha odisseia pela leitura e, provavelmente, pela escrita. Da Copa do Mundo de 2002, já tenho lembranças mais nítidas. Aos 10 anos, tive minha primeira Olimpíada. Atenas, 2004.
Logo das Olimpíadas de 2004

Provavelmente, nunca irei competir então posso dizer minha primeira Olimpíada sem ter que me retificar no futuro. Minha primeira olimpíada e eu já gostava de colecionar suvenires. Fora da escola, havia uma mulher que vendia todo tipo de coisas para comer: geladinhos, cremosinhos, salgadinhos, balas, chicletes e todo tipo de coisa colorida que faz mal pros dentes, mas que é delicioso. Dentre essas guloseimas, havia um confeito muito colorido com uma figurinha das Olimpíadas de Atenas. Não era bom, a figurinha era de má qualidade, mas comprei assim mesmo para tê-la. Depois de pedras, conchas, uma figurinha. A fascinação por coleções só fez piorar com o tempo.

Sant Seiya é um mangá/animê
dos anos 80.
O maravilhoso de que essa tenha sido minha primeira Olimpíada é que a partir daí nasceu um encanto desmedido pela mitologia grega, Antiguidade, História e etc. Corroborado, claro, pela exibição de Saint Seiya na Band, a saída do primário e o consequente ensino de uma História que saía do massante resumo de como Frutal tinha recebido esse nome. Outra maravilha nisso é que seja justamente quando as Olimpíadas voltaram pro berço. Como houve outras 27 olimpíadas antes que não assisti, na minha mente infantiloide, é como se eu estivesse acompanhando desde o começo. E a 3ª maravilha desse mundo é que me lembro exatamente de quando o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima foi atrapalhado pelo homem vestido de irlandês, o gosto da frustração, o espanto pelo inusitado e ontem poder vê-lo acender a pira olímpica. Ver um acontecimento infeliz e poder testemunhar a justiça reparada é inacreditável. A satisfação é fantástica. Advogados e juízes se sentem assim? Sortudos, vocês.      

Vanderlei Cordeiro de Lima
Foto: AFP / Emmanuel Dunand
Esta então é minha quarta Olimpíada. Houve muitos problemas no decorrer da construção dessas Olimpíadas. Muitos. Demais. Virge' Maria, nem se fale. O Estado do Rio de Janeiro chegou a anunciar estado de calamidadeÉ esse o país que vai/quer sediar os Jogos Olímpicos? As inúmeras reportagens mostrando o estado da Baía da Guanabara, os comentários sobre a bagunça no trânsito causada para as Olimpíadas, o medo dos atletas pelo zika, a situação precária dos apartamentos de algumas delegações, as besteiras ditas pelo prefeito Eduardo Paes, tudo se juntou num pessimismo atroz contra meu fósforo de gostinho pelo evento. Porque eu adoro o evento. Muito. Dos arcos coloridos a ter nascido na Grécia. Do espetáculo a diversidade infinita de esportes que faz gosto acompanhar. É triste que um evento tão bom tenha um pano de fundo tão ruim. Volto pra cima do muro. Acompanho deslumbrada a cerimônia de abertura, aplaudo tudo, ensaio choros e gritinhos maravilhados, mas lembro que o empenho que fizeram para incentivar o reflorestamento, o alerta sobre o aquecimento global, aquela mensagem maravilhosa de Drummond narrado pela Fernanda Montenegro/Judi Dench, não é praticado sequer para limpar as próprias águas. Tudo maravilhoso, com inclusão, mas a realidade não é assim. É pão e circo, a gente sabe. Tão bom pão e circo.

sábado, 30 de julho de 2016

Viva a Tropicália lia lia

O livro
"Viva a bossa sa sa,
viva a palhoça ça ça ça ça"

A música é antiga, é famosa, mas, nos últimos meses, desde março especificamente, tem estado presente dentro de cada casa através da TV, na abertura da novela Velho Chico. Quem não tinha ouvido, ouviu, quem já tinha, adorou, quem nunca entendeu, seguiu sem entender. Que negócio é esse de “Sobre a cabeça os aviões, sobre os meus pés os caminhões [...] Viva a bossa sa sa”? O ritmo é ligeiro, é diferente, você pisca e fica sem entender o verso anterior e o seguinte e já fica de má vontade.
A logo da novela 

A mesma reação de décadas atrás quando ela foi apresentada, quando os baianos, principalmente, foram parindo o movimento tropicalista na música e chocando a juventude do engajamento político, da TV e dos festivais.

Você já deve ter ouvido falar em Tropicália, movimento Tropicalista. Não? Bossa Nova, Jovem Guarda, MPB? Pelo menos, Gil, Caetano, Gal, Os mutantes, Tom Zé e Torquato Neto você conhece, né? Alguns deles? Umzinho só?

A Tropicália é de antes deles. Começou nas artes com Hélio Oiticica e tinha suas origens ligadas ao antropofagismo de Oswald de Andrade. A música Tropicália foi nomeada assim por conta da obra do Oiticica e à revelia do autor. Acharam que ficava bom e ficou. Havia uma identificação com a arte, mas aparentemente não era bem esse o nome ou a ideia que os rapazes tinham em vista. Independente disso vestiram a camisa e foram construindo suas estradas.
A Tropicália de Hélio Oiticica, 1960
Fonte: Instituto by Brasil

Na década de 60, o mundo musical fervia. O rock vivia seus áureos tempos com uma profusão de bandas nascendo e alcançando voo, a bossa e seu papa João Gilberto estavam aí para ser desfrutadas, tinha a MPB politizada, a Jovem Guarda fazendo sucesso. A TV recém-nascida viu nisso uma oportunidade e além das competições entre programas musicais, os festivais. Os fabulosos festivais da TV Record.

Enquanto há os que não conhecem, há os saudosistas: Música boa era naquele tempo, Queria ter nascido nessa época ou Nasci na época errada. Paciência. Fato é que nos anos 60 era abrir os ouvidos e ser “atingido” por inúmeros ritmos, uma palheta de sons variada para escolher. Ao mesmo tempo em que havia uma competição, um espaço delimitado, cada qual no seu campo, havia os incomodados que queriam coisa nova, quem pensasse que não precisava ser assim, que junto poderia ficar melhor. E ficou. E foi mesmo juntos que Gil e Caetano deram os primeiros passos para a criação da Tropicália.

Criação entre aspas. Caetano mesmo diz que não criaram nada. Não tinham a intenção de substituir a MPB ou coisa do tipo. Pegaram o que havia, o que chegava até eles e experimentaram. Por que não guitarra elétrica? Por que não boy bands? Por que não? Por que não? Por que não?

Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
Num sol de quase dezembro
Eu vou


No caminho, acharam gentes que pensavam como eles e que topavam o projeto. Foi por acaso que Gil encontrou com Os mutantes em estúdio e pediu para o produtor para fazerem o acompanhamento de Domingo no parque. Gal já era de casa e entrou no mesmo barco que os amigos, Tom Zé foi trazido por Caetano e Torquato se encontrou com eles em letra e música. Outros amigos também foram instados a participarem, mas arredios olharam com desconfiança o que estava surgindo.



O livro de Carlos Calado apresenta cada personagem, conta um resumo de sua história até aquele determinado ponto. Um a.T: antes da Tropicália. Sabia que Caetano queria mesmo é cinema? Sabia que Gil compunha jingles quando jovem? Sabia que Bethânia queria ser atriz? Sabia que o livro dá um ótimo panorama do que se passou naquele período no cenário musical? As competições, o início e o fim da Tropicália e o exílio da dupla em Londres? E há o d.T: depois da Tropicália. O livro é de 1997 e conta que rumo tomou aqueles artistas, a morte prematura de Torquato, o último sopro da Tropicália, a turnê Tropicália 30 anos, a herança deixada, os artistas que beberam da fonte... Sim, até os artistas que beberam da fonte!

É ricamente ilustrado. Tem as fotos do Sérgio Ricardo quebrando o violão, inclusive. E fotos de ensaios, fotos dos artistas jovens que parecem retiradas daqueles acervos de família. A história de Gil e Caetano tem um destaque nitidamente maior que os dos outros integrantes da Tropicália. Se você ficou curioso para saber um pouco mais sobre a biografia e atuação de x, vai ter que se esforçar mais da próxima vez.

Uma dica bacana para quem quer sentir o clima daqueles festivais é o documentário Uma noite em 67 (2010). Além dos números, dos quais fazem parte as músicas acima, há depoimentos de Gil, Caetano, Chico, Sérgio Ricardo e várias outras peças fundamentais no espetáculo. O único lamento é a ausência de uma entrevista com Elis Regina. Morta em 1982, aparece em algumas cenas do documentário e a música que fecha é interpretada por ela, O cantador. 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

CSA: Comunidade que sustenta a agricultura (orgânica)

Banner da palestra divulgado em redes sociais

Na quarta-feira, 13, uma palestra marcada para as 19h30 no anfiteatro da UEMG apresentou a CSA à comunidade frutalense. Uma reunião já havia ocorrido em abril, mas nesse interim um CSA foi criado, passou a funcionar e já atende 40 famílias. A inauguração do CSA Frutal aconteceu no dia 9.


Logo do projeto CSA
Wagner Santos, o palestrante, é um representante da CSA Brasil e tratou de esclarecer do que se trata, como se meteu nisso e os benefícios e dificuldades que não faltam. 

A CSA é pensada como uma forma de beneficiar os produtores que não são favorecidos pelo mercado, financiando o cultivo da terra e garantindo uma mesa rica de frutas, verduras e legumes para os consumidores, os co-produtores, amigos do projeto. 


Com o pagamento adiantado, firma-se o compromisso de mensalmente ser fornecida uma cota de produtos orgânicos para cada membro tudo devidamente discutido em reunião por cada CSA. 



Entre as propostas da CSA estão:

- A ajuda mútua: o produtor fornece um produto de qualidade ao consumidor que pode acompanhar como é o cultivo.

- Diversificação da produção: sem o mercado pautando o que deve-se ou não produzir, o produtor fica à vontade para diversificar conforme a estação e seu solo.

- Aceitação de produtos da época: é época de tamarindo? Fornece-se tamarindo.

- Preços justos: discute-se o valor que fica melhor para os dois lados. O consumidor tendo contato com as dificuldades do trabalhador entenderá o porquê daquele valor.

- Relações de amizade: estabelece-se uma camaradagem entre as partes devido ao convívio.

- Distribuição independente: cada consumidor terá sua cota que será recebida conforme o acordado.

- Gestão democrática: tudo pautado em conversa.

- Aprendizagem mútua: como o projeto é novo, o aprendizado é constante.

- Produção e consumo local: nada de importar alimento de fora se há o que comer em casa.


- Estabilidade: com a mensalidade garantida, o produtor pode continuar produzindo tendo uma estabilidade.

A família da produtora Sirlene Soares abastece a CSA frutalense e é a única da cidade a ter certificado de produtor orgânico. Ela conta que iniciou na agricultura orgânica no final de 2012 e como não houve uma transição, subitamente decidiram que não iriam mais usar agrotóxicos, sofreram um bocado.

Faziam a feira três vezes por semana e ainda forneciam a um mercado da cidade, mas a concorrência com outros produtos que não tinham a mesma preocupação era desigual e vendia pouco. A certificação só veio em 2015. Segundo Tuninha, como ela é popularmente conhecida, em mais de 853 munícipios do estado de MG, eles eram o 12º a ser certificado pelo IMA. 

No entanto, mesmo com certificação, mesmo podendo alardear que seu produto era limpo de agrotóxicos, não houve melhoria nas vendas e decidiram parar. Tudo mudou quando foram apresentados ao projeto em abril. Ainda com dúvida se Frutal tinha público para isso, se apaixonaram pelo projeto e resolveram tentar. O mesmo Wagner deu uma palestra no sítio dela, algumas famílias se interessaram e já em junho faziam retirada da cesta.

Sirlene diz que ainda estão no vermelho e precisam de 65 famílias para ficarem bem, mas está confiante no sucesso dessa empreitada. A família tem acompanhamento da Emater desde que optaram pela agricultura orgânica. 

Se quiser saber mais do projeto acesse o site http://www.csabrasil.org/csa/ e encontre um produtor perto de você.

sábado, 9 de julho de 2016

Arrombaram a UEMG II

Na madrugada da última quinta-feira, 7, a UEMG e a HidroEX entraram para a lista das entidades arrombadas de Frutal. Às 3h os vigilantes notaram que as fechaduras do Bloco B e do laboratório estavam sem o miolo e chamaram a polícia. Um computador, ao menos, foi roubado. No prédio da HidroEX, há alguns metros, no entanto, especula-se que o furto foi maior, mas ainda estão averiguando os danos e até o momento nada foi divulgado.

Depois do número impressionante de invasões à APAE frutalense, só esse ano foram quatro!, os bandidos viram no alto do morro, afastado do centro, um novo alvo. Não por acaso. Desde a prisão do deputado Narcio Rodrigues, no fim de maio, por desviar dinheiro da HidroEX, todos os olhares se voltaram para a instituição e matérias da Rede Record mostrando o que havia no prédio pode ter sido o chamativo que despertou a atenção dos ladrões. E ainda assim, tardiamente. Há tempos já se comentava o perigo que os prédios corriam tendo muitos e caros materiais e vigilância pouca.

Indagada sobre o que seria feito para prevenir novos furtos, a assessoria da UEMG informou que, além de trocarem as fechaduras, o que ocorreu logo à tarde, o diretor contatou o governo para que fossem enviados uma guarda do estado e o apoio da polícia até que os materiais sejam transladados depois do fechamento da HidroEX. A polícia informou que utilizaram um pé-de-cabra para arrombar as portas. Não se sabe em quantos eram os assaltantes.

A unidade UEMG-Frutal completou na última semana 2 meses de greve unificada. Não foi divulgada uma expectativa de fim da greve pelos professores e os órgãos do governo responsáveis pela negociação seguem irredutíveis. Com o fim do período, sabe-se que já não haverá dias disponíveis para reposição neste ano o que consequentemente pode atrasar o início das aulas de 2017.

Nesta semana também aconteceu o 1º CONUEMG em Belo Horizonte. Um congresso que, além de promover a união entre as diversas unidades espalhadas por todo o estado, discutiu a criação de um DCE, de políticas de assistência estudantil e debates. Um ônibus lotado de estudantes partiu de Frutal na tarde da terça-feira, 4, rumo ao Sesc Venda Nova para o congresso.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O caso é grave, a solução é greve

15 de junho - Anfiteatro da UEMG

De cima do palco:
QUEM FOR CONTRA A CONTINUIDADE DA GREVE FIQUEM À ESQUERDA. QUEM FOR A FAVOR, À DIREITA. NO MEIO, OS PROFESSORES. SÓ OS PROFESSORES. O QUE? VOCÊ É IMPARCIAL ENTÃO FICA À DIREITA TAMBÉM. SÓ OS PROFESSORES, GENTE. TODO MUNDO SENTADO PARA CONTAR. SENTADO, GENTE. ESTÃO CONTANDO JÁ. FIQUEM SENTADO. TEM LUGAR ALI, Ó. SENTEM.

À esquerda:
MAS É ALUNO QUE ESTÁ CONTANDO! ASSIM ATÉ EU. É ALUNO. VAI ROUBAR PRA ELES. EI, FULANO, CONTA VOCÊ TAMBÉM AQUI. QUERO VER.

Resultado:
104 x 88.

À direita:
NÃO VAI TER GOLPE! NÃO VAI TER GOLPE!

À esquerda:
Eu sabia. A galera não quer greve, mas também não vem. Na minha sala tem uns 4. Ih, na minha sala ninguém quer, mas ninguém vem. Só veio eu, a fulana e a sicrana. Pois é, mas da próxima vez...

À saída:
Você viu? A diferença foi pequena. Quanto que foi? Cento e pouco a oitenta e oito. Cento e quanto? Cento e pouco. Disseram que a diferença foi de 16, faz as contas. Da próxima vez...

[...]

Depois de adiar a assembleia do dia 24 para o dia 27 para que a presidente do Diretório Acadêmico pudesse estar presente para fazer os devidos repasses, os alunos voltam ao anfiteatro para se inteirarem do que está se passando e votar pela continuidade ou não da greve.

Más notícias, galera, sem alterações, disse a professora. Silêncio. Reunião quarta-feira. Silêncio. Reunião hoje à tarde: segue a greve. Silêncio.

Vamos fazer com que assinem um documento disse a repassadora de informações. Silêncio.

Vamos abrir espaço para falar. 10 minutos para se inscreverem. Silêncio.

Como poucas pessoas se inscreveram, mais 10 minutos para se inscreverem. Silêncio.

"O caso é grave, a solução é greve" - máxima de alguém da mesa.

2 pessoas se inscreveram.

CÊS VIERAM AQUI PRA QUE? perguntou um dos moços que se inscreveu.

Quem tiver precisando de emprego é só ir no centro que estão precisando. Não posso falar nomes, mas é só ir lá, disse a outra moça que havia se inscrito.

De cima do palco:
QUEM FOR A FAVOR DA CONTINUIDADE DA GREVE VEM PRA FRENTE. QUEM FOR CONTRA VAI LÁ PRA TRÁS.

Alguém perguntou:
ONDE A GENTE VAI SENTAR?

Outro alguém respondeu:
MELHOR DIVIDIR CADA UM PRUM LADO.

De cima do palco:
QUEM FOR CONTRA A GREVE VAI PARA A ESQUERDA. QUEM FOR A FAVOR VAI PARA A DIREITA. PROFESSORES NO MEIO. QUEM NÃO TIVER MATRICULADO TAMBÉM É PARA IR PRO MEIO.

À esquerda:
SENTA AÍ, CARA. ELE TÁ CONTANDO. SENTA AÍ. NÃO TEM CADEIRA. AQUI TEM. ALI, Ó. CHEGA PRO LADO. DEIXA O RAPAZ SENTAR. SENTA AÍ QUE ELE TÁ CONTANDO. SENTA AÍ. SENTA AÍ. SENTA AÍ.

Resultado:
90 x 89

À esquerda:
É, mas cê viu que só o número deles que baixou, né? Qual dos lados teve menos dessa vez? Eu só entrei para a votação. Ouvi a menina falando, meu amigo disse que não, mas já ia começar a votação. Andou mais rápido dessa vez, né?

[...]

Numa próxima assembleia que não tem data definida ainda porque ninguém propôs:

Resultado:
50 x 50.

À direita:
MAS ESSE AÍ NEM ALUNO É! CÊS TÃO ROUBANDO!

Resultado final:
50 x 49.

À esquerda:
Ah, cara, da próxima vez é certeza que a gente ganha e acaba com isso de greve. Quer ver? Vou falar para minha turma vir. Eles não vinham porque achavam que não ia dar em nada, mas da próxima vez, da próxima vez!

[...]

Na assembleia nºx para decidir a continuidade ou não da greve:

Resultado:
3 x 4

Alguns:
A Jaqueline não conta porque fica em cima do muro. Ainda? Ah, é caso perdido. Par ou ímpar?

sábado, 25 de junho de 2016

De sapato a Salto alto: o Intercom Sudeste é aqui!

Imagem de divulgação do evento no Facebook

Do que vem antes do começo:

Eu não sabia, mas quem quer que repare no Portal Intercom acaba encontrando na aba A Intercom , dã, do que se trata. Quando nos perguntam, e como perguntaram!, o que é o evento dizemos simplesmente: ah, é um congresso de Comunicação. Se estamos prolixos, emendamos: cada região organiza o seu e os melhores trabalhos apresentam no congresso nacional. Se nos pegaram numa hora realmente boa, acrescentamos: esse ano o congresso nacional será em São Paulo :). Não é só um congresso, é uma instituição de quase 40 anos - a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação. Você descobre o que é e, de cara, sana a dúvida quanto a concordância: se diz A Intercom ou O Intercom? Depende. Ao que parece, se estou falando do congresso da Intercom, digo o Intercom, já se eu estiver falando da instituição...

O começo:

Imagem de divulgação no site
(ainda que não conste a região, esse é o prédio da CEUNSP,
logo Intercom Sudeste)
Depois de ter acesso ao congresso pertinho de casa (a edição 2015 aconteceu em Uberlândia -MG), Salto passou a existir quando não seguido pela explicação "é depois de Campinas", "perto de São Paulo", o que quer dizer em língua mineira que é muito longe, longe demais, longo pra caramba, nem-dá-para-ir.

Fomos. A bailarina-secretária-jornalista Monielly Barbosa e eu. Fazendo escalas pelas cidades, matando tempo em rodoviárias até chegar ao destino. Para onde vocês vão? Para Salto. Que Salto? Porque há isso também. Há vários Salto. Fora as piadinhas com sapato de salto, chinelo, tênis, numa busca rápida no Google, encontro facilmente nada menos que 8 cidades com esse nome: Salto da Divisa (Minas Gerais), Salto de Itu (São Paulo), Salto Grande (São Paulo), Salto do céu (Mato Grosso), Salto Veloso (Santa Catarina), Salto (Uruguai) e Salto del Guaíra (Paraguai). Desconhecendo todas essas cidades (Nina diz que adora viajar, mas mal saiu do seu estado, a pobre) e já tendo lido o mapa, a resposta incerta é: Salto de Itu, que não é de Itu, mas como fica coladinho, deve ser esse mesmo. E é.

Salto - SP:

A bailarina-secretária-jornalista-fotógrafa-mor Monielly, eu
e a Ponte Estaiada/Mirante ao fundo.
Salto de Itu, que-não-é-de-Itu, é uma estância turística. Completava 318 anos quando chegamos brindados com a inauguração da Ponte Estaiada (o mirante) e a reforma da praça Archimedes Lammoglia.

Cidade desconhecida, dinheiro pouco (olha a crise! É mentir... ops), precisamos de um hotel próximo e relativamente barato. Achamos o Hotel Rio Branco na mesma rua (pros meus critérios, qualquer coisa na mesma rua é perto, seja um, dois ou cinco quadras como é o caso), rachamos as despesas e fizemos a reserva (50% antecipados, 50% depois. Você paga primeiro e eu depois? Ok. Ok). 

A diária só começava ao meio-dia, mas, como chegamos cedo, permitiram que deixássemos as malas no hotel. Havia credenciamento por fazer e palestra logo cedo. No entanto, achamos o Tietê no meio do caminho. Nos dirigíamos ao prédio do CEUNSP, onde seria sediado o Intercom, quando ouvimos o barulho inconfundível da correnteza do rio. Somos mineiras, estamos acostumadas a rios grandes (ba dun tss), mas o Tietê naquele ponto dava a certeza de que qualquer coisa viva que caísse ali dentro desapareceria. Até a palavra. Gritasse RIO TIET- e antes que se completasse o grito já teria sumido. E era tão próximo, tão impressionante que acabamos visitando aquele ponto muitas vezes, mais de uma vez ao dia. Para fotos e para embasbacamentos. Da minha parte, principalmente.

O Intercom:

Uma parte do prédio da CEUNSP 
 De costas para o rio, o prédio da CEUNSP é monstruoso... e misterioso. Acabamos por não descobrir o que era antes. Colégio de padres? Parece. Enorme. Com ladeira de paralelepípedo ou coisa parecida. Com janelões azuis enormes. Com tijolos a vista. Com canos vermelhos que me lembravam estações de trem inglesas - não faz sentido. E gatos (na UEMG, temos cães). E banca de livros usados e banca de livros da Unesp. E lanchonete. Tudo junto numa área coberta enorme com mesas e cadeiras de plástico vermelho. 

Os blocos têm, pelo menos, dois andares. Sem elevador. As escadas parecem maiores, os lustres são redondos e as salas são realmente muito grandes. E geladas. Não duvido que num dia mais frio tenha nevado nas salas do bloco C.

Tanto a oficina em que inscrevi (sobre Jornalismo Literário. Uma única oficina para três dias de evento. Um absurdo!) quanto as palestras assistidas (sobre a importância de João Batista de Andrade no documentário e Ilustração Publicitária) aconteceram todas nesse bloco. As não assistidas também - não porque não fui, mas porque a palestrante não pôde comparecer.

Andança:

Três dias de evento, mas só dois com atividades. Distância muita, cansaço também. Viajar à noite é chato e perigoso e um bailarino fantástico vai estar em Fronteira na tarde de domingo! Vamos embora no domingo! Mas antes...

Vista panorâmica da praça Archimedes Lammoglia, centro de Salto
O primeiro dia se passou todo no vai-e-vem da rua José Galvão. De hotel até CEUNSP e arredores, de arredores de CEUNSP até hotel. Não que fosse pouco. A cidade é pequena e tudo o de relevante tanto do ponto de vista funcional quanto turístico se amontoa ali no centro: padaria, restaurante, pizzaria, farmácia, supermercado, as praças, o museu, a igreja... A ponte estaiada. 

Mapa turístico da cidade de Salto
Ainda não consta no mapa turístico, mas a ponte estaiada/mirante já é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade, um dos primeiros pontos turísticos que visitamos, mas antes veio o museu.

Cobiço museus desde antes de me interessar por História com H maiúsculo e já cobiçava esse museu antes de entrar, antes de saber o que tinha, antes mesmo de escolher hotel. O hotel fica próximo do museu. Ma-ra-vi-lha! 

Mais até do que bem organizado, o museu saltense é recheadinho de história. Bom, são 318 anos, não é? Não há um lugar certo por onde começar a visita e bate um desespero tentar ler e ver tudo - ainda que eu tenha a impressão que a ordem é cronológica e horária. À direita, há salas e mais salas. Além de textos diretamente na parede, contei dois computadores. Imagino que como todo museu moderno, inseriram o digital para deixar mais atrativo ao público e permitir algum tipo de interação, os objetos, no entanto, seguem sendo o centro das atenções: máquina de tecelagem, cofre, caixa registradora, carteiras escolares, piano e uma disputadíssima banheira:


 Algumas quadras de casas antigas depois e você só não vê o mirante se fechar os olhos. Escolhemos o caminho mais longo por absolutamente nenhum motivo específico. Cruzamos a ponte para, logo depois, caminhar muitos metros de volta até o prédio de paredes espelhadas. Da ponte, podemos ver Nossa Senhora de Monte Serrat. Diferente do mapa acima, a estátua fica bem mais distante. Ao contornarmos o mirante, achamos a porta e uma fila. Havia uma fila! E conforme fomos esperando mais pessoas foram se juntando, todas ansiosas para ver sua casa de cima. A moça graduada em Turismo que cuidava da subida dos visitantes esclareceu sobre o aviso que proibia expressamente a subida pelas escadas. Só pelo elevador. E se a pessoa for claustrofóbica? perguntei. Não sobe. Para outra pessoa, explicou melhor: haviam tido problema com crianças. Segundo ela, o mirante demorou de 3, 4 anos para ser construído e há o projeto de teleférico ainda para ser viabilizado. Diferente de um taxista que empolgado diz que já está 90% concluído, a monitora de turismo diz que só na gestão de outro prefeito como se fosse algo distante a se perder de vista.


Curiosidade sobre a estátua de Nossa Senhora de Monte Serrat. Crédito: Monielly Barbosa

O próximo passo, parada (ou salto, ba dum tss) foi o Parque Rocha Moutonneé. Empolgadas com a possibilidade de ver os amigos dinos, como diz a Moni, andamos cerca de 20 min por uma estrada sem acostamento e irregular para encontrarmos o parque sem guia turístico. Havia um aviso para assinarmos o livro de visitas que não estava lá. E havia vários outros turistas zanzando. Sem guia turístico. O parque estava aberto, em pleno funcionamento, sem um maldito guia turístico que pudesse dar uma informaçãozinha complementar para as jornalistinhas tentando exercer a função. Gravamos boletins (Segurei a câmera, no caso. Muito bem, aliás) ou coisa parecida. Queria um guia turístico.

Monielly e 'migo dino'
Há mesmo estátuas de dinossauro lá. Dois robóticos que fazem barulho e mexem o pescoço e as patas dianteiras. O tiranossauro rex, pelo menos. Moça, moça, o sauro está com pescoço cortado, disse uma pequerrucha encantada pelo sauro. E nem era a primeira vez dela lá, diz a mãe. Eram mesmo monstrões fantásticos. Há um lago - em referência ao início da vida, segundo a Moni. E há a pedra que por ter formas parecidas com o de um carneiro dá nome ao parque. É um lugar bem grande, mas eu esperava outro

Peirópolis com fósseis expostos para vermos, uma apresentação da área onde foram encontrados, essas coisas. Sem guia, sem fósseis, sem informação.

A volta foi mais demorada. As voltas. Quando voltamos para casa no domingo, a 1h entre Salto e Campinas pareceu grande e as 5h (é isso?) entre Campinas e Rio Preto pareciam não ter mais fim. É lei? Toda volta demora mais? É para irmos nos desligando, abandonando devagarinho? Não sei se funciona, não, hein.

Sobre a cidade:

O tamanho diminuto da cidade vem desde sua fundação. Era uma fazendola quando nasceu, um sítio, pertencente ao sobrinho do bandeirante Raposo Tavares no município de Itu. Por conveniência, Antônio Vieira Tavares pediu permissão ao bispo para que se construísse uma igreja em suas terras. Com a doação das terras em testamento em 1700, Salto passou a ter como data de fundação a da benção e da primeira celebração de missa na Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat em 16 de junho de 1698.

A praça da igreja leva o nome de seu fundador. Em mais de um lugar, há referências aos que construíram a cidade. Na dita praça, o marco zero tem as estátuas de um trabalhador, um padre, um bandeirante, uma mulher em pé e outra ajoelhada, mas a placa não parece se referir às estátuas - é um agradecimento ao Antônio Vieira Tavares. Seria ele o bandeirante? Não faço ideia.

Em azulejo, atrás do CEUNSP, estão pintados, dessa vez mais nitidamente, os homens que construíram a cidade. Os homens. Sem mulheres dessa vez.

Os homens que construíram a cidade, eu e mais janelas azuis 

Uma semana após a visita e recuperada do cansaço da viagem, ainda não superei o fato de Salto, uma cidade turística, não ter tirolesa. Na minha cabeça, fazia todo sentido Salto → saltar → tirolesa. Não tem. Se tem, não vi. E se tem e não vi, ficarei profundamente ressentida com Salto (optando sempre pelo chinelo).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Entrei na arquibancada errada ou Mamãe, eu fui golpista!

Imagem do Google - Qualquer semelhança pode ou não ser mera coincidência

Sou flamenguista desde o último campeonato brasileiro em que o meu time ganhou. Um pouquinho antes, para ser mais precisa. Resolvi dar mais atenção ao futebol, o Flamengo estava fazendo uma boa campanha, fiquei encantada, resolvi torcer e ganhou. Nunca tive muita sorte com esse tipo de jogo, tanto que os títulos posteriores são escassos e nem me interessa tanto assim - meu time jogou ontem? Empatou com o São Paulo? Que maravilha. Tenho um time, torço por ele quando está em campo e se restringe a isso minha posição clubista.

Caso é que: criaram um Fla x Flu na UEMG. 

Print de email recebido e divulgado  pela página Movimento
Estudantil Unificado
informando a mudança da data
Ainda que a reunião dos docentes com a SECTES tenha sido adiada do dia 9 para o dia 13, a assembleia dos alunos não teve a data alterada: aconteceu mesmo na última quarta-feira, 15, às 19h30.  

Com um público visivelmente menor, mas mais sincronizado, engajado na sua "própria" luta, a assembleia ocorreu num clima de absoluta tensão. Já prevíamos que as notícias não eram boas. Os repasses foram desanimadores: nenhum avanço na reunião recém-ocorrida. Não que fosse absolutamente novo. Desde antes de iniciarem a greve já sabiam que não havia proposta sequer de negociação por parte do governo. Continua sem ter. Segundo a professora Eliana Panarelli, responsável nestas assembleias por ser porta-voz e fazer os repasses do que ocorre nas reuniões de docentes, a cada proposta só recebiam não, não e não. No entanto, optaram por luta que segue. Os membros da mesa frisaram, em mais de uma oportunidade, que independente da decisão que se teria ali, os professores seguiriam com a greve. Esclareceram que, ainda que algumas requisições dos alunos já estivessem encaminhadas, precisam da assinatura, do documento para poder chamar de seu, cantar vitória. O tom foi sempre sóbrio e não continha tanto otimismo - nem da parte deles, nem da do corpo da assembleia que reagia histérica às falas de um ou outro grupo.

Dessa vez, quem mais vezes tomou o microfone foi o grupo intitulado Pró-aula. Não se pode afirmar que todos os que tomaram o microfone pedindo a volta imediata das aulas, chorando as pitangas e a formatura sejam parte desse grupo, mas certamente compartilham das mesmas ideias. O grupo em questão orquestrou uma reação. Saíram subitamente e em massa do anfiteatro e voltaram após alguns minutos como se nada tivesse acontecido. Quando puderam, repetiram os argumentos de sempre ao microfone e replicaram e insistiram até que o maestro (que faz as vezes de mediador) pedisse que parassem, que já estava bom.

Não estava. Ainda que fosse impossível dizer qual tinha mais aderentes enquanto misturados, ao serem separados, os pró-aula à direita de quem entra, os pró-greve à esquerda e os professores ocupando a fileira do meio, ficou nítido que os grevistas representavam a maioria ali. 104 a 88. Entre a contagem para confirmação e os gritos de NÃO VAI TER GOLPE foi um pulo. O nosso Fla x Flu.

Criaram um post antes, mas só responderam a essa imagem.
Uma imagem rende mais 'tretas' que mil palavras,
Assim como as torcidas quando não brigam no estádio, se enfrentam na rua, o assunto foi levado para as redes sociais, para o grupo dos Bixos. Quem participou da assembleia sabia que aquela definição sobre o que é golpe não era por acaso. Nova discussão, os mesmo desentendimentos.

Ainda na assembleia, marcaram uma reunião com a professora Andreia para a noite do dia seguinte,16, para que ela explicasse melhor a questão referente à reposição de aulas e, na sexta, para que os membros do Pró-aula trouxessem suas ideias de como lutar sem precisar recorrer à greve (uma dos argumentos do grupo é de que pode-se muito bem continuar a luta estando em aula). Segundo um membro da comissão de greve, 15 pessoas compareceram. Alguns sequer tinham ideia das atividades que ocorriam na ocupação e as ideias que trouxeram, diz, já haviam sido pensadas, debatidas e descartadas - ir nas escolas, por exemplo, buscar apoio da cidade.

Uma reunião entre os professores da UEMG unidade Frutal ocorreu agora à tarde e decidiu pela continuidade da greve. Nova reunião com os 'representantes' do governo deve acontecer no dia 23, quinta-feira, e no dia seguinte, assembleia dos estudantes.  

terça-feira, 7 de junho de 2016

La strada - e não tem nada a ver com o filme do Fellini

Desde o início das aulas temos tido problemas com a estrada de acesso à UEMG. Há dois meses* a estrada antes de terra começou a ser asfaltada e com isso criaram uma estrada paralela para se chegar à universidade. De uns dias pra cá, ela parece pronta, ainda que mantenha a divisória, mas poucos são os que ousam se aventurar. A estrada paralela, cheia de buracos, curvas e lama, parece mais confiável que a nova e é a escolhida pelos mineiros cautelosos e já conhecedores de onde o carro resvala no chão.

(A possibilidade dos mineiros serem pessoas radicais que gostam de rally não pode ser descartada, contudo. Nunca se sabe o que se passa na cabeça de povo movido a pão de queijo e café.)

Na segunda-feira, 6, houve a que chamam III Assembleia Unificada, mas há dúvidas de que tenha sido a terceira mesmo e a única união vista foi a dos pró-grevistas presentes – desde o início da reunião eles parecem ter representado a maioria. Havia, claro, uma parcela relevante dos contrários à greve presente, no entanto, em muito inferior ao número que, fora dali, expressa seu ressentimento quanto à ocupação e à falta de aulas.

Uma reunião de docentes à tarde deu o tom da assembleia noturna: independente do resultado, a greve dos professores continua. Divulgada essa decisão, muitos trataram com indiferença a necessidade da presença de nova assembleia, “não vai adiantar de nada mesmo”.

A assembleia começou com atraso. À hora marcada, das mais de 300 cadeiras que compõem o anfiteatro, apenas 80 estavam ocupadas. O atraso tornou impensável posteriormente a sugestão de uma aluna de alongar para 5 minutos o tempo dado aos alunos inscritos para expressarem sua opinião – alunos e um professor dos menos de dez presentes*.

A explicação da professora Eliana Panarelli sobre a reunião ocorrida, a atual situação dos profissionais e a necessidade de continuidade iniciou os trabalhos. A mesa, composta por 5 membros, ocupou a maior parte do tempo com explanações e repasses de informação. Apresentaram um vídeo institucional sobre a greve, um vídeo da presidente do Diretório Acadêmico e abraços a dois servidores públicos que estreitaram laços com os alunos nesse mês de ocupação.

A ideia de que seria muito pouco estratégico terminar a greve antes da reunião que ocorrerá na quinta-feira, 9, e que pode decidir a situação dos professores foi amplamente adotada. Até mesmo os que desejam o fim da greve, se renderam a esse argumento, “mais uma semana, que diferença vai fazer?”. As horas seguintes se passaram em rusgas, pazes e repetição de argumentos: quero ter aulas vs todo mundo quer ter aula, mas.

A UEMG nunca enfrentou tamanha greve, na verdade, greve de tamanho nenhum. A greve é a estrada nova, que está sendo asfaltada e que alguns estão cruzando entusiasmados com camisetas combinando enquanto outros temem o que virá pela frente e preferem a velha lamacenta, certa, e cheia de buracos.

Uma nova assembleia foi aprovada por aclamação para o dia 15 de junho. 

sábado, 4 de junho de 2016

Formas de se escrever uma história

A sinopse diz:
'Formas de voltar para casa' narra as memórias - ouvidas e vivenciadas - de um homem cuja infância se passou durante a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile. A narrativa se desdobra em dois momentos - o passado - começo dos anos 80 -, que o protagonista tenta recuperar para, então, finalizar um livro que ele está escrevendo no presente. Na busca por entender acontecimentos nebulosos, ele percorre um melancólico e dolorido caminho de volta na tentativa de escrever a própria história.
Mas se você também não costuma ler sinopses, o livro começa com Personagens secundários e um menino narrando um dia de terremoto e como conheceu uma garota mais velha e ficou encantado por ela. Nada especial, mas os capítulos curtos fazem a leitura mais rápida e temos a impressão de que a história segue assim também quando:  era uma história do novo livro que o homem está escrevendo. E que ele afirma para a irmã que não a citava para protegê-la, que era ficção. E quer que a ex-esposa, com quem está tentando reatar, leia, dê palpites, opine. A sinopse é delimita e esclarece mais que todo o livro. Sabemos que há um entrecruzar da ficção com a realidade, sabemos -ele cita- a ditadura do Pinochet, mas que são memórias, assim, me-mó-ri-as, um livro de memórias, não fica claro, não.

A partir do momento que vamos entendendo quem é Claudia e deduzindo ninharias do enredo, a única certeza que fica mesmo é que ditadura é ruim igual em todo lugar. Não sei vocês, mas o que sei do Pinochet se resume a dois filmes (The house of spirits (1993) e No (2012)) e a célebre frase que o professor de Redação Publicitária adotava para definir seu modo de ensinar: "De Piaget a Pinochet". Drástico, não? No entanto, perseguição política, ativismo político, gente lutando, gente morrendo, gente se mantendo neutro, gente lamentando quem se mantém neutro ou alheio ao que se passa tem em todo governo ditatorial. Não houve a mesma coisa por aqui? O que deve diferir mesmo é a quantidade e a brutalidade. Lamentável em qualquer parte.

De resto, não é uma escrita que me toque. Não me tocou. Não houve decepção, não sei o que esperava ao iniciar a leitura, mas de qualquer forma não deixou nada comigo. Soou fria, sem surpresas ou encantos.Acompanhei a história do menino, a do escritor, seus problemas, fui simpática à história de Claudia, à de quem luta e de quem se omite, mas aquela qualquer coisinha que incomoda, que perturba, que toca... não houve. Talvez porque seja minha primeira experiência com o Zambra. Talvez. Foi o 3º livro dele por aqui. Haverá outras oportunidades, outras formas de tecer empatia, escrever uma história.

domingo, 29 de maio de 2016

Não quero jornalismo para isso

.Se eu disser o porquê de ter escolhido o jornalismo, você não vai acreditar. E nem importa. Não é para isso que resolvi escrever hoje. Resolvi contar para o que não quero o jornalismo. E isso importa? Depois de dois casos tortos dessa semana, parece importar, sim.
Não foi para isso que escolhi o curso.
William Bonner e Patrícia Poeta na bancada do Jornal Nacional
Imagem do Google.


Regozijo-me de ser realista, mas guardo comigo alguns idealismos que jovens jornalistas e veteranos insistem em pichar e jornais me esfregam na cara que não é bem assim. Dizer, buscar a verdade e ser imparcial da melhor forma possível (qualquer visão escolhida é parcial? maravilha, mas vamos tentar mostrar de um outro viés ou deixar claro que esta é nossa posição, ser honestos um pouquinho); esclarecer, informar, acrescentar qualquer ninharia em debates e opiniões; registrar os fatos e colaborar em mudanças respeitando as vidas das gentes. É assim tão difícil de fazer? Não deveria.

Do regional para o nacional. 

A primeira notícia que me chegou foi pelo WhatsApp: Que bapho a materia daquele jornal. O site Alô Frutal, que parecia ser um contraponto ao jornalismo puxa-saquista (?) feito em Frutal, apresentou em duas matérias parciais e cheia de erros um sensacionalismo vergonhoso. Não dá raiva, dá vergonha. Usei as palavras-chave UEMG e greve para pesquisar no site e os únicos resultados foram as recentes matérias. Universitários chegam a promover churrascos nas dependênciasda UEMG! U-a-u! Das coisas absurdas que se pode fazer no interior da universidade, o promover churrascos é o mais extravagante que podem pensar. Com ponto de exclamação e tudo!

Não houve uma explicação anterior sobre o que é a greve e as informações existentes estão incompletas, falam em consumo de bebida alcoólica e ignoram que a greve é dos professores & dos alunos - o que justificaria a ocupação - que inclusive colocam entre aspas deslegitimando o movimento sem uma menção sequer às ações realizadas no #OcupaUEMG. Priorizam as reclamações e preocupações no grupo da universidade, BIXOS UEMG, expressas pelos estudantes prejudicados pela greve em detrimento das postagens que mostram as conquistas do movimento no mesmo grupo. E usam fotos alheias para ilustrar sem crédito ou data. E não assinam o texto. Ai, ai, ai.

E não é esse o jornalismo que quero fazer.
Ace in the hole (1951)
No dia seguinte, publicaram outra notícia alardeando o consumo de bebidas alcoólicas na ocupação. Ainda mais apelativa, a matéria inicia dramatizando os acontecimentos: a situação dentro da UEMG unidade de Frutal parece mesmo estar saindo do controle (ah, dessa vez usa o termo certo: unidade ao invés de campus). O que são os acontecimentos? A “”denúncia”” de churrasco seguida da “”denúncia”” do consumo de bebidas alcoólicas. Além de insinuar que há uma mancomunação entre o diretor e os grevistas (“Os “manifestantes”, que tem o apoio de parte dos professores e mantém, curiosamente, a afeição do diretor da UEMG [...]”), deixa claro que, a seu ver, a UEMG está desgovernada. Dizem que a assessoria foi procurada e não respondeu, mas replicam um comentário do diretor em rede social que explica praticamente tudo. Tem qualquer coisa de desconexo tanto nas acusações e julgamentos quanto na redação das matérias. Dessa vez, usam o artifício de ocultar o rosto dos meninos numa das fotos, mas o restante continua sem data ou autoria. Uma das fotos é possível supor a data: as ‘barricadas’ que fizeram, as mesas nas escadas, do início da ocupação, há quase 1 mês. Atrasadinhos.

O Centro Acadêmico de Direito (CAD) e o Movimento Estudantil Unificado - UEMG postaram notas de esclarecimento/repúdio às matérias. O CAD apontou os artigos da Constituição violados pelo site enquanto o Movimento Estudantil esclareceu quando ocorreu o churrasco (precisava?) e apontou a única prova de consumo de bebida alcoolica como caso isolado do início da ocupação – nas artes e chamadas para os saraus frisavam que não era permitido o consumo de bebida alcoolica – custa pesquisar, Alô Frutal?

Ninguém fez a devida cobertura da ocupação. Noticiaram quando começou e ficou por isso mesmo. A proximidade é um dos critérios de noticiabilidade, mas ninguém se preocupa com isso quando há uma greve numa universidade pública na sua cidade acontecendo. Ela é distante do centro, ela fica no alto do morro, mas devia interessar à cidade. Não devia? Quem sabe da sua existência, quem sabe que há uma greve acontecendo pergunta “e a greve?” porque não tem quem os informe. Hoje em dia todo mundo tem acesso à internet, mas, mas o ponto forte aqui ainda é o radiojornalismo. E teve rádio batendo ponto na universidade? Então..., pois é... Outros portais noticiaram tanto quanto aqui. Está havendo e fim. E quando um sujeito resolve olhar para o que está se passando é para informar errado, parcialmente, sem apuração, tendenciosamente.

Sobre o caso nacional.

O caso de maior repercussão no país nessa última semana, fora a divulgação de conversas entre figurões gravadas em março sobre a Lava-Jato, o poder e medos, é mais sério e me enche de dúvidas: a menina de 16 anos que foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro. Gravaram um vídeo da violência onde aparece tanto a menina desacordada e ensanguentada quanto os homens ao redor dela. Foi o mais visto no país na semana, disseram. Alguns portais trataram com cautela a notícia. O G1, por exemplo, Polícia no Rio apura suposto estupro coletivo e identifica autores. Uma acusação como estupro é muito grave. 

Na faculdade, a gente aprende com o caso Escola Base o que uma notícia falsa pode causar. Comentários como ‘prefiro defender a vítima e descobrir que era mentira do que defender um estuprador’ só podem ser ditos mesmo por quem não tem compromisso com a verdade (isso não é o lema de uma emissora?). No entanto, neste caso, há o vídeo como prova. Além de parecer ser praxe culpar a mulher. Entende o ponto? Como tentar manter a imparcialidade quando se sabe que haverá mesmo uma minimização do ocorrido, uma culpabilização da vítima? E está acontecendo. Perguntaram à menina se ela costuma fazer sexo em grupo (!!!). Há quem até ache suspeito isso ocorrer na atual situação política, como se pudesse servir de distração. Um estupro. De uma menina de 16 anos. Com mais de 30 homens envolvidos. 

Não quero jornalismo para isso. Não quero um jornalismo que deturpe a realidade, não quero um jornalismo que desumanize a vítima, que condene gentes. É horroroso ter que ouvir de um veterano que "em 90% dos casos vendemos nossos princípios, nossa ética e nossa função social por um salário patético" e saber que é a verdade. Vamos ter que trabalhar as opções.