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| O livro |
viva
a palhoça ça ça ça ça"
A música
é antiga, é famosa, mas, nos últimos meses, desde março especificamente, tem
estado presente dentro de cada casa através da TV, na abertura da novela Velho
Chico. Quem não tinha ouvido, ouviu, quem já tinha, adorou, quem nunca
entendeu, seguiu sem entender. Que
negócio é esse de “Sobre a cabeça os aviões, sobre os meus pés os caminhões
[...] Viva a bossa sa sa”? O ritmo é ligeiro, é diferente, você pisca e fica
sem entender o verso anterior e o seguinte e já fica de má vontade.
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| A logo da novela |
A mesma
reação de décadas atrás quando ela foi apresentada, quando os baianos,
principalmente, foram parindo o movimento tropicalista na música e chocando a
juventude do engajamento político, da TV e dos festivais.
Você já
deve ter ouvido falar em Tropicália, movimento Tropicalista. Não? Bossa Nova,
Jovem Guarda, MPB? Pelo menos, Gil, Caetano, Gal, Os mutantes, Tom Zé e
Torquato Neto você conhece, né? Alguns deles? Umzinho só?
A Tropicália é de antes deles. Começou nas artes com Hélio Oiticica e tinha suas origens ligadas ao antropofagismo de Oswald de Andrade. A música Tropicália foi nomeada assim por conta da obra do Oiticica e à revelia do autor. Acharam que ficava bom e ficou. Havia uma identificação com a arte, mas aparentemente não era bem esse o nome ou a ideia que os rapazes tinham em vista. Independente disso vestiram a camisa e foram construindo suas estradas.
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| A Tropicália de Hélio Oiticica, 1960 Fonte: Instituto by Brasil |
Na
década de 60, o mundo musical fervia. O rock vivia seus áureos tempos com uma
profusão de bandas nascendo e alcançando voo, a bossa e seu papa João Gilberto
estavam aí para ser desfrutadas, tinha a MPB politizada, a Jovem Guarda fazendo
sucesso. A TV recém-nascida viu nisso uma oportunidade e além das competições
entre programas musicais, os festivais. Os fabulosos festivais da TV Record.
Enquanto
há os que não conhecem, há os saudosistas: Música
boa era naquele tempo, Queria ter
nascido nessa época ou Nasci na época
errada. Paciência. Fato é que nos anos 60 era abrir os ouvidos e ser “atingido”
por inúmeros ritmos, uma palheta de sons variada para escolher. Ao mesmo tempo em
que havia uma competição, um espaço delimitado, cada qual no seu campo, havia os
incomodados que queriam coisa nova, quem pensasse que não precisava ser assim,
que junto poderia ficar melhor. E ficou. E foi mesmo juntos que Gil e Caetano
deram os primeiros passos para a criação da Tropicália.
Criação
entre aspas. Caetano mesmo diz que não criaram nada. Não tinham a intenção de
substituir a MPB ou coisa do tipo. Pegaram o que havia, o que chegava até eles
e experimentaram. Por que não guitarra elétrica? Por que não boy bands? Por que
não? Por que não? Por que não?
Caminhando
contra o vento
Sem
lenço, sem documento
Num
sol de quase dezembro
Eu
vou
No
caminho, acharam gentes que pensavam como eles e que topavam o projeto. Foi por
acaso que Gil encontrou com Os mutantes em estúdio e pediu para o produtor para
fazerem o acompanhamento de Domingo no
parque. Gal já era de casa e entrou no mesmo barco que os amigos, Tom Zé
foi trazido por Caetano e Torquato se encontrou com eles em letra e música. Outros
amigos também foram instados a participarem, mas arredios olharam com
desconfiança o que estava surgindo.
O livro
de Carlos Calado apresenta cada personagem, conta um resumo de sua história
até aquele determinado ponto. Um a.T: antes da Tropicália. Sabia que Caetano
queria mesmo é cinema? Sabia que Gil compunha jingles quando jovem? Sabia que
Bethânia queria ser atriz? Sabia que o livro dá um ótimo panorama do que se
passou naquele período no cenário musical? As competições, o início e o fim da
Tropicália e o exílio da dupla em Londres? E há o d.T: depois da Tropicália. O
livro é de 1997 e conta que rumo tomou aqueles artistas, a morte prematura de
Torquato, o último sopro da Tropicália, a turnê Tropicália 30 anos, a herança
deixada, os artistas que beberam da fonte... Sim, até os artistas que beberam
da fonte!
É ricamente
ilustrado. Tem as fotos do Sérgio Ricardo quebrando o violão, inclusive. E
fotos de ensaios, fotos dos artistas jovens que parecem retiradas daqueles
acervos de família. A história de Gil e Caetano tem um destaque nitidamente
maior que os dos outros integrantes da Tropicália. Se você ficou curioso para
saber um pouco mais sobre a biografia e atuação de x, vai ter que se esforçar mais
da próxima vez.
Uma dica
bacana para quem quer sentir o clima daqueles festivais é o documentário Uma noite em 67 (2010). Além dos números,
dos quais fazem parte as músicas acima, há depoimentos de Gil, Caetano, Chico,
Sérgio Ricardo e várias outras peças fundamentais no espetáculo. O único
lamento é a ausência de uma entrevista com Elis Regina. Morta em 1982, aparece
em algumas cenas do documentário e a música que fecha é interpretada por ela, O
cantador.


