sábado, 30 de julho de 2016

Viva a Tropicália lia lia

O livro
"Viva a bossa sa sa,
viva a palhoça ça ça ça ça"

A música é antiga, é famosa, mas, nos últimos meses, desde março especificamente, tem estado presente dentro de cada casa através da TV, na abertura da novela Velho Chico. Quem não tinha ouvido, ouviu, quem já tinha, adorou, quem nunca entendeu, seguiu sem entender. Que negócio é esse de “Sobre a cabeça os aviões, sobre os meus pés os caminhões [...] Viva a bossa sa sa”? O ritmo é ligeiro, é diferente, você pisca e fica sem entender o verso anterior e o seguinte e já fica de má vontade.
A logo da novela 

A mesma reação de décadas atrás quando ela foi apresentada, quando os baianos, principalmente, foram parindo o movimento tropicalista na música e chocando a juventude do engajamento político, da TV e dos festivais.

Você já deve ter ouvido falar em Tropicália, movimento Tropicalista. Não? Bossa Nova, Jovem Guarda, MPB? Pelo menos, Gil, Caetano, Gal, Os mutantes, Tom Zé e Torquato Neto você conhece, né? Alguns deles? Umzinho só?

A Tropicália é de antes deles. Começou nas artes com Hélio Oiticica e tinha suas origens ligadas ao antropofagismo de Oswald de Andrade. A música Tropicália foi nomeada assim por conta da obra do Oiticica e à revelia do autor. Acharam que ficava bom e ficou. Havia uma identificação com a arte, mas aparentemente não era bem esse o nome ou a ideia que os rapazes tinham em vista. Independente disso vestiram a camisa e foram construindo suas estradas.
A Tropicália de Hélio Oiticica, 1960
Fonte: Instituto by Brasil

Na década de 60, o mundo musical fervia. O rock vivia seus áureos tempos com uma profusão de bandas nascendo e alcançando voo, a bossa e seu papa João Gilberto estavam aí para ser desfrutadas, tinha a MPB politizada, a Jovem Guarda fazendo sucesso. A TV recém-nascida viu nisso uma oportunidade e além das competições entre programas musicais, os festivais. Os fabulosos festivais da TV Record.

Enquanto há os que não conhecem, há os saudosistas: Música boa era naquele tempo, Queria ter nascido nessa época ou Nasci na época errada. Paciência. Fato é que nos anos 60 era abrir os ouvidos e ser “atingido” por inúmeros ritmos, uma palheta de sons variada para escolher. Ao mesmo tempo em que havia uma competição, um espaço delimitado, cada qual no seu campo, havia os incomodados que queriam coisa nova, quem pensasse que não precisava ser assim, que junto poderia ficar melhor. E ficou. E foi mesmo juntos que Gil e Caetano deram os primeiros passos para a criação da Tropicália.

Criação entre aspas. Caetano mesmo diz que não criaram nada. Não tinham a intenção de substituir a MPB ou coisa do tipo. Pegaram o que havia, o que chegava até eles e experimentaram. Por que não guitarra elétrica? Por que não boy bands? Por que não? Por que não? Por que não?

Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
Num sol de quase dezembro
Eu vou


No caminho, acharam gentes que pensavam como eles e que topavam o projeto. Foi por acaso que Gil encontrou com Os mutantes em estúdio e pediu para o produtor para fazerem o acompanhamento de Domingo no parque. Gal já era de casa e entrou no mesmo barco que os amigos, Tom Zé foi trazido por Caetano e Torquato se encontrou com eles em letra e música. Outros amigos também foram instados a participarem, mas arredios olharam com desconfiança o que estava surgindo.



O livro de Carlos Calado apresenta cada personagem, conta um resumo de sua história até aquele determinado ponto. Um a.T: antes da Tropicália. Sabia que Caetano queria mesmo é cinema? Sabia que Gil compunha jingles quando jovem? Sabia que Bethânia queria ser atriz? Sabia que o livro dá um ótimo panorama do que se passou naquele período no cenário musical? As competições, o início e o fim da Tropicália e o exílio da dupla em Londres? E há o d.T: depois da Tropicália. O livro é de 1997 e conta que rumo tomou aqueles artistas, a morte prematura de Torquato, o último sopro da Tropicália, a turnê Tropicália 30 anos, a herança deixada, os artistas que beberam da fonte... Sim, até os artistas que beberam da fonte!

É ricamente ilustrado. Tem as fotos do Sérgio Ricardo quebrando o violão, inclusive. E fotos de ensaios, fotos dos artistas jovens que parecem retiradas daqueles acervos de família. A história de Gil e Caetano tem um destaque nitidamente maior que os dos outros integrantes da Tropicália. Se você ficou curioso para saber um pouco mais sobre a biografia e atuação de x, vai ter que se esforçar mais da próxima vez.

Uma dica bacana para quem quer sentir o clima daqueles festivais é o documentário Uma noite em 67 (2010). Além dos números, dos quais fazem parte as músicas acima, há depoimentos de Gil, Caetano, Chico, Sérgio Ricardo e várias outras peças fundamentais no espetáculo. O único lamento é a ausência de uma entrevista com Elis Regina. Morta em 1982, aparece em algumas cenas do documentário e a música que fecha é interpretada por ela, O cantador.