segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Comendo política (e as unhas)



É inevitável falar de política numa época como essa. Pode-se conversar sobre política todos os dias, a todo momento, em qualquer lugar, reclamar sempre, porém numa semana em que unem-se as políticas municipais às nacionais não se quer tratar de outro assunto.

No último sábado, a emissora de rádio 102 FM promoveu o 1º debate com os “prefeitáveis” do município. Dos quatro candidatos, apenas 2 apareceram. Número suficiente para que o circo pegasse fogo e incendiasse o mato seco das eleições. A ex-prefeita tratou de frisar que o candidato principiante não morava ou trabalhava nessa cidade, por isso não teria o mesmo entendimento que ela, e sua juventude – chamou-o de menino. Logicamente, o rapaz de 25 anos não deixou por menos e tratou de jogar na cara o fato dela ser ficha suja.

Na internet, enquanto os simpatizantes do rapaz adotavam o “menino”, os simpatizantes da Ciça trataram de ressuscitar vídeos de anos atrás onde um Caio jovem se mostra rebelde, mal educado e mimado. O candidato tratou de fazer um vídeo não pedindo desculpas, mas sim relembrando seus tempos de juventude, dando um tom saudosista ao que poderia ser uma mancha na sua imagem.

Frutal em polvorosa, Brasília também. A presidenta Dilma começou a semana, a segunda-feira toda, se defendendo no Senado. Trouxe uma comitiva honrosa com Chico Buarque e o ex-presidente Lula e aguentou uma série de perguntas repetitivas e enfadonhas. Na terça-feira, os pronunciamentos dos senadores se seguiram e na quarta-feira ocorreu a votação. Votos mudos afastaram Dilma do cargo definitivamente: estava sagrado o impeachment. A discussão que se seguiu se dava ao redor de seus direitos políticos. A ideia de que ela não poderia ser nem merendeira pareceu assustar os senadores que votaram pela permanência deles, uma fragmentação do processo preocupante. Cogita-se que até Eduardo Cunha, por exemplo, peça que ocorra a mesma coisa.

As manifestações que já estavam ocorrendo contra o governo interino aumentaram e com elas as repressões policiais. Temer tão logo chegou ao poder mandou que o exército fosse às ruas para as manifestações previstas para esse domingo em São Paulo.

Hoje ocorreu aqui novo debate com os “prefeitáveis”, agora na rádio 97 FM. Além dos dois fortes candidatos, um terceiro apareceu: Gilsen. Tal qual vitrola quebrada, repetiu várias vezes o descaso em que estava a cidade e o legado de seu pai, Alceu Queiroz, ex-prefeito, elogiado pela adversária como o melhor prefeito que Frutal já teve. Propostas? Trocar lixo por mantimentos, consertar calçadas, porque eu não sei falar direito, não tenho estudo, mas meu pai me ensinou, aprendi com o melhor, estou aqui para trabalhar.

O formato do debate limitava os atritos: apresentação, perguntas sorteadas, perguntas dos ouvintes direcionadas, perguntas entre si (30 segundos!) e finalização. Até as perguntas dos ouvintes, a Ciça dominou. A experiência na prefeitura deu a ela uma língua calejada de lábia e termos que agradam o ouvinte: repasses, pagamento em dia, emprego. No entanto, depois das várias indiretas trocadas durante as outras etapas do debate, ao ser confrontada por seu adversário mais forte se irritou, perdeu a calma e o tempo. Antes parecia soberana com os minutos contados sem afobamento, depois... O menino belisca e ela desata a falar até ser cortada pelo tempo limitado. A primeira pergunta volta à tecla: ficha suja. Não existe nenhum governante nesse país que não tenha processo. Se tiver, me diga o nome. Ríspida, afobada, tendo que esclarecer questões numa velocidade, sendo questionada em sua candidatura. Candidatos são só eu e o Gilsen, sua candidatura não foi deferida, candidata. O menino se recuperou e comandou os últimos minutos de programa usando bem o 3º candidato como trampolim para se promover e falar de seus projetos, enquanto a adversária chegou a dar conselhos (?!).

O quarto candidato segue sendo um mistério, um fantasma. Enquanto Gilsen pede voto sem ter visitado casas, só 45 dias de campanha, ele alega, o último sequer aparece em debates, ninguém sabe seu número ou suas propostas. Temos então que escolher entre o novo, o experiente, uma vitrola quebrada e um fantasma. Que eleição.