sábado, 6 de agosto de 2016

Crônica Olímpica


As nossas Olimpíadas
Crônicas são as reclamações, a comparação braba entre a realidade e as construções para gringo ver, o complexo de vira-lata, dizem, Londres fez melhor, Pequim então... Crônicas também são as exclamações, os oba-oba ufanistas, eu amo o Brasil, melhor país, o Brasil inventou as cores e etc... ao assistir uma cerimônia espetacular (e demoraaaada) como a que pudemos acompanhar ontem: a Cerimônia de Abertura do Jogos Olímpicos do Rio 2016. Assim, em letras maiúsculas, um baita título. E crônica é essa minha necessidade de exercitar os dedinhos no teclado, para criar textos, malhar lembranças.

Nasci alguns dias depois do início da Copa do Mundo de 1994. Logicamente, tudo o que sei da conquista do tetra foi me passado pela TV e pelos comentários da família: diferente dessa seleção aí, de meninos e penteados escandalosos, a seleção de 94 era séria, cabelos curtos, baixinhos. Minhas primeiras Olimpíadas então são de 1996 em Atlanta, diz o Google. Com 2 anos, ainda posso ser poupada de cobrança. 2 anos? Quais seriam seus interesses aos 2 anos? Comer e dormir, claro. As memórias mais antigas que tenho datam de quanto eu tinha 4 anos, 1998 portanto, mas nada, nada relacionado à Copa do Mundo. Sei que muita gente preferia esquecer, mas fazer o que, né? Minhas segundas Olimpíadas são de 2000 em Sidney. Aos 6 anos, na virada do século, eu já estava na pré-escola e teoricamente deveria me lembrar de alguma coisa. Deveria. Se a História só passa a ser História depois da invenção da escrita, talvez funcione da mesma forma para mim. 2001 começou minha odisseia pela leitura e, provavelmente, pela escrita. Da Copa do Mundo de 2002, já tenho lembranças mais nítidas. Aos 10 anos, tive minha primeira Olimpíada. Atenas, 2004.
Logo das Olimpíadas de 2004

Provavelmente, nunca irei competir então posso dizer minha primeira Olimpíada sem ter que me retificar no futuro. Minha primeira olimpíada e eu já gostava de colecionar suvenires. Fora da escola, havia uma mulher que vendia todo tipo de coisas para comer: geladinhos, cremosinhos, salgadinhos, balas, chicletes e todo tipo de coisa colorida que faz mal pros dentes, mas que é delicioso. Dentre essas guloseimas, havia um confeito muito colorido com uma figurinha das Olimpíadas de Atenas. Não era bom, a figurinha era de má qualidade, mas comprei assim mesmo para tê-la. Depois de pedras, conchas, uma figurinha. A fascinação por coleções só fez piorar com o tempo.

Sant Seiya é um mangá/animê
dos anos 80.
O maravilhoso de que essa tenha sido minha primeira Olimpíada é que a partir daí nasceu um encanto desmedido pela mitologia grega, Antiguidade, História e etc. Corroborado, claro, pela exibição de Saint Seiya na Band, a saída do primário e o consequente ensino de uma História que saía do massante resumo de como Frutal tinha recebido esse nome. Outra maravilha nisso é que seja justamente quando as Olimpíadas voltaram pro berço. Como houve outras 27 olimpíadas antes que não assisti, na minha mente infantiloide, é como se eu estivesse acompanhando desde o começo. E a 3ª maravilha desse mundo é que me lembro exatamente de quando o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima foi atrapalhado pelo homem vestido de irlandês, o gosto da frustração, o espanto pelo inusitado e ontem poder vê-lo acender a pira olímpica. Ver um acontecimento infeliz e poder testemunhar a justiça reparada é inacreditável. A satisfação é fantástica. Advogados e juízes se sentem assim? Sortudos, vocês.      

Vanderlei Cordeiro de Lima
Foto: AFP / Emmanuel Dunand
Esta então é minha quarta Olimpíada. Houve muitos problemas no decorrer da construção dessas Olimpíadas. Muitos. Demais. Virge' Maria, nem se fale. O Estado do Rio de Janeiro chegou a anunciar estado de calamidadeÉ esse o país que vai/quer sediar os Jogos Olímpicos? As inúmeras reportagens mostrando o estado da Baía da Guanabara, os comentários sobre a bagunça no trânsito causada para as Olimpíadas, o medo dos atletas pelo zika, a situação precária dos apartamentos de algumas delegações, as besteiras ditas pelo prefeito Eduardo Paes, tudo se juntou num pessimismo atroz contra meu fósforo de gostinho pelo evento. Porque eu adoro o evento. Muito. Dos arcos coloridos a ter nascido na Grécia. Do espetáculo a diversidade infinita de esportes que faz gosto acompanhar. É triste que um evento tão bom tenha um pano de fundo tão ruim. Volto pra cima do muro. Acompanho deslumbrada a cerimônia de abertura, aplaudo tudo, ensaio choros e gritinhos maravilhados, mas lembro que o empenho que fizeram para incentivar o reflorestamento, o alerta sobre o aquecimento global, aquela mensagem maravilhosa de Drummond narrado pela Fernanda Montenegro/Judi Dench, não é praticado sequer para limpar as próprias águas. Tudo maravilhoso, com inclusão, mas a realidade não é assim. É pão e circo, a gente sabe. Tão bom pão e circo.