domingo, 18 de outubro de 2015

A saudade está nos aros dos seus óculos e na borracha do pneu daquele fusca

das internet
Um fusca chegando sem fazer barulho é o gancho que uso para tratar de óculos meus e alheios. Em comum, os formatos arredondados de alguns e a saudade.

O fusca em questão é branco e fazia parte de uma casa rosa. Era uma referência. A casa rosa com fusca branco na garagem. Não havia casa rosa sem fusca branco ou fusca branco sem casa rosa. Também não havia fusca branco sem senhor vermelho e careca e senhor vermelho e careca sem um fusca branco. E havia a senhorinha morena de cabelos curtos que sempre saltava de dentro do fusca – do banco traseiro ou do passageiro. E ela tinha, sempre teve, pelo que me lembro, óculos arredondados.

Não lembro bem de como eram os antigos, mas os últimos eram pequenos, ela era pequena, e modernos. Não lembro a marca, nunca lembro, mas lembro da sensação para além dos óculos de que ela era uma senhorinha moderna. Destoando de mim e do meu gosto por coisinhas miúdas – os primeiros óculos, escolhi por conta da caixa, os segundos pelo formato, o terceiro pela marca e o quarto pela cor. Por miudezas é que me sentia mais próxima da outra senhorinha de cabelo de trança longa e feita coque no alto da cabeça com grampos. Nela também ficavam amparados na cara óculos arredondados.

Arredondados também eram meus primeiros óculos e os óculos quebrados da colega dados pelo avô e num patamar altíssimo de estima – de onde veio a ideia da crônica.

Com óculos retangulares não consigo enxergar nada. Preciso depositá-los à frente, limpar o suor dessa tarde infernal para pensar no lugar deles nas nossas vidas. O mote me foi repassado, mas nunca herdei óculos, não sei o que é isso.  Entendo o que seja a estima e isso é de grande valia, ao menos. Da mais próxima, a senhorinha de trança-coque, por exemplo, guardo um botão – redondo, rá. E, ah, no botão, há um carro, mas para desvario do texto não é um fusca.

É engraçado que tudo caminhe em círculos quando as linhas só seguem retas. É engraçado porque a história, a saudade e a vida são mesmo cíclicas. Quem estuda História um mínimo que seja sabe que ela se repete, erra igual várias vezes, quem sente saudade e sente saudade de novo e de novo e de novo sabe que ela não acaba assim e a vida, bem, ainda que termine um dia, é cheia de idas e vindas, cheias de histórias e saudades, um absurdo de loopings.

No meu inconsciente está presente qualquer lembrança que denota que essa é a forma da natureza, a forma perfeita. Está mesmo presente em tudo quanto vemos. Vai ver está também em tudo quanto sentimos... ainda que algumas dores pareçam afiadas demais para não conterem pontas e algumas alegrias pareçam preencher círculos ao invés de serem-los elas mesmas.

Enfim, o fusca não é o mais perfeito dos carros, há quem diga que sequer seja um, e os óculos estão todos sujeitos a reparos. O que não os impede em momento algum de ser objeto de estima. Aqui, por exemplo, estão todos eufóricos com o fusca velho que de tão recém-chegado é quase novo. Limpa, lava, encera. O que precisa arrumar? Isso, isso e isso. A mim que sou materialista torta, assim vazio, sem um senhor e uma senhorinha não representa lá grande coisa. Numa casa que não seja rosa, então, é só mais um fusca. Mas só para mim. Já os óculos da colega, caso diferente, não sei que fim tiveram. Um dos lados da ponte havia quebrado e esperava por solda. No pós-Simpósio de Comunicação, haveria muito tempo para consertá-los. Para ela, segundo explicou, os óculos eram uma maneira de trazer a lembrança do avô sempre por perto, mantê-lo sempre junto. Uma ponte entre ela e o avô. Esta fortuitamente passível de solda.