Em
ambientes de convívio social, seja online ou off-line, há quem se destaque
pelas opiniões relevantes e quem se destaque por defecar pela boca. E há entre os que não se destacam por nada, os
tímidos que observam tudo.
Em épocas
de movimentações político-sociais, os tímidos se agarram às opiniões dos
primeiros que, ainda que por vezes conflitantes, ajudam a construir um
raciocínio, uma ponderação sobre o que se passa – quase desespero para fugir do
limbo da ignorância de não saber o que está acontecendo. Por que
seria diferente com as manifestações, paralisações e greves de professores?
Paralisação
não é novidade. Nem na universidade, nem em lugar nenhum. As da universidade
tinham como ponto-mor a realização do concurso cujo edital data de 2014 e que
até este ano vinha sendo adiado, cancelado e lamentado. Claro, há sempre outras
pautas a serem discutidas, mas essa parecia mesma a fundamental.
Houve a
primeira parte do concurso, recheada de críticas, no dia 3. Houve assembleia no
dia 18 para discutir o concurso, o ressarcimento dos professores da lei 100, [...].
Dias se passaram até que uma reunião marcada para esse 2 de maio, às 17h,
decidisse os rumos de tudo. Greve. Às
19h, todos no anfiteatro! Greve. Paralisação. No hall de entrada: que que está acontecendo? Greve. Eles
pensam que minha gasolina é capim? Moro há 4 quilômetros daqui! E as provas? Vai ter greve. Eu tinha prova hoje. Se eu soubesse, não tinha vindo.
Tenho trabalho. E o trabalho? 19h, no anfiteatro: Ué, não tem ninguém.
Aos
poucos, timidamente, foram ocupando as poltronas. Alguns que insistiam em ficar
ao fundo, em pé, talvez dispostos a ir embora tão logo a curiosidade fosse sanada,
foram convocados e insistiram com eles até que se sentassem. Mais difícil, no
entanto, foi a ocupação das cadeiras vagas à mesa no palco. Representantes de
centros acadêmicos foram chamados, mas poucos pareciam presentes. Dizem até que
à certa altura qualquer um poderia tomar assento, como se o importante fosse só
ocupar. Ocuparam.
A greve
era de professores apenas durante a primeira hora. De professores, no caso,
três. Um outro fez uma pequena participação, mas os professores que tomaram a
palavra estavam em três. Não eram as caras que normalmente tomam frente nesse
tipo de manifestação, o que espantou quem tinha a voz que dava enjoo de um como desculpa para não permanecer. Caras conhecidas dos corredores e das salas de
aula da universidade, mas pela primeira vez se expondo . Um estava à mesa e foi
quem chamou os alunos do fundo. Os outros dois, mais pertos do público,
apresentaram a realidade profissional, os motivos pessoais e os pontos que os
grevistas requisitavam. O silêncio era incômodo e só foi interrompido por grito
indistinto de urro ou vaia quando a mulher professora entre os três tomou a
palavra.
Quando o público pôde falar, saltou de seu
lugar um rapaz negro de careca brilhante e idade incerta trazendo o lado prático
da coisa. Com um tom quase debochado e cativante, expôs a realidade: tá todo
mundo duro, o Estado tá quebrado, tem muita gente de fora e o pai vai bancar filho
noutra cidade à toa? Vai bancar
grevista? Tem condições? Houve réplica de
outra estudante que seria por amor à causa. O rapaz insistiu. Era um espetáculo
e o público parecia estar com ele. Compreendia os grevistas, mas. E as reposições? Eles continuariam
ganhando, mas e os estudantes? Expôs praticamente todas as dúvidas do público. Em sua tréplica, foi cortado por uma voz
impositiva que vinha da mesa. Não era do professor, mas vinha em defesa da
classe. Repetia todo o discurso de anos. O que era preciso e do que precisavam
lutar para conseguir. Outro estudante gritou palavras de ordem. O público já
estava enleado e parecia aplaudir efusivamente o que queriam que aplaudisse.
Conta-se que houve votação e que, com mais
dedos levantados, os grevistas venceram. A notícia da ocupação chegou depois. Os
estudantes decidiram apoiar a causa e ocupar a universidade. Mais de 100
estudantes, várias barracas, 1 único professor. Um twibbon com palavras
positivas de luta se tornou viral nas horas seguintes. Estava tudo em suspenso
e baixada a greve. Barricadas, mesas nas escadas, impediam qualquer um de furar
a greve. O único atleta que se sabia atleta, no meio disso tudo, luta karate e
grevista. Nenhum praticava corrida de obstáculos. Nem queriam. E as provas que
faltam? Façam em casa, por favor. Nos vemos dia 10, 11, ou quando decidirem
por isso.
Uma nova
reunião está marcada para a noite dessa terça-feira, 3, para mais
esclarecimentos sobre o que está acontecendo e os rumos tomados.
Um
cronograma foi divulgado com a programação para o dia.
Eventos que ocorreriam nos próximos dias como Integracom do curso de Comunicação Social e o Dia da Integração da Frente Feminista foram adiados.
A notícia da greve saiu em portais como Estado de Minas, G1 e em sites da cidade.
A notícia da greve saiu em portais como Estado de Minas, G1 e em sites da cidade.