terça-feira, 3 de maio de 2016

É o que? Greve.

Em ambientes de convívio social, seja online ou off-line, há quem se destaque pelas opiniões relevantes e quem se destaque por defecar pela boca. E há entre os que não se destacam por nada, os tímidos que observam tudo. 

Em épocas de movimentações político-sociais, os tímidos se agarram às opiniões dos primeiros que, ainda que por vezes conflitantes, ajudam a construir um raciocínio, uma ponderação sobre o que se passa – quase desespero para fugir do limbo da ignorância de não saber o que está acontecendo. Por que seria diferente com as manifestações, paralisações e greves de professores?

Paralisação não é novidade. Nem na universidade, nem em lugar nenhum. As da universidade tinham como ponto-mor a realização do concurso cujo edital data de 2014 e que até este ano vinha sendo adiado, cancelado e lamentado. Claro, há sempre outras pautas a serem discutidas, mas essa parecia mesma a fundamental.

Houve a primeira parte do concurso, recheada de críticas, no dia 3. Houve assembleia no dia 18 para discutir o concurso, o ressarcimento dos professores da lei 100, [...]. Dias se passaram até que uma reunião marcada para esse 2 de maio, às 17h, decidisse os rumos de tudo. Greve. Às 19h, todos no anfiteatro! Greve. Paralisação. No hall de entrada: que que está acontecendo? Greve. Eles pensam que minha gasolina é capim? Moro há 4 quilômetros daqui! E as provas? Vai ter greve. Eu tinha prova hoje. Se eu soubesse, não tinha vindo. Tenho trabalho. E o trabalho? 19h, no anfiteatro: Ué, não tem ninguém.

Aos poucos, timidamente, foram ocupando as poltronas. Alguns que insistiam em ficar ao fundo, em pé, talvez dispostos a ir embora tão logo a curiosidade fosse sanada, foram convocados e insistiram com eles até que se sentassem. Mais difícil, no entanto, foi a ocupação das cadeiras vagas à mesa no palco. Representantes de centros acadêmicos foram chamados, mas poucos pareciam presentes. Dizem até que à certa altura qualquer um poderia tomar assento, como se o importante fosse só ocupar. Ocuparam.

A greve era de professores apenas durante a primeira hora. De professores, no caso, três. Um outro fez uma pequena participação, mas os professores que tomaram a palavra estavam em três. Não eram as caras que normalmente tomam frente nesse tipo de manifestação, o que espantou quem tinha a voz que dava enjoo de um como desculpa para não permanecer.  Caras conhecidas dos corredores e das salas de aula da universidade, mas pela primeira vez se expondo . Um estava à mesa e foi quem chamou os alunos do fundo. Os outros dois, mais pertos do público, apresentaram a realidade profissional, os motivos pessoais e os pontos que os grevistas requisitavam. O silêncio era incômodo e só foi interrompido por grito indistinto de urro ou vaia quando a mulher professora entre os três tomou a palavra.

Quando o público pôde falar, saltou de seu lugar um rapaz negro de careca brilhante e idade incerta trazendo o lado prático da coisa. Com um tom quase debochado e cativante, expôs a realidade: tá todo mundo duro, o Estado tá quebrado, tem muita gente de fora e o pai vai bancar filho noutra cidade à toa?  Vai bancar grevista? Tem condições?  Houve réplica de outra estudante que seria por amor à causa. O rapaz insistiu. Era um espetáculo e o público parecia estar com ele. Compreendia os grevistas, mas. E as reposições? Eles continuariam ganhando, mas e os estudantes? Expôs praticamente todas as dúvidas do público.  Em sua tréplica, foi cortado por uma voz impositiva que vinha da mesa. Não era do professor, mas vinha em defesa da classe. Repetia todo o discurso de anos. O que era preciso e do que precisavam lutar para conseguir. Outro estudante gritou palavras de ordem. O público já estava enleado e parecia aplaudir efusivamente o que queriam que aplaudisse.

Conta-se que houve votação e que, com mais dedos levantados, os grevistas venceram. A notícia da ocupação chegou depois. Os estudantes decidiram apoiar a causa e ocupar a universidade. Mais de 100 estudantes, várias barracas, 1 único professor. Um twibbon com palavras positivas de luta se tornou viral nas horas seguintes. Estava tudo em suspenso e baixada a greve. Barricadas, mesas nas escadas, impediam qualquer um de furar a greve. O único atleta que se sabia atleta, no meio disso tudo, luta karate e grevista. Nenhum praticava corrida de obstáculos. Nem queriam. E as provas que faltam? Façam em casa, por favor. Nos vemos dia 10, 11, ou quando decidirem por isso.

Uma nova reunião está marcada para a noite dessa terça-feira, 3, para mais esclarecimentos sobre o que está acontecendo e os rumos tomados.

Um cronograma foi divulgado com a programação para o dia.

Eventos que ocorreriam nos próximos dias como Integracom do curso de Comunicação Social e o Dia da Integração da Frente Feminista foram adiados.

A notícia da greve saiu em portais como Estado de Minas, G1 e em sites da cidade.