sábado, 14 de maio de 2016

Quem fica em cima do muro

Sempre somos cobrados para escolher um lado. É natural. É mais fácil discutir com quem já tem argumentos para rebater. Há algumas semanas nos foi pedido um artigo de opinião sobre o impeachment. Desconversei, dei dois mortais para trás, uma sambadinha e entreguei qualquer coisa parecida com uma croniqueta. Eu não queria impeachment, mas as coisas do modo como estavam sendo levadas também não me apeteciam.

Acabou que o impedimento passou pela Câmara, passou pelo Senado e estamos agora com dois “presidentes”, uma afastada e outro em exercício, vários ministérios a menos e algum pé atrás.
E a greve continua por aqui.

Às vésperas de completar 2 semanas da assembleia que declarou a greve, a UEMG já teve inúmeras atividades culturais, outras reuniões, as escadas foram ocupadas, foram desocupadas, foram esquecidas algumas mesas por lá, algumas faixas ainda barram passagens e o mais recente: as portas do térreo que dão acesso à lanchonete e ligam os blocos têm estado trancadas sem motivo específico.  Para acessar a lanchonete só contornando o bloco A e para acessar o bloco B, só entrando pelo hall e atravessando toda a UEMG. As rampas têm estado escuras, aliás. Tá tendo greve, tá tendo economia de energia, sim.

As barracas distribuídas há dias pelo hall de entrada e corredor variam em número. Já foram 15, já foram 18, nessa última sexta-feira contava-se otimistamente 13. Os grevistas e seus apoiadores e quem-é-contrário-à-greve (não parece certo falar em opositor aqui) podem até oscilar em número, mas há uma categoria específica que parece permanente: os muristas.

Em artigos de opinião, nos é exigido um posicionamento, não é permitido se agarrar ao muro de “ai, meu deus, os dois têm razão” mesmo que seja verdade. Às vezes os dois lados têm argumentos bons o suficiente para criar muros de indecisos. Acontece. Com bastante frequência. E não pode. Que sacanagem não poder!

O ‘estar em cima do muro’ frustra os dois lados. Tanto é que por vezes os muristas têm as pernas agarradas e se desequilibram. Se esta estratégia não funciona, são alvo de desprezo como pressão para que escolha logo. Há quem use o muro como casa, uma zona de conforto, mas defendo os que usam o muro para enxergar melhor e mais longe. A não ser que um torcicolo lhe paralise o pescoço, é de cima do muro que se pode olhar nas duas direções e tentar entendê-las. Claro, às vezes é preciso um pouco de esforço para descer do muro, subir, descer do outro lado e voltar - vida de murista não é moleza! – e quase ninguém quer se esforçar. Escolher um lado pode ser mais cômodo, afinal, ainda que também haja dificuldade em se equilibrar em argumentos.