* o de quinta tem duplo sentido. Pra variar. Abaixe o volume se pretende escutar os áudios. E se prepare para os ruídos.
Quinto dia do mês, quarto dia da greve.
Vai ter sarau, disseram, e às 19h do estacionamento já se ouvia música vindo de algum lugar do semi-círculo de cadeiras, em sua maioria, vazias no vão de luzes apagadas da lanchonete, à espera dos grevistas que se apresentariam às 20h.
Em assembleia, no segundo dia, foi decidido que seriam retiradas as barricadas, mas o caminho usual para o bloco B ainda estava interditado. Com a porta fechada, uma mulher parecia ter "aparatado" ali caminhando para a saída. Os fura-greves ou qualquer outra pessoa que quisesse ter acesso ao 1º piso com suas tantas funcionalidades (fora as salas de aula e a Agência, as salas de Pesquisa e Extensão, a própria diretoria, a sala dos departamentos, as coordenadorias dos cursos, a sala dos professores, a "biblioteca do Direito", tudo fica nesse piso - e só os professores entraram em greve) teria que passar pelo bloco A.
- Oi, Thaísa.
- Oie.
E mesmo as escadas desse bloco ainda continham mesas e faixas. Já não era uma corrida de obstáculos como no primeiro dia, mas algo entre uma cena de crime e uma cama de gato.
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| Na curva das escadas da UEMG. No cartaz em destaque, opõem a mesmice que ocorre nesse piso à revolução que fazem lá embaixo |
Depois das 21h, o tempo já cobrava blusa dos friorentos e pros curiosos, além da música - que não era Vento no litoral coisa nenhuma, a passarela oferecia a visão dum pouquinho da boniteza hipster (é assim?) de velas (otimistas dirão que é tudo consciência ecológica, economia de energia, a hora do planeta) que puxavam o sarau para algo parecido com luau. Duas meninas, no entanto, no ovinho do bloco A, brincavam saltitando alheias àquilo, como se a música ali fosse outra. Assim como no outro bloco, neste também havia professor dando aula particular e gentes atarefadas. Exceções. Subitamente, a UEMG pareceu ser qualquer coisa distinta de uma universidade. Dividida entre aqueles que tocavam suas vidas normalmente e os grevistas no vão, estudantes em sua maioria, que pareciam ter obtido a liberdade que sempre quiseram, independente das aulas, independente da estrutura ao redor de acessos bloqueados por eles mesmos.
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| Crianças brincam às margens da revolução |

