sábado, 2 de abril de 2016

Arrombei a burocracia

Devia ter uns 2 metros de altura por quase 2 corpos de largura.

Recordei-me dos filmes de luta da TV, daqueles personagens enormes e pesados, massa pura, que contrastavam & amedrontavam o oponente por vezes menor, por vezes mais fraco. E esse era grande, uma imensidão, amarela e com uma plaquinha, como de costume, escrita Estúdio.

Era uma porta.

E me barrava a passagem.

Me senti o oponente infinitas vezes menor.

Piorou mesmo quando vi que o problema multiplicava-se: haviam outras pessoas obstruindo o caminho. Paradas, imóveis, pessimistas. Todas absolutamente envoltas por papéis e plástico bolha.

Está claro que meus 1,50 e alguma-coisa não assustam ninguém e é praxe acreditar que portas não sentem medo, mesmo esta sendo nascida sob a cor amarela, mas era preciso entrar, era preciso ter acesso àquela sala só não era preciso o método de entrar. Precisava de chave e chave ninguém tinha e quem tinha não podia abrir.

Faz sentido? Não faz, mas dão a isso o nome de burocracia.

(Bu-ro-cra-cia. Lendo assim parece até mais torturante.)

Entendo ou quis entender que é absolutamente necessária ao funcionamento das coisas. Exigenciazinhas que possibilitam que todos tenham seus direitos garantidos sem exceções e sem beneficiar ninguém. Porque o ser humano é mau e não perderia a oportunidade de se beneficiar em detrimento dos outros, porque Anel de Giges, porque é preciso preservar os bens públicos.

A gente engole cada coisa.

Mas dessa vez era mesmo importante e envolvia coisa pequena, coisa à toa, bem público, para gente comprovadamente responsável e disposta a assinar papéis de responsabilidade. Todos se fossem precisos porque sua precisão era grande.

- Não pode.

- Mas disseram que... !!! 

- Não pode. 

- Ué...

De repente, entrou em BG Eye of the tiger e eu sabia que tinha de fazer alguma coisa. A gente leva tanta rasteira que se acostuma com a lona, mas isso é tão feio. Aprender a cair é legal, mas se acostumar... se acostumar, não. Ao som de Survivor treinando soquinhos no ar, correndo e subindo escadas, cheguei ao andar de cima onde a Grande Amarela me esperava. Dizem que as pernas são a fraqueza dos gigantes (não me pergunte de Golias, eu não sei), mas as únicas que haviam ali eram as minhas. Ignorando as pessoas-obstáculos, usei-as. Depois da porta usar o peso do meu corpo contra mim diversas vezes sem sofrer mais que algumas avariações, tomei a maior distância que pude e me arremessei contra a Amarela. Nada. Talvez fosse impressão minha, mas ela já parecia mais disposta a ceder - ou era piedade? Portas sentem piedade? Cansada, eu já não podia fazer grande coisa.

Aí mudei de filme.

Me lembrei de The Shining. Sempre lembrava do filme ao ver aquelas portas com uma fresta de vidro. Recorri à pequena cozinha do andar de baixo para encontrar uma machadinha. Sem machadinhas. O que poderia substituí-la? A cafeteira, a sanduicheira & uma cadeira. Quando finalmente consegui entrar, queria dizer Here's Johnny! com cara de psicopata como o xará, mas nunca fui boa no inglês.

Chamei a porta de burocracia e a arrombei.