O assunto impeachment da presidenta Dilma já
circula na mídia desde o começo de seu segundo mandato, mas foi só há alguns
meses que o movimento contrário vem sendo comparado à Campanha da legalidade de Brizola em 1961.
Na última terça-feira,
22, em um discurso considerado unanimemente forte, a presidenta voltou a se
comparar a Brizola, a quem homenageou no fim do ano passado com o título de herói da pátria, disse que não renuncia
em hipótese nenhuma e citou aquela que foi a luta para empossar João Goulart
após a renúncia de Jânio Quadros. E dos dias que sucedem à divulgação da
carta-renúncia, dos últimos dias de agosto, dos primeiros da campanha da
legalidade é que é feito o livro Mês de
cães danados.
Escrito por Moacyr
Scliar em 1977, o romance é narrado por Mário Picucha, um gaúcho mendigo,
ex-estudante de Direito e filho bastardo de um latifundiário em crise, a um
homem identificado como Paulista. Comumente supõe-se se tratar de um
jornalista, e seria até conveniente que assim fosse, mas tudo ali é mais ou
menos incerto, entre o real e o inventado, desde os nomes até os acontecimentos
não comprovados pelos jornais.
Aliás, no decorrer do
romance, é essa a função do jornal: atestar a verdade ou as meias-verdades do
narrador, arrastando-o de volta à História. Apesar do livro ter muitas
manchetes, não é ao redor delas que essa história circula. Alguns livros
parecem tomá-las por norte, mas não esse. Elas sequer aparecem com destaque,
atestam, informam e ficam por isso mesmo. Picucha mesmo afirma à certa altura
que só lê jornais quando o vento os carrega até ele o que, para mim, dá ideia
da efemeridade do impresso e poderia ser motivo de descaso se o mesmo personagem
não guardasse consigo certa manchete.
Como já foi dito, as
histórias contadas por Mário, sua vida, têm como plano de fundo os anos
anteriores aos últimos dias de agosto de 1961, frisados constantemente durante
o romance e como trilha sonora, a inquietação de uma época de incertezas, medos
e mudanças. Moacyr constrói perfeitamente isso seja a partir da narração de Mário
cheia de jogos e irreverente, seja com a ascensão e declínio do personagem até chegar
ao atual estado de mendicância.