sábado, 26 de março de 2016

Março - mês de cães danados

O assunto impeachment da presidenta Dilma já circula na mídia desde o começo de seu segundo mandato, mas foi só há alguns meses que o movimento contrário vem sendo comparado à Campanha da legalidade de Brizola em 1961.

Na última terça-feira, 22, em um discurso considerado unanimemente forte, a presidenta voltou a se comparar a Brizola, a quem homenageou no fim do ano passado com o título de herói da pátria, disse que não renuncia em hipótese nenhuma e citou aquela que foi a luta para empossar João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. E dos dias que sucedem à divulgação da carta-renúncia, dos últimos dias de agosto, dos primeiros da campanha da legalidade é que é feito o livro Mês de cães danados.

Escrito por Moacyr Scliar em 1977, o romance é narrado por Mário Picucha, um gaúcho mendigo, ex-estudante de Direito e filho bastardo de um latifundiário em crise, a um homem identificado como Paulista. Comumente supõe-se se tratar de um jornalista, e seria até conveniente que assim fosse, mas tudo ali é mais ou menos incerto, entre o real e o inventado, desde os nomes até os acontecimentos não comprovados pelos jornais.

Aliás, no decorrer do romance, é essa a função do jornal: atestar a verdade ou as meias-verdades do narrador, arrastando-o de volta à História. Apesar do livro ter muitas manchetes, não é ao redor delas que essa história circula. Alguns livros parecem tomá-las por norte, mas não esse. Elas sequer aparecem com destaque, atestam, informam e ficam por isso mesmo. Picucha mesmo afirma à certa altura que só lê jornais quando o vento os carrega até ele o que, para mim, dá ideia da efemeridade do impresso e poderia ser motivo de descaso se o mesmo personagem não guardasse consigo certa manchete.  

Como já foi dito, as histórias contadas por Mário, sua vida, têm como plano de fundo os anos anteriores aos últimos dias de agosto de 1961, frisados constantemente durante o romance e como trilha sonora, a inquietação de uma época de incertezas, medos e mudanças. Moacyr constrói perfeitamente isso seja a partir da narração de Mário cheia de jogos e irreverente, seja com a ascensão e declínio do personagem até chegar ao atual estado de mendicância.

 Vivemos realmente um momento político parecido durante o governo Dilma e sob as ameaças de impeachment? Ainda que a situação econômica-social seja diferente, emocionalmente, sim, é bem parecida e isso já é assustador o suficiente.