sábado, 23 de abril de 2016

Cidade de Deus (2002) e o fotojornalismo

É muito fácil dizer que Central do Brasil (1998) é o melhor filme nacional quando se tem a grande dama Fernanda Montenegro, um grande elenco, uma história dramática e uma indicação ao Oscar. Afinal, não é pouca coisa ser indicado ao Oscar. Quantas vezes o cinema brasileiro chegou lá? Claro, todos concordam que a academia erra, segue padrões, não faz a mais justa avaliação de atuações, filmes, roteiros e etc, mas há o status, o glamour, a importância de ter um careca dourado. Ser indicado ao Oscar é realmente uma coisa legal - O menino e o mundo foi indicado este ano, teve campanha, teve alguma torcida, mas não teve chance diante de Inside Out.

Cidade de Deus (2002) também foi indicado ao Oscar. Só que tardiamente. Só que, em sua maioria, categorias técnicas. Só que contra The Lord of the Rings: The Return of the King. Pelo que contei, foram 14 carecas para o último filme da trilogia! E nadinha para Cidade de Deus. Nem diretor, nem roteiro adaptado, nem edição, nem fotografia. E como se saiu bem em cada uma dessas categorias!

Você o conhece de nome. Todo mundo fala nesse filme há um tempão. Já se foram mais de 10 anos, natural. Elogiam, criticam, mas ninguém avisa que irá ficar preso ao filme instantaneamente. É com um misto de estranhamento e curiosidade que vemos galinhas sendo preparadas para comer, mas é com pontos de exclamação que vemos meninos descendo a ladeira atrás de uma galinha fujona e, à certa altura, aos tiros. E ingênuos ficam: mas tão criança e lidando com arma de fogo como se fosse...! Então acostuma-se de certa forma com cenas assim porque essa é a mais leve dentre as que virão.

Quando penso que foi indicado a melhor fotografia realmente lamento por não ter ganhado. É uma das primeiras coisas que chamam a atenção no filme e a que mais mata de inveja. Os enquadramentos, céus!, que maravilhosos! As sequências são muito boas! O roteiro é muito bom (disponível online aqui)! A trilha sonora, então...!, mas a fotografia, que fotografia... 

Provavelmente as aulas de fotojornalismo têm influência nesse embasbacamento - a primeira coisa que tive vontade de fazer é comentar com o professor da disciplina sobre - assim como a metalinguagem. O protagonista é o que? Um fotógrafo! Ou um apaixonado por fotografia, definam como quiserem os exigentes. Há inúmeras referências sobre o tema: Hitchcock, Billy Wilder, os quadrinhos do Homem-Aranha - pega mal colocar HQ junto com grandalhões do cinema? Paciência, quando se fala em fotógrafos é fácil lembrar deles registrando o que acontece do outro lado da rua, ou um trabalhador preso e acidentado em prol de sucesso, ou a si mesmo - é, Homem-Aranha é realmente gozado. E mesmo com referências fortes é possível se encantar com a paixão do menino, ainda que não seja o foco do filme, e sua sorte. Porque, sim, ele teve bastante sorte em seu início de carreira. Estar no lugar certo, na hora certa e não levar um tiro por acaso ou destinado. Muita sorte.

Se não é a fotografia o foco, então qual é? A vida numa favela, Cidade de Deus, em que o tráfico de drogas é lei. Daí pressumem-se guerras entre traficantes, muitas mortes e crianças com armas na mão. O sadismo de uma, a vingança da(s) outra(s), o tratar arma como brinquedo de todas. Das coisas que me assustam, provavelmente meninos agirem feito homens tão cedo é uma delas. Menos doloroso que Capitães da Areia, talvez, por este último ser romance e ficção, mas ainda assim assustador.