domingo, 29 de maio de 2016

Não quero jornalismo para isso

.Se eu disser o porquê de ter escolhido o jornalismo, você não vai acreditar. E nem importa. Não é para isso que resolvi escrever hoje. Resolvi contar para o que não quero o jornalismo. E isso importa? Depois de dois casos tortos dessa semana, parece importar, sim.
Não foi para isso que escolhi o curso.
William Bonner e Patrícia Poeta na bancada do Jornal Nacional
Imagem do Google.


Regozijo-me de ser realista, mas guardo comigo alguns idealismos que jovens jornalistas e veteranos insistem em pichar e jornais me esfregam na cara que não é bem assim. Dizer, buscar a verdade e ser imparcial da melhor forma possível (qualquer visão escolhida é parcial? maravilha, mas vamos tentar mostrar de um outro viés ou deixar claro que esta é nossa posição, ser honestos um pouquinho); esclarecer, informar, acrescentar qualquer ninharia em debates e opiniões; registrar os fatos e colaborar em mudanças respeitando as vidas das gentes. É assim tão difícil de fazer? Não deveria.

Do regional para o nacional. 

A primeira notícia que me chegou foi pelo WhatsApp: Que bapho a materia daquele jornal. O site Alô Frutal, que parecia ser um contraponto ao jornalismo puxa-saquista (?) feito em Frutal, apresentou em duas matérias parciais e cheia de erros um sensacionalismo vergonhoso. Não dá raiva, dá vergonha. Usei as palavras-chave UEMG e greve para pesquisar no site e os únicos resultados foram as recentes matérias. Universitários chegam a promover churrascos nas dependênciasda UEMG! U-a-u! Das coisas absurdas que se pode fazer no interior da universidade, o promover churrascos é o mais extravagante que podem pensar. Com ponto de exclamação e tudo!

Não houve uma explicação anterior sobre o que é a greve e as informações existentes estão incompletas, falam em consumo de bebida alcoólica e ignoram que a greve é dos professores & dos alunos - o que justificaria a ocupação - que inclusive colocam entre aspas deslegitimando o movimento sem uma menção sequer às ações realizadas no #OcupaUEMG. Priorizam as reclamações e preocupações no grupo da universidade, BIXOS UEMG, expressas pelos estudantes prejudicados pela greve em detrimento das postagens que mostram as conquistas do movimento no mesmo grupo. E usam fotos alheias para ilustrar sem crédito ou data. E não assinam o texto. Ai, ai, ai.

E não é esse o jornalismo que quero fazer.
Ace in the hole (1951)
No dia seguinte, publicaram outra notícia alardeando o consumo de bebidas alcoólicas na ocupação. Ainda mais apelativa, a matéria inicia dramatizando os acontecimentos: a situação dentro da UEMG unidade de Frutal parece mesmo estar saindo do controle (ah, dessa vez usa o termo certo: unidade ao invés de campus). O que são os acontecimentos? A “”denúncia”” de churrasco seguida da “”denúncia”” do consumo de bebidas alcoólicas. Além de insinuar que há uma mancomunação entre o diretor e os grevistas (“Os “manifestantes”, que tem o apoio de parte dos professores e mantém, curiosamente, a afeição do diretor da UEMG [...]”), deixa claro que, a seu ver, a UEMG está desgovernada. Dizem que a assessoria foi procurada e não respondeu, mas replicam um comentário do diretor em rede social que explica praticamente tudo. Tem qualquer coisa de desconexo tanto nas acusações e julgamentos quanto na redação das matérias. Dessa vez, usam o artifício de ocultar o rosto dos meninos numa das fotos, mas o restante continua sem data ou autoria. Uma das fotos é possível supor a data: as ‘barricadas’ que fizeram, as mesas nas escadas, do início da ocupação, há quase 1 mês. Atrasadinhos.

O Centro Acadêmico de Direito (CAD) e o Movimento Estudantil Unificado - UEMG postaram notas de esclarecimento/repúdio às matérias. O CAD apontou os artigos da Constituição violados pelo site enquanto o Movimento Estudantil esclareceu quando ocorreu o churrasco (precisava?) e apontou a única prova de consumo de bebida alcoolica como caso isolado do início da ocupação – nas artes e chamadas para os saraus frisavam que não era permitido o consumo de bebida alcoolica – custa pesquisar, Alô Frutal?

Ninguém fez a devida cobertura da ocupação. Noticiaram quando começou e ficou por isso mesmo. A proximidade é um dos critérios de noticiabilidade, mas ninguém se preocupa com isso quando há uma greve numa universidade pública na sua cidade acontecendo. Ela é distante do centro, ela fica no alto do morro, mas devia interessar à cidade. Não devia? Quem sabe da sua existência, quem sabe que há uma greve acontecendo pergunta “e a greve?” porque não tem quem os informe. Hoje em dia todo mundo tem acesso à internet, mas, mas o ponto forte aqui ainda é o radiojornalismo. E teve rádio batendo ponto na universidade? Então..., pois é... Outros portais noticiaram tanto quanto aqui. Está havendo e fim. E quando um sujeito resolve olhar para o que está se passando é para informar errado, parcialmente, sem apuração, tendenciosamente.

Sobre o caso nacional.

O caso de maior repercussão no país nessa última semana, fora a divulgação de conversas entre figurões gravadas em março sobre a Lava-Jato, o poder e medos, é mais sério e me enche de dúvidas: a menina de 16 anos que foi estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro. Gravaram um vídeo da violência onde aparece tanto a menina desacordada e ensanguentada quanto os homens ao redor dela. Foi o mais visto no país na semana, disseram. Alguns portais trataram com cautela a notícia. O G1, por exemplo, Polícia no Rio apura suposto estupro coletivo e identifica autores. Uma acusação como estupro é muito grave. 

Na faculdade, a gente aprende com o caso Escola Base o que uma notícia falsa pode causar. Comentários como ‘prefiro defender a vítima e descobrir que era mentira do que defender um estuprador’ só podem ser ditos mesmo por quem não tem compromisso com a verdade (isso não é o lema de uma emissora?). No entanto, neste caso, há o vídeo como prova. Além de parecer ser praxe culpar a mulher. Entende o ponto? Como tentar manter a imparcialidade quando se sabe que haverá mesmo uma minimização do ocorrido, uma culpabilização da vítima? E está acontecendo. Perguntaram à menina se ela costuma fazer sexo em grupo (!!!). Há quem até ache suspeito isso ocorrer na atual situação política, como se pudesse servir de distração. Um estupro. De uma menina de 16 anos. Com mais de 30 homens envolvidos. 

Não quero jornalismo para isso. Não quero um jornalismo que deturpe a realidade, não quero um jornalismo que desumanize a vítima, que condene gentes. É horroroso ter que ouvir de um veterano que "em 90% dos casos vendemos nossos princípios, nossa ética e nossa função social por um salário patético" e saber que é a verdade. Vamos ter que trabalhar as opções. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Greve geral da UEMG/Frutal completa 2 semanas com videoconferência com reitor

Arte da divulgação da greve [1] [2] [3].

Desde às 19h, aproximadamente, do dia 2 de maio a UEMG/Frutal não é mais a mesma. O tumulto e a balbúrdia do início resultaram em uma onda de ativismo ainda não vista no sertão da farinha podre. A ocupação tornou as barracas e as faixas parte da paisagem antes composta apenas por bancos azuis e vácuo.

Fruto da união das pautas de professores e alunos, as atividades da ocupação contavam com ao menos dois responsáveis pela arte e a divulgação ocorria principalmente no grupo BIXOS UEMG e  nas páginas Movimento Estudantil e Tá no Tuim. Cartazes pedindo que se utilizem as hashtags #OcupaUEMG e #ApareceDijon ainda podem ser vistos pela universidade. A cobrança pela presença do reitor, ausente desde a campanha eleitoral para reitor e sua intitulação como cidadão honorário da cidade em 2014, para que se discuta face to face os problemas da unidade é muito lembrado e, num primeiro momento, pareceu ser o estopim para a ocupação.

O passo a passo do #OcupaUEMG pode ser resumido assim:  

2/5 -  Assembleia: início da greve/ocupação
3/5 - Conversa com advogados
3/5 - Assembleia de deliberação da greve 19h
4/5 - Piquenique 16h
4/5 - Plenária da Greve: representantes de Ibirité 19h30
5/5 - Palestra Mercado, mídia e crise e de representação com o professor Doutor Fernando Melo da Silva. 15h30
5/5 - Sarau 20h
6/5 - Yoga 9h
6/5 - Jogo: Imagem e ação da ocupação 15h
7/5 - Tarde esportiva: futsal, vôlei, queimada, peteca
8/5 - A Mulher no Movimento Estudantil da UEMG 17h
8/5 - Hipnose Kened França
9/5 - Mesa Redonda: Desastre de Mariana 19h30
11/5 - Assembleia 19h
13/5 - Plantio de árvores
13/5 - Gravação de vídeo
13/5 - Karaokê com just dance
14/5 - Sarau II 21h
16/5 - Videoconferência entre discentes e docentes de Frutal e Ibirité
17/5 - Videoconferência com o reitor 14h30

Na videoconferência ocorrida ontem iniciada às 14h30 e estendida pela tarde à fora, o que ficou nítido para os olhos de fora foi: sem contar os erros crassos, os problemas são grandes, a reitoria não consegue resolver tudo e não há diálogo. Não que não possa haver, não que não haverá. Não. Falta diálogo entre as partes. Há tempos. A instituição é grande e recheada de departamentos e setores (burocracia!) e, deus do céu, 17 unidades! Não há uma boa comunicação na unidade e entre as unidades. Apenas uma pessoa do administrativo, além do diretor e do vice, apareceu à videoconferência para esclarecer os trâmites e exigências para requerimentos (burocracia!). A questão dos livros e da biblioteca foi discutida sem ter um representante sequer para ponderar sobre a real situação - uma funcionária perguntada sobre disse que só queria receber seu salariozinho, que apesar de pouco é o que tinha.

(Os servidores não entram em greve.)

Há quem aponte como sendo o concurso a solução de tudo, mas um diálogo já parece o suficiente. Faltam livros específicos, mas há vários encaixotados por falta espaço e sobram livros de Psicologia, um curso que sequer existe na unidade. E a biblioteca nova? Transferirão pro prédio do Memorial do HidroEX. Não recebemos nada para fazer licitação. Realmente, não foi enviado ainda porque... Seu diretor deveria mesmo mostrar o conteúdo do e-mail [...] responde a várias dessas perguntas. A senhora recebeu o e-mail de x de abril? Mandou para mim? Não sei se foi... 

Já os alunos sem aulas, estes vivem na incerteza de boatos. Disseram que a greve vai durar 100 dias! Eu quero ter férias em julho! Se durar mais uma semana, disseram que vamos ter aula em dezembro! Disseram que a maioria dos professores já está contra a greve. Olha, acho que ninguém sabe precisar quantos são os grevistas. E há professores furando a greve desde o começo e alunos furando a greve desde o começo e não levantando o dedinho se perguntados se querem que a greve prossiga, mas o reitor pergunta assim mesmo: essas perguntas aí pelos Centros Acadêmicos foram elaboradas com participação dos outros estudantes, né? Diálogo, crianças, tem que ter diálogo.

sábado, 14 de maio de 2016

Quem fica em cima do muro

Sempre somos cobrados para escolher um lado. É natural. É mais fácil discutir com quem já tem argumentos para rebater. Há algumas semanas nos foi pedido um artigo de opinião sobre o impeachment. Desconversei, dei dois mortais para trás, uma sambadinha e entreguei qualquer coisa parecida com uma croniqueta. Eu não queria impeachment, mas as coisas do modo como estavam sendo levadas também não me apeteciam.

Acabou que o impedimento passou pela Câmara, passou pelo Senado e estamos agora com dois “presidentes”, uma afastada e outro em exercício, vários ministérios a menos e algum pé atrás.
E a greve continua por aqui.

Às vésperas de completar 2 semanas da assembleia que declarou a greve, a UEMG já teve inúmeras atividades culturais, outras reuniões, as escadas foram ocupadas, foram desocupadas, foram esquecidas algumas mesas por lá, algumas faixas ainda barram passagens e o mais recente: as portas do térreo que dão acesso à lanchonete e ligam os blocos têm estado trancadas sem motivo específico.  Para acessar a lanchonete só contornando o bloco A e para acessar o bloco B, só entrando pelo hall e atravessando toda a UEMG. As rampas têm estado escuras, aliás. Tá tendo greve, tá tendo economia de energia, sim.

As barracas distribuídas há dias pelo hall de entrada e corredor variam em número. Já foram 15, já foram 18, nessa última sexta-feira contava-se otimistamente 13. Os grevistas e seus apoiadores e quem-é-contrário-à-greve (não parece certo falar em opositor aqui) podem até oscilar em número, mas há uma categoria específica que parece permanente: os muristas.

Em artigos de opinião, nos é exigido um posicionamento, não é permitido se agarrar ao muro de “ai, meu deus, os dois têm razão” mesmo que seja verdade. Às vezes os dois lados têm argumentos bons o suficiente para criar muros de indecisos. Acontece. Com bastante frequência. E não pode. Que sacanagem não poder!

O ‘estar em cima do muro’ frustra os dois lados. Tanto é que por vezes os muristas têm as pernas agarradas e se desequilibram. Se esta estratégia não funciona, são alvo de desprezo como pressão para que escolha logo. Há quem use o muro como casa, uma zona de conforto, mas defendo os que usam o muro para enxergar melhor e mais longe. A não ser que um torcicolo lhe paralise o pescoço, é de cima do muro que se pode olhar nas duas direções e tentar entendê-las. Claro, às vezes é preciso um pouco de esforço para descer do muro, subir, descer do outro lado e voltar - vida de murista não é moleza! – e quase ninguém quer se esforçar. Escolher um lado pode ser mais cômodo, afinal, ainda que também haja dificuldade em se equilibrar em argumentos.

domingo, 8 de maio de 2016

Transmídia de quinta

* o de quinta tem duplo sentido. Pra variar. Abaixe o volume se pretende escutar os áudios. E se prepare para os ruídos.

Quinto dia do mês, quarto dia da greve.


Vai ter sarau, disseram, e às 19h do estacionamento já se ouvia música vindo de algum lugar do semi-círculo de cadeiras, em sua maioria, vazias no vão de luzes apagadas da lanchonete, à espera dos grevistas que se apresentariam às 20h.

Em assembleia, no segundo dia, foi decidido que seriam retiradas as barricadas, mas o caminho usual para o bloco B ainda estava interditado. Com a porta fechada, uma mulher parecia ter "aparatado" ali caminhando para a saída. Os fura-greves ou qualquer outra pessoa que quisesse ter acesso ao 1º piso com suas tantas funcionalidades (fora as salas de aula e a Agência, as salas de Pesquisa e Extensão, a própria diretoria, a sala dos departamentos, as coordenadorias dos cursos, a sala dos professores, a "biblioteca do Direito", tudo fica nesse piso - e só os professores entraram em greve) teria que passar pelo bloco A. 

- Oi, Thaísa.
- Oie.

E mesmo as escadas desse bloco ainda continham mesas e faixas. Já não era uma corrida de obstáculos como no primeiro dia, mas algo entre uma cena de crime e uma cama de gato. 

Na curva das escadas da UEMG.
No cartaz em destaque, opõem a mesmice que ocorre nesse piso à revolução que fazem lá embaixo

20h40 - A UEMG parece silenciosa ouvida do 2º andar. Não era para ter sarau? Não era para haver barulho, festa, folia? Não ouço fogos. Estarei mal dos ouvidos?



Depois das 21h, o tempo já cobrava blusa dos friorentos e pros curiosos, além da música - que não era Vento no litoral coisa nenhuma, a passarela oferecia  a visão dum pouquinho da boniteza hipster (é assim?) de velas (otimistas dirão que é tudo consciência ecológica, economia de energia, a hora do planeta) que puxavam o sarau para algo parecido com luau. Duas meninas, no entanto, no ovinho do bloco A, brincavam saltitando alheias àquilo, como se a música ali fosse outra. Assim como no outro bloco, neste também havia professor dando aula particular e gentes atarefadas. Exceções. Subitamente, a UEMG pareceu ser qualquer coisa distinta de uma universidade. Dividida entre aqueles que tocavam suas vidas normalmente e os grevistas no vão, estudantes em sua maioria, que pareciam ter obtido a liberdade que sempre quiseram, independente das aulas, independente da estrutura ao redor de acessos bloqueados por eles mesmos.

Crianças brincam às margens da revolução

terça-feira, 3 de maio de 2016

É o que? Greve.

Em ambientes de convívio social, seja online ou off-line, há quem se destaque pelas opiniões relevantes e quem se destaque por defecar pela boca. E há entre os que não se destacam por nada, os tímidos que observam tudo. 

Em épocas de movimentações político-sociais, os tímidos se agarram às opiniões dos primeiros que, ainda que por vezes conflitantes, ajudam a construir um raciocínio, uma ponderação sobre o que se passa – quase desespero para fugir do limbo da ignorância de não saber o que está acontecendo. Por que seria diferente com as manifestações, paralisações e greves de professores?

Paralisação não é novidade. Nem na universidade, nem em lugar nenhum. As da universidade tinham como ponto-mor a realização do concurso cujo edital data de 2014 e que até este ano vinha sendo adiado, cancelado e lamentado. Claro, há sempre outras pautas a serem discutidas, mas essa parecia mesma a fundamental.

Houve a primeira parte do concurso, recheada de críticas, no dia 3. Houve assembleia no dia 18 para discutir o concurso, o ressarcimento dos professores da lei 100, [...]. Dias se passaram até que uma reunião marcada para esse 2 de maio, às 17h, decidisse os rumos de tudo. Greve. Às 19h, todos no anfiteatro! Greve. Paralisação. No hall de entrada: que que está acontecendo? Greve. Eles pensam que minha gasolina é capim? Moro há 4 quilômetros daqui! E as provas? Vai ter greve. Eu tinha prova hoje. Se eu soubesse, não tinha vindo. Tenho trabalho. E o trabalho? 19h, no anfiteatro: Ué, não tem ninguém.

Aos poucos, timidamente, foram ocupando as poltronas. Alguns que insistiam em ficar ao fundo, em pé, talvez dispostos a ir embora tão logo a curiosidade fosse sanada, foram convocados e insistiram com eles até que se sentassem. Mais difícil, no entanto, foi a ocupação das cadeiras vagas à mesa no palco. Representantes de centros acadêmicos foram chamados, mas poucos pareciam presentes. Dizem até que à certa altura qualquer um poderia tomar assento, como se o importante fosse só ocupar. Ocuparam.

A greve era de professores apenas durante a primeira hora. De professores, no caso, três. Um outro fez uma pequena participação, mas os professores que tomaram a palavra estavam em três. Não eram as caras que normalmente tomam frente nesse tipo de manifestação, o que espantou quem tinha a voz que dava enjoo de um como desculpa para não permanecer.  Caras conhecidas dos corredores e das salas de aula da universidade, mas pela primeira vez se expondo . Um estava à mesa e foi quem chamou os alunos do fundo. Os outros dois, mais pertos do público, apresentaram a realidade profissional, os motivos pessoais e os pontos que os grevistas requisitavam. O silêncio era incômodo e só foi interrompido por grito indistinto de urro ou vaia quando a mulher professora entre os três tomou a palavra.

Quando o público pôde falar, saltou de seu lugar um rapaz negro de careca brilhante e idade incerta trazendo o lado prático da coisa. Com um tom quase debochado e cativante, expôs a realidade: tá todo mundo duro, o Estado tá quebrado, tem muita gente de fora e o pai vai bancar filho noutra cidade à toa?  Vai bancar grevista? Tem condições?  Houve réplica de outra estudante que seria por amor à causa. O rapaz insistiu. Era um espetáculo e o público parecia estar com ele. Compreendia os grevistas, mas. E as reposições? Eles continuariam ganhando, mas e os estudantes? Expôs praticamente todas as dúvidas do público.  Em sua tréplica, foi cortado por uma voz impositiva que vinha da mesa. Não era do professor, mas vinha em defesa da classe. Repetia todo o discurso de anos. O que era preciso e do que precisavam lutar para conseguir. Outro estudante gritou palavras de ordem. O público já estava enleado e parecia aplaudir efusivamente o que queriam que aplaudisse.

Conta-se que houve votação e que, com mais dedos levantados, os grevistas venceram. A notícia da ocupação chegou depois. Os estudantes decidiram apoiar a causa e ocupar a universidade. Mais de 100 estudantes, várias barracas, 1 único professor. Um twibbon com palavras positivas de luta se tornou viral nas horas seguintes. Estava tudo em suspenso e baixada a greve. Barricadas, mesas nas escadas, impediam qualquer um de furar a greve. O único atleta que se sabia atleta, no meio disso tudo, luta karate e grevista. Nenhum praticava corrida de obstáculos. Nem queriam. E as provas que faltam? Façam em casa, por favor. Nos vemos dia 10, 11, ou quando decidirem por isso.

Uma nova reunião está marcada para a noite dessa terça-feira, 3, para mais esclarecimentos sobre o que está acontecendo e os rumos tomados.

Um cronograma foi divulgado com a programação para o dia.

Eventos que ocorreriam nos próximos dias como Integracom do curso de Comunicação Social e o Dia da Integração da Frente Feminista foram adiados.

A notícia da greve saiu em portais como Estado de Minas, G1 e em sites da cidade.