sábado, 5 de março de 2016

O ganhador do Oscar: um All the president's men 2.0

Filmes com e/ou sobre jornalistas. Em questão de momento você monta uma lista. Ou o Google te dá fácil. Como preferir. Os 10 melhores filmes sobre jornalismo, 10 filmes que todo jornalista deveria ver, 10 ótimos filmes sobre jornalismo... Não tem fim. Qualquer um pode criar uma lista, publicar na internet e difundir seus critérios de escolha assim como estou fazendo. Mas esse é apenas um dos motivos para a quantidade de material sobre o assunto. O outro é: há mesmo muitos filmes sobre/com jornalismo/jornalistas.

Bob Woodward (Robert Redford) preocupado com as comparações
(All the president's men, 1976)
Talvez seja mesmo a profissão menos reconhecida que mais aparece em filmes. Podemos encontrar em dramas (Dog day afternoon, 1975), em suspenses (Lions and Lambs, 2007), em comédias (The rum diary, 2011), em romances (The devil wears Prada, 2006), em filmes de ação (Vantage point, 2008), de super-heróis (Spider-man, 2002)... e em filmes de jornalismo. Citizen Kane e Ace in the hole são sempre lembrados e são mesmo grandes nomes do ‘gênero’, mas foi All the president’s men (1976) o escolhido favorito entre jornalistas.

Uma pauta, um grupo de jornalistas investigativos, um escândalo de proporções grandiosas. Parece familiar? É a fórmula de grandes reportagens, memoráveis, que marcaram época, que mudaram épocas. Justamente o enredo de All the president’s men e Spotlight.

Ambos são baseados em acontecimentos reais. Ambos tratam de escândalos. Ambos retratam muitíssimo bem o cotidiano de redações de jornal. Spotlight (2015) mostra a investigação feita pela equipe investigativa do jornal The Boston Globe sobre os casos de pedofilia, vinha acumulando prêmios, mas apesar de forte, não parecia favorito quando foi anunciado vencedor do Oscar de Melhor filme e de Melhor roteiro original no último domingo, 28. All the president’s men (1976) ao narrar a investigação de uma dupla montada subitamente sobre o caso Watergate deu em 1977 ao editor ponderado de Jason Robarts o Oscar de ator coadjuvante, além de outras três categorias técnicas.

É relativamente complicado ao resenhar um filme atrelá-lo a outro como fiz no título, mas as semelhanças são tantas e tão nítidas que não se pode negá-las. É sobre o fazer jornalismo e isso já foi filmado. Talvez por não ter um caráter de novidade à altura dos concorrentes páreo duro é que Spotlight tenha sido tão criticado (e frustrado alguns bolões). No entanto, além da crítica fina ao jornalismo (na década anterior o jornal tinha a mesma pauta na mão, mas passou batido), há a carga dramática.

Não se trata apenas de enfrentar o poder e os desmandos de uma entidade secular como é a Igreja Católica, é tratar de milhares de infâncias e vidas destruídas pelo abuso de padres. A cena da redação alucinada com telefones que não paravam de tocar, em cada linha uma vítima disposta a falar, é um retrato fantástico disso. E é esse serviço social que o jornalismo faz, a herança do filme.