domingo, 18 de outubro de 2015

A saudade está nos aros dos seus óculos e na borracha do pneu daquele fusca

das internet
Um fusca chegando sem fazer barulho é o gancho que uso para tratar de óculos meus e alheios. Em comum, os formatos arredondados de alguns e a saudade.

O fusca em questão é branco e fazia parte de uma casa rosa. Era uma referência. A casa rosa com fusca branco na garagem. Não havia casa rosa sem fusca branco ou fusca branco sem casa rosa. Também não havia fusca branco sem senhor vermelho e careca e senhor vermelho e careca sem um fusca branco. E havia a senhorinha morena de cabelos curtos que sempre saltava de dentro do fusca – do banco traseiro ou do passageiro. E ela tinha, sempre teve, pelo que me lembro, óculos arredondados.

Não lembro bem de como eram os antigos, mas os últimos eram pequenos, ela era pequena, e modernos. Não lembro a marca, nunca lembro, mas lembro da sensação para além dos óculos de que ela era uma senhorinha moderna. Destoando de mim e do meu gosto por coisinhas miúdas – os primeiros óculos, escolhi por conta da caixa, os segundos pelo formato, o terceiro pela marca e o quarto pela cor. Por miudezas é que me sentia mais próxima da outra senhorinha de cabelo de trança longa e feita coque no alto da cabeça com grampos. Nela também ficavam amparados na cara óculos arredondados.

Arredondados também eram meus primeiros óculos e os óculos quebrados da colega dados pelo avô e num patamar altíssimo de estima – de onde veio a ideia da crônica.

Com óculos retangulares não consigo enxergar nada. Preciso depositá-los à frente, limpar o suor dessa tarde infernal para pensar no lugar deles nas nossas vidas. O mote me foi repassado, mas nunca herdei óculos, não sei o que é isso.  Entendo o que seja a estima e isso é de grande valia, ao menos. Da mais próxima, a senhorinha de trança-coque, por exemplo, guardo um botão – redondo, rá. E, ah, no botão, há um carro, mas para desvario do texto não é um fusca.

É engraçado que tudo caminhe em círculos quando as linhas só seguem retas. É engraçado porque a história, a saudade e a vida são mesmo cíclicas. Quem estuda História um mínimo que seja sabe que ela se repete, erra igual várias vezes, quem sente saudade e sente saudade de novo e de novo e de novo sabe que ela não acaba assim e a vida, bem, ainda que termine um dia, é cheia de idas e vindas, cheias de histórias e saudades, um absurdo de loopings.

No meu inconsciente está presente qualquer lembrança que denota que essa é a forma da natureza, a forma perfeita. Está mesmo presente em tudo quanto vemos. Vai ver está também em tudo quanto sentimos... ainda que algumas dores pareçam afiadas demais para não conterem pontas e algumas alegrias pareçam preencher círculos ao invés de serem-los elas mesmas.

Enfim, o fusca não é o mais perfeito dos carros, há quem diga que sequer seja um, e os óculos estão todos sujeitos a reparos. O que não os impede em momento algum de ser objeto de estima. Aqui, por exemplo, estão todos eufóricos com o fusca velho que de tão recém-chegado é quase novo. Limpa, lava, encera. O que precisa arrumar? Isso, isso e isso. A mim que sou materialista torta, assim vazio, sem um senhor e uma senhorinha não representa lá grande coisa. Numa casa que não seja rosa, então, é só mais um fusca. Mas só para mim. Já os óculos da colega, caso diferente, não sei que fim tiveram. Um dos lados da ponte havia quebrado e esperava por solda. No pós-Simpósio de Comunicação, haveria muito tempo para consertá-los. Para ela, segundo explicou, os óculos eram uma maneira de trazer a lembrança do avô sempre por perto, mantê-lo sempre junto. Uma ponte entre ela e o avô. Esta fortuitamente passível de solda. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

II Simpósio de Comunicação Social da UEMG/Frutal - De gente grande

Logo official do evento 
No alto do morro, depois da curva, do lado do Instituto HidroEX, você já viu, de longe se vê, a Universidade do Estado de Minas Gerais onde, entre os dias 7 e 9 de outubro, aconteceu o II Simpósio de Comunicação Social.

Sob o tema Práticas contemporâneas do mercado, foram ministrados oficinas, mini-cursos e palestras voltados para a área de Comunicação, mas abertos e de interesse de toda a comunidade. A diversidade das temáticas impressiona: só no primeiro dia, quem foi à UEMG à tarde pode escolher, conforme os horários, entre Crítica cinematográfica, Radiojornalismo, Jogos criativos, Jornalismo Científico e Direção de criação com o dono de uma das agências mais jovens da região, a Onzee. À noite, Victor Lymberopoulos do Mídia Publicitária abriu o Simpósio falando sobre seu trabalho e dando dicas aos futuros publicitários. Na sequência, alguns dos mais relevantes nomes do jornalismo da cidade compuseram uma mesa redonda onde falaram de suas respectivas visões e experiências.

Já o segundo dia, mantendo a diversidade, trouxe filhos pródigos de volta ao lar e colocou estudante de frente para estudante. Caso da Agência Pombo, formandos de 2014, com o tema Da criação ao mercado, e o rapazote Gabriel Gonzales que ainda na universidade já tem muito a transmitir aos calouros.  Outras atrações também de casa foram os professores Alaor Ignácio, com seu tour pela história dos jingles, e dona Daniela Portela ensinando a produzir o mais brasileiro e jornalesco gênero literário: a crônica, além de Luiz Molinar nos contando a fantástica história de Lucília Rosa, uma das primeiras vereadoras e um dos grandes nomes do comunismo no país. A segunda noite do evento foi marcada pelo confronto, em duas palestras, entre o jornalismo tradicional presente na figura de Marcelo Toledo, correspondente da Folha de S. Paulo, e o jornalismo independente de Cynara Menezes e seu blog Socialista Morena.

Com o cancelamento da oficina de grafite na tarde do dia 9, tivemos um diálogo com Lienay Luz sobre Assessoria de imprensa. Direção de arte, Roteiro de cinema, Cultura e vida saudável e Redação Publicitária também constaram entre as possibilidades de escolha. Para fechar a última noite do evento, contamos com a presença do redator da JWT, Guilherme Nesti falando sobre sua trajetória e apresentando seus leões em Cannes. A atração principal, no entanto, abriu a noite: o presidente da Bombril, Marcus Scaldelai que, aliás, passou todo o tempo de palestra respondendo à dupla pergunta: Quem é o cara responsável pela empresa sinônimo de palha de aço no país e como chegou lá? A resposta é uma vida resumida em dedicação e muita sorte. Façamos figas também. Quem sabe? 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Do lado de cá


Nunca fui assaltada - furtada, não sei. A arma apontada, o terror, aquele medo de morrer, nunca os tive. Parte disso deve-se, imagino, a ser de extremos: ou carrego minha mochila, ou não carrego nada. Dinheiro pouco e contado - carteira laranja com ursinhos não parece apropriado para uma mulher (?) de 21 anos; pescoço, pulsos e orelhas quase sempre nus e quando não desnudos, bijus; o celular poderia ser um atrativo, porém não é dos modelos mais caros e, usado, quase 1 ano, não tem lá muito valor. A outra parte com certeza deve-se a minha sorte. Sou muito, muito sortuda: cidade pequena, ando pouco e pouco sozinha.

Claro, ainda assim consigo me pôr no lugar da vítima. Ninguém gosta de perder coisas. Ninguém. É chato pra caramba. E quando se tem algo tomado de si a revolta é natural. Quem duvida? Se for sua vida a coisa tomada então... Bom, não preciso dizer mais nada, não é?

Mas dessa vez era o roubo de uma latinha de cerveja.

E eram dois contra um.

E eu nunca tinha visto assim, ao vivo, tão próximo, tão nas minhas fuças.

Estava pensando no que fotografar para lembrar da festa de Nossa Senhora Aparecida no povoado de Água Santa na tarde dessa segunda-feira, 12, com o celular, quando reparo no rapaz magricela caminhando à frente não sei bem o porquê. Em questão de segundos, ouço uma balbúrdia atrás de mim, um É aquele lá! vindo de sei lá onde junto a um policial que passa correndo, empunha o fuzil, derruba e domina rapidamente o rapaz enquanto um outro chega para... para o que mesmo?  

Foi tão rápida e violenta a ação pros meus olhos que tive vontade de chorar. Se não havia resistência, pra que aquilo tudo? Uma senhora surgida da multidão que se aglomerava esbravejava, dando lição de moral no rapaz, provavelmente era a vítima primeira, mas eu só tinha susto para aquele estirado no chão, da forma que foi, uma vítima secundária. Não vi latinha com ele, mas juram que deixou cair quando imobilizado. 
Tudo aconteceu enquanto eu passava e não me detive mais tempo para ver o que aconteceria a seguir. Nem tinha vontade. 

sábado, 12 de setembro de 2015

O Mestre dos Magos da proatividade pela primeira vez em Uberlândia

Créditos: Diego C. David

Não era um evento cosplay, mas na última quinta-feira, 10, durante o 3º Fórum de Criatividade e Marketing, em Uberlândia, um senhor surgido à esquerda, há muito aguardado, prendeu todas as atenções, falou, repetiu proativo x vezes, respondeu algumas perguntas e, quando menos se esperava, desapareceu tal como o personagem da série animada Caverna do Dragão.

Este senhor era Washington Olivetto.

Como todas as gentes curtidas na profissão, Olivetto pode se isentar de usar fórmulas e quaisquer teorias para utilizar a si próprio (ou às suas campanhas) como exemplo. Empunhou o discurso da proatividade para um melhor desempenho profissional, “tenho sido proativo a vida inteira”, usou suas próprias frases famosas e fez um passeio pela sua história e das suas mais famosas propagandas.

O público diverso composto por faixas etárias várias pode reassistir ou assistir pela primeira vez a propaganda da Valisere e seu primeiro sutiã e suas repercussões (foi parodiada pela TV Pirata, por uma propaganda argentina, Camila no tiene tetas, e citada num discurso do ex-presidente Lula), as propagandas da Folha e seu Hitler, da Fnac, da Época, do Estadão e seus 140 anos, da Bombril em seu princípio e até as mais recentes da Seara com sua garota propaganda global e suas polêmicas. 

Não se fez de rogado em momento algum. Falou dos títulos importantes, alguns recém-recebidos, respeitando sua grandeza, mas sem lustrá-los pelo ego. Ganhou, ganhou e ficou ganhado. Contou das suas técnicas de incentivo, enfatizando sua preocupação com o bem-estar de seu pessoal, e do prêmio Eu sou bom pra cacete cuja serventia é essa mesma: suspensório de ego.

Brigou com a iluminação indecisa o tempo todo, quebrando a hipnose da plateia e tirando algumas risadas.  

Quando deu por encerrada a palestra, recebeu presentes, perguntas minguadas foram selecionadas, lidas, respondidas e uma pilha de pedidos de estágio foi formada. Antes que a galera do ‘eu só vim pra tirar foto com o Olivetto’ aparecesse, sumiu – por onde entrou, provavelmente. Ficamos com sua presença virtual no telão que anunciava um evento recém-acabado, fotos e uma vontade reprimida de perguntar Quer ser meu amigo?.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cidadão Chatô



Ler Chatô é passear em grande estilo pela primeira metade do século XX do Brasil. Em papel couchê e farto de fotografias várias, o calhamaço de mais de 700 páginas pesa, incomoda, impressiona, mas nada se comparado à vida do homem, do nordestino, brasileiro, jornalista Assis Chateaubriand.

Fernando Morais nos apresenta o mais humano dos homens. Aquele que ajudou gentes, pensou no futuro fazendo o presente do país, construiu um império e, ao mesmo tempo, preocupou-se infinitamente consigo próprio, foi antiético e implacável com inimigos que lhe apareceram à frente ou tratou de inventar.

Porque como inventou o sr. Chatô, como manipulou o sr. Chatô. Se quiser ter opinião, que compre um jornal. Comprou 40. Depois de escrever para os outros, passou a viver com papel e lápis para compor artigos diários para os seus próprios. Como escrevia o sr. Chatô, como difamava o sr. Chatô. E se contradizia, e virava casaca. Foi germanófilo, aliadófilo, mas acima de tudo capitalistíssimo! Entendeu a importância da publicidade nos jornais antes de todo mundo e fez dinheiro e fez dívidas todas. Como fez dívidas o sr. Chatô, como fez alavancas o sr. Chatô. Encontrou e manteve durante toda a vida gente que o ajudasse em suas loucuras e desvarios.

O Cidadão Kane sul-americano. Logo na orelha (durante o livro nos deparamos outras muitas vezes com essa expressão) já nos são apontadas as semelhanças e desfeitos os enganos: Charlie é só um criançola saudoso de seu rosebud perto de um Chatô enorme e desbravador.

E tamanha vida dá ares de novela ao livro quando então a relação com o homem se dá em “Vai, Chatô!”, “Não, Chatô!”, “Pra que isso, Chatô?!” e semelhantes. As páginas vão virando, as décadas vão passando, pegamos em armas, depomos as armas, pintamos o rosto, tiramos a maquiagem e quando, enfim, pensamos que Chatô é um chato, a história dá aquela guinada e continuamos aferrados à espera do desenrolar dos fatos. Agora ele vai se dar mal, quer ver? Não dá e quando dá pensamos que há um senhor vácuo ainda a ser preenchido porque do final já temos conhecimento do inevitável.

Quando se fecha o livro e então se quieta, pensa-se nos números impressionantes, nas tramas em que esteve metido, no cenário brasileiro-mundial da época, parece lógico que Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo não poderia ter existido noutro período. O dinheiro concentrado nas mãos de alguns e ao seu dispor, os primeiros passos de novos meios de comunicação, período turbulento na política, o que mais era preciso para construir um império? O talento desse homem arretado.

Todas as críticas entendidas já foram feitas. Todas as recomendações (leia esse livro! Leia esse livro!) já foram dadas. Afinal, o livro já completou 20 anos, mas contidos os aplausos, faltavam meus espantos: que história, que vida, que homem. 
---------------------------------------------------------
Após duas décadas também, em maio, tivemos o primeiro trailer do filme homônimo de Guilherme Fontes com Marco Ricca interpretando Chatô. http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-113380/

domingo, 7 de junho de 2015

O que resta

Era sábado e o estabelecimento já estava aberto quando chegou. Estacionou o carro em frente e foi retirando caixas médias de lá. Uma, duas, três. Derrubou a quarta com a mesma calma com que se movia. Esfreguei os olhos para retirar a poeira de slow motion que embaçava tudo, mas reparei a tempo que ela cobria todo o mundo. Voltei a olhá-lo e calmamente também recolheu o conteúdo que não cheguei a distinguir da distância em que estava. Parei para olhar pela janela, vi a cabeça de formato engraçado, medi minha paciência e me pus a vigiá-lo. Simples. O que mais podia fazer? O que mais poderíamos fazer? Ele foi até à porta uma, duas vezes. Pensei que trataria de varrer a calçada também, como fazem as velhas senhoras, mas não o fez. Ansioso, esperava alguém. Àquela hora da manhã, naquele dia da semana? Traficantes acordam tão cedo?

Menos lento, um carro amarelo estacionou à pouca distância já acenando efusivamente. Festa? Desceram tantos que mal pude contar, Eram tantos braços, tantas pernas, tantas cabeças coloridas, se chocando, se cumprimentando, se abraçando, se beijando, se parabenizando. Era mesmo festa? Estes mal tinham entrado quando outros se puseram a chegar imediatamente. Meio onda, meio mar, que só chegava, que só se chocava, que só aumentava o burburinho em algazarra. Era mesmo festa. Só podia ser festa. Quem estava de gravata borboleta? Vi uma gravata borboleta, tenho certeza! Quem a usaria a essa hora da manhã? Um lunático, na certa! Lunáticos, na certa! Ou traficantes? Mafiosos, claro! Presenciei o encontro de mafiosos! Nessa cidadezinha!, logo ali na esquina! Nunca pensei que! Nunca imaginei que!

Afasto-me da janela ou ligo para a polícia? E se alguém já tiver me visto? Marcada pela máfia, que futuro terei? Flamenguista, jornalista e agora alvo de gente perigosa... que destino ingrato. Bem que minha mãe falou, santa mãezinha!, não vá ser gauche na vida! Mas teimei, fui seguir mineiro de versos reluzentes e me dei mal. Pensando bem, se já estou condenada que mal faz ficar à janela? O almoço logo vem, talvez o último, poderei manter o clima de O poderoso chefão e me consolar no pós-mortem em, se não cobri nenhuma guerra, presenciei, não, descobri! onde mafiosos se encontram, Praticamente um I am new Tim Lopes. Coisa de botar no currículo, de aparecer na TV. Se se tratar de relações internacionais, então? Estou feita! Perpetuada heroína!

Mas, olha, um pessoal está saindo. O que trazem nas mãos? Binóculo, cadê binóculo? Isso eles não ensinam na faculdade! Preciso de um binóculo! Estão folheando algo. Todos, sem exceção. Não, um guardou na bolsa. Certo. Será um manual de como armar bombas? Como implantar bombas? Como implantar, armar e sair correndo? Vão saindo aos pouquinhos, meio sem querer, meio querendo ir ficando, ficando. Despedaçam-se em abraços múltiplos, despedidas e sorrisos vários. Que mafiosos mais sentimentais! Don Corleone que me perdoe, vai ver eu precisava mesmo tê-lo terminado. Esses italianos!

De longe parece choro, de longe parece muita coisa. A folia de momentos atrás, quanto tempo?, vai diminuindo,diminuindo, vai desaguando na rua de novo. Como se eu tivesse rebobinado a fita como antes. Vão andando de costas, acenando, sorrindo, se cumprimentando ao contrário, como se o relógio mudasse o curso, rebelde, um anti-horário em prol das gentes com seus manuais de armar suposições. Minhas, no caso. Que horas seriam? Tão tarde, tão tarde. Mas, olha!, O homenzinho parece duas vezes maior agora quando fechas as portas, quando retorna ao carro. Onde estão as caixas? Aquelas médias, que caem lentamente, que carregam o homenzinho, onde estarão? Ele entra no carro pelas próprias pernas, aprendeu a andar sem caixas e as esquece.

Quando o carro já vai longe, no entanto, saem atrás e param na esquina numa espera aflitiva. Para mim, está claro. Esperam pela volta dos mafiosos, italianos, sentimentais, armadores de bombas (terroristas?). Condenada por passar tanto tempo na vigília, já me sinto parte do esquema, incluída pela curiosidade, essa menina sapeca que tem ligações com todos os maus elementos, então O que resta? Visto-me de mafiosa também, sem gravata borboleta, e vou descobrir o mundo a começar pela esquina de baixo, no conteúdos das caixas, no meio dos livros.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Como vejo o mundo

Não sou Albert Einstein e você já sabe disso, seja pelo link que o trouxe aqui, seja por ter parado aleatoriamente nesse bloguinho. Não tenho bigode, não tenho tantos cabelos brancos e nem aquele penteado me favorece e, teimosamente, resolvi adotar o título de uma obra sua para mostrar a minha visão de algo que nadinha tem a ver com o cara, mas ainda assim é um grande evento, algo histórico mesmo: a eleição para diretor na unidade UEMG- Frutal.

Disseram que eu poderia citar nomes, que não havia problema, que tudo bem pitacar sobre isso, mas não achei necessário. É só a impressão que tive e ela pareceu clara em sua confusão assim. Faltaram detalhes, faltaram picuinhas, faltaram n informações no texto, vejo agora, o que, ironicamente, condiz com a história.

Meses depois da primeira assembleia geral em que se discutia, dentre outras coisas, a necessidade de um processo democrático, na última segunda-feira (27), tivemos o resultado: eram pouco mais de 22h30 quando meu irmão chegou ao estacionamento com a notícia de que a chapa 1 tinha vencido.

Desde sua fundação em 2004, a universidade estava sendo dirigida por um único homem amparado por forças políticas regionais. Seja por comodismo ou por achá-lo digno de mérito (acredite, há quem ache que o mandato devesse ser vitalício), mesmo sendo inconstitucional, ninguém discutia sua condição e somente há poucos anos chegou até mim, ainda estudante do ensino médio, certa movimentação estudantil nesse sentido.  Com a mudança de governo estadual nas eleições de 2014 (PSDB → PT), esperavam-se mudanças também na UEMG. E elas vieram.

Além de demorado, não foi nem tão fácil, nem tão simples o processo que culminou nessa vitória. Na verdade, talvez tenha sido ainda pior para quem, como eu, era só o Álvaro da história aonde chegavam inúmeras incertezas, boatos, fatos picados e mal servidos.

E como seria diferente, se logo de início, a notícia do afastamento do diretor já continha duas versões? A versão oficial, ou a que saiu num dos principais jornais da cidade, é que ele teria pedido afastamento por motivo de saúde. No entanto, dois políticos (parte das forças políticas regionais que falei) postaram em suas respectivas redes sociais lamentos por sua saída e acusações ao atual governo, insinuando que essa decisão seria resultado de pressões. Nada ficou esclarecido e nem se procurou esclarecer.

Logo em seguida surgiu o boato de que não haveria eleições, que passariam o bastão para seu assecla mais fiel, que a ditadura perduraria e. Ligaram o alarme de golpe, declararam um inimigo da democracia e o mantiveram na mira por todo o tempo. Quem declarou? Boa pergunta. Ouvi ecos vindos da classe estudantil, meus iguais. Os ataques, as críticas, as respostas, os esclarecimentos, os boatos, tudo chegou deles por muito tempo.

Não houve pronunciamentos oficiais da vítima-mor. Por muito tempo houve apenas posts alheios tomando as dores, mas o posicionamento que se esperava, tão necessário, que desfizesse os possíveis enganos, que o elencasse ao lado dos jovens, pelos jovens, não veio. Impossível não ter tomado conhecimento do que se passava, impossível ter ficado quieto quando todo o tumulto acontecia!

Calou e pagou com a derrota o silêncio. Quando ficou decidida a eleição através de chapas, quando lançou a candidatura oficialmente e tratou de falar, tratou de expôr suas ideias e propostas para seu mandato, tudo surgia pouco crível, falso, fraco, enganoso. Como figura conhecida, teve toda história revirada na procura por motivos que o pichassem. Acharam, claro, como não? Como não achar quando se quer achar? Tinha sua figura sempre associada ao velho e nada do que fizesse poderia mudar isso.

Vários colegas seus, muitos desligados da universidade, fizeram textões de apoio, expondo os motivos que os levaram a apoiar e o porquê dele ser a melhor opção. Quem não se atreveu a tanto, mas por comentários deixou claro do lado de quem estava foi achincalhado, criticado e acusado com direito a dedo na cara.

Teorias conspiratórias surgiram aos montes, aliás. De ambas as partes. De quem o criticava e de quem o defendia.
Nunca antes na história dessa recém-nascida universidade houve tantas ameaças de golpe.

Não ouvi do outro candidato nenhum pio. Nem antes, quando parecia ser só o outro, a esperança diante do maquiavélico inimigo do povo, nem depois, quando fez uma campanha simples e silenciosa. O que levantava sua campanha parecia ser os protestos contra o adversário. Foi criticado, surgiram boatos (ou fatos, havia provas) contra ele, mas a multidão não deu ouvido, nunca me foi devidamente esclarecido o que houve. Ninguém tinha essa preocupação.

Uma chance que as crianças perdidas no fogo cruzado tinham era o debate da véspera, dia 23. Prometiam-se bombas, altas discussões, interação do público, algo tão amplo que deixasse tudo claro e permitisse aos eleitores escolherem com sensatez seu voto. Não teve. Quero dizer, teve, mas não da forma como gostaríamos. Foi tão morno, tão desgostoso, que parecia estar havendo ali qualquer outra coisa menos um debate. 

O "debate" contou com apresentações, alguns esclarecimentos, apresentações de propostas, perguntas entre eles, poucas farpas, sorteio de perguntas ambivalentes (tinham que valer para os dois) de servidores, estudantes e do Diretório Acadêmico e considerações finais, tudo entremeado por urros, deboche escancarado e gritos da plateia. Motivo de estarrecimento pelas mãos atadas na chance de fazer perguntas e de vergonha alheia por parte dos coleguinhas. A impressão que tenho agora é que a maioria já foi para o debate de cabeça feita, armados para apoiar seu candidato e contestar o outro. Foi tempo perdido.

A democracia ganhou, claro. Ninguém duvida. Fazer valer o que é da lei é incrível, digno de orgulho por ter visto, por ter participado. Porém não teve gosto bom. Os silêncios incomodaram tanto quanto os gritos. Não entendo de política, mas parecia haver um desajuste ali. Talvez pela imposição das chapas (professores designados não poderiam se candidatar), talvez pelas dúvidas em suspenso que ficam aí chutando cabeças no ar. Fato é que temos um diretor para ocupar o cargo durante esse ano de transição. No final de 2015, provavelmente, se Deus abençoar o concurso e os servidores efetivos, ocorrerá uma nova eleição para um mandato como manda o Regimento: 4 anos sem mais delongas.    

A eleição aconteceu nos dias 24 e 27 de abril para facilitar a vida dos servidores que moram fora e não vêm à UEMG num desses dias. O resultado foi enviado para BH na terça, 28, e a posse ocorreu ontem, 5 de maio, às 10h, segundo a página UEMG- Frutal.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Boletim - Eu gravo assim!

Desde a última quinta-feira, estou às voltas com o boletim. Não o de notas, que esse a gente vê, toma susto e morre no site. O televisivo. Aquele que o repórter aparece, ao vivo ou não, e informa qualquer coisa e termina ali. Sem mais imagens, sem mais nada.
Eu redigi o boletim uma semana antes com o Samba na cabeça. Nem o de Orly, nem o da Benção, nem o de uma nota só:
Samba é um felino fofinho que estava sob tutela de uma colega de turma até desaparecer. Crente que não demoraria a retornar ao lar, redigi meu texto pendendo para a piada.

"Samba foi encontrado!
O gato pingado estava em companhia do Zeca Pagodinho que negou o rapto.
Boletim não tem título. Tive que riscar.
Completamente bêbado. Assim foi encontrado o Samba na noite do dia 9. O estado era tão surpreendente quanto a companhia: Zeca Pagodinho.
Indagado sobre, Zeca negou o rapto, mas justificou a presença do gato pela afinidade musical existente entre eles que o impressionou. O estado foi justificado pela companhia. O cantor afirma ter servido apenas umas doses.
Uma, duas, três vezes e... nada.
Créditos: Geovanna Ferreira
A dona Publicitária, depois de ampla campanha em busca do felino perdido, teve sua ira amenizada pela oferta de participação no próximo disco - desde que leve o Samba, claro.
Jaqueline Ribeiro para o Jornal da UEMG."

Não apareceu.
Às vésperas da gravação, tratei de me emendar, redigi novo boletim, ainda pendendo para a piada porque é assim que o samba toca nesse morro.

"O Samba continua desaparecido. Desde o último dia 8, quando a dona Publicitária notou sua ausência, manifestações de apoio não pararam de ocorrer, dando espaço para boatos. Na mesma semana, testemunhas afirmaram ter encontrado em companhia do cantor Zeca Pagodinho um Samba semelhante, mas ficou comprovado mais tarde se tratar de um gato gaiato anônimo com parcos dons para a música e vastos para a manguaça.
Ninguém sabe até o momento o que aconteceu ao Samba. Pessoas próximas defendem que ele não sofria de maus tratos, ao contrário, era muito querido e mimado sendo por isso im-pen-sá-vel a ideia de que pudesse ter ido tocar noutras bandas.
Dona Jaque para o Jornal da UEMG."
Você não entendeu a piada? Pois é.

Fracassei uma, duas, todas as vezes que tentei - que foram muitas, grandes, exageradas, demais.
Quem disse que a piada saía? Não saiu. Orgulhosa que sou, culpo o joguinho de palavras para gerar a piada que quero, que não admite improviso (tem que ser assim!) e que me recuso a modificar. Eu sempre esquecia um dos trechos fundamentais e. Passei a noite de sexta-feira inteira nisso. Teimando.
Depois do feriado vêm as novas tentativas e para elas, por segurança, preparei novo boletim.

"Estudante do 3º período de Comunicação Social entrou para o livro dos recordes da UEMG após tentar 45286 vezes gravar um boletim jornalístico. A aluna, identificada apenas como M.D., estava desde a última quinta-feira tentando insistentemente gravar um boletim informando o estado das buscas do gato Samba quando soube da notícia. Chorosa, disse que não esperava por tal feito, que não estava dentre suas ambições, que seu sonho era ver aquilo terminado, que aquela provação era uma vingança por não ter querido gravar o texto dos dia das mães no ano passado, que. e foi gentilmente retirada do recinto porque estava comprovado que não sabia sambar."
E ainda não sei como assinar esse. Porque, sim, boletins precisam de assinatura.

domingo, 1 de março de 2015

Umbigo

Queria escrever em letras grandes o mundo. De modo a nunca se perder de vista e nem se querer isso de forma alguma. Daquelas coisas egoístas mesmo de ser ter dó. Ó, pobre criança. Não dá pé. Não vai ser assim. O mundo não precisa ser escrito. Não agora, não por mim. Vou insistir, claro, porque sim, mas já sabendo de antemão que vou desistir. Porque não dá pé. Porque não vai ser assim. Porque não é assim que a banda toca, nem é nessa rua que a banda passa.

Nem é esse de verdade o propósito. Mas, não, não, não, não pergunte para mim. Não sei. Quero escrever. Quero ouvir o tec-tec do teclado e as letrinhas aparecendo agora na tela colorida à frente. Porque branco não serve, tem que ser doutra cor. Agora, azul, amanhã, quando abrir o arquivo – se ele não for apagado, não sei. Nunca sei.

Amanhã tem aula. Disso eu sei. E só desse texto estar começando a ter gosto de crônica – ó, amanhã tem aula. De novo. Segundo ano. Uhul-, já me animo. Dá uma comichãozinha na mão: escrever, escrever, escrever até o volver da linha, até findarem as ideias. Ou vai emendando uma na outra feito cordinha, vai que dá, vai que preenche a falta que a palavra escrita faz. A falta que ela me faz.

Amanhã tem aula e repito para retomar a ideia de crônica. Amanhã tem aula. Amanhã tem o segundo ano de Comunicação Social. Amanhã tem aula e aula de verdade, não aquela Aula Magna fajuta. Amanhã tem prédios novos – será que tem? Amanhã tem professores novos. Amanhã tem curiosidade... Não, hoje já tem. E já tem vontade de me incluir em tudo quanto é tipo de projeto bacana e já tem um medão de tudo quanto é coisa igual que eu queria ver diferente e tanto coisa diferente que me assusta por ser desconhecida.

Amanhã. Amanhã à noite. Um quase depois de amanhã. Quase, quase uma outra vida. Uma outra vida que começa amanhã.

Ai, meu Deus!

Provas, trabalhos, reportagens, apresentação de trabalhos, gente, gente, gente, barulho, barulho, barulho, rotina, trabalhos, trabalhos, escrita, escrita, escrita compulsiva e/ou forçada. Um trabalho, uma resenha, um texto para o dia n. Não sai trabalho, não sai resenha. Texto? Nem sei o que é isso. Assim, de repente, nem sei como formar palavras, compor frases, criar texto. Assim, de repente. Que assustador é a pressão! E ainda nem chegou e já pressinto. Que horror, que horror, que horror.

É segundo ano. Vem tudo em dobro. Deve vir. Será que vem?

Devia ter escrito mais nas férias. É, devia. Devia ter lido mais teoria nas férias. É, devia. Devia ter treinando mais o inglês nas férias. Yes, I o que mesmo?

Das dívidas não quitadas, das promessas não cumpridas, da vontade de escrever o mundo e não fazê-lo, do medão pelas aulas – foda-se se o corretor acha que não existe medão, se não existe, o que tenho é o que? Cagaço?- é feito esse texto, minhas tripas e o resto. Menos o blog, claro, que esse é feito de Nossa, eu tenho um blog, né?.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Incômodos

Diante dum mundo grande, mas com estatura pequena, incômodo é ouvir o barulho incessante dos fogos na virada do ano - mais pelo barulho mesmo do que por pensar nos pobres animais de audição sensível.

Incômodo medíocre é verdade.

E era o que estava no rascunho para uma possível futura crônica esquecida de ano novo.
Outro incômodo, no entanto, tomou conta.

Charlie Hebdo.



Ainda que eu espalhe aos quatro ventos que faço, que quero, que pretendo, que gosto de jornalismo, é notável minha ignorância quanto aos grandes veículos e ao meio em si. Por exemplo, até ontem, o dia do atentado, nunca tinha ouvido falar nesse periódico - meu tão querido professor de Redação Jornalística, que acredita que jornalismo se aprende conhecendo os grandes jornalistas, deve estar lamentando o prenúncio de fracasso. Acontece, queridão.

E o incômodo pela ignorância se juntou ao incômodo pela violência, pelas mortes, pelas mortes de cartunistas e pela dúvida sobre o limite da sátira/liberdade de expressão e juntos fizeram uma gandaia no meu cérebro durante todo o dia de ontem.

Depois das notícias e atualizações nos principais portais, depois das notas de pesar e críticas e insultos ao terrorismo, queria ouvir uma discussão a respeito do ponto que, para mim, é de permanente dúvida e que já mencionei acima.
Não encontrei um convite à discussão aos moldes tradicionais de fórum.  Ao invés disso, numa rede social, o debate partia e se encerrava em uma crítica à fala do cartunista brasileiro Laerte [sobre o atentado, obviamente] que figurava entre outras comentários numa matéria da Folha.


Acusava-o de estar culpando as vítimas, de ser um militante obcecado e já ter sido um extraordinário cartunista. Ora, ainda na semana passada fiquei sem palavras com a charge certeira do Laerte sobre a fala da nova ministra da agricultura! Mesmo achando o pronunciamento desnorteado (não sei, sou a favor da liberdade de expressão; não conheço, mas sou a favor da liberdade de expressão), guardei a ofensa quase pessoal para expor minha eterna questão: tem limite? Ao dono da crítica, por acaso, o mesmo sensei que citei lá atrás, confessadamente radical nesse sentido, não há limites para a liberdade de expressão.  Ponto. O resto são ecos de antigas discussões, circulares, fechadinhas, limitadas. 

Sempre que posso deixo claro que: como quem-sabe futura jornalista, eu adoro o vasto mundo da imprensa que a liberdade de expressão permite. A possibilidade de ir até o infinito e voltar sem ter desvios ou barreiras é fabuloso! É uma arma essencial para o exercer pleno da profissão. É indiscutível. Mas como pessoa, cidadã, sentimentalóide, consumidora de jornal, telejornal e outros meios... Sempre esbarro aí. Quando fere o outro, ainda mais quando já se trata de um alvo comum, quando desrespeita, fico com o coração pesado e com cara de bunda: mas, poxa vida

Isso no jornalismo. 

Outro problema me surgiu quando pensei nas charges como sátira e só. Ainda que os relacionem, charge não é jornalismo (é?). E quando penso no objetivo da sátira, vejam só, não consigo encontrar limites. Diferente do jornalismo cuja preocupação é informar, da charge é unicamente satirizar e por conseguinte incomodar. Não é para ser agradável - e qualquer limite parece impossível. Aos meus olhos, é diferente e ainda maior que a piada. A piada, como vejo sendo feita, tem como objetivo diminuir o outro e frequentemente aquele que já é diminuído; a charge é crítica, é ácida, é debochada, [insira aqui infinitos adjetivos que denotem o quanto acho charge um negócio fantástico], é, precisa ser, inteligente. 

A diferença parece forçada? Estou 'perdoando' os mortos muito facilmente? Não acho que precisem do meu perdão (pobre de mim!). Quero crer que sabiam o que faziam (os riscos e etc) e se não se precaviam o suficiente é porque se entregaram de corpo e alma ao que gostavam... ou eram loucos mesmo (não sou artista, vou justificar de que outro jeito?).

No dia seguinte ao atentado, eis que me chamo Empatia.