domingo, 7 de junho de 2015

O que resta

Era sábado e o estabelecimento já estava aberto quando chegou. Estacionou o carro em frente e foi retirando caixas médias de lá. Uma, duas, três. Derrubou a quarta com a mesma calma com que se movia. Esfreguei os olhos para retirar a poeira de slow motion que embaçava tudo, mas reparei a tempo que ela cobria todo o mundo. Voltei a olhá-lo e calmamente também recolheu o conteúdo que não cheguei a distinguir da distância em que estava. Parei para olhar pela janela, vi a cabeça de formato engraçado, medi minha paciência e me pus a vigiá-lo. Simples. O que mais podia fazer? O que mais poderíamos fazer? Ele foi até à porta uma, duas vezes. Pensei que trataria de varrer a calçada também, como fazem as velhas senhoras, mas não o fez. Ansioso, esperava alguém. Àquela hora da manhã, naquele dia da semana? Traficantes acordam tão cedo?

Menos lento, um carro amarelo estacionou à pouca distância já acenando efusivamente. Festa? Desceram tantos que mal pude contar, Eram tantos braços, tantas pernas, tantas cabeças coloridas, se chocando, se cumprimentando, se abraçando, se beijando, se parabenizando. Era mesmo festa? Estes mal tinham entrado quando outros se puseram a chegar imediatamente. Meio onda, meio mar, que só chegava, que só se chocava, que só aumentava o burburinho em algazarra. Era mesmo festa. Só podia ser festa. Quem estava de gravata borboleta? Vi uma gravata borboleta, tenho certeza! Quem a usaria a essa hora da manhã? Um lunático, na certa! Lunáticos, na certa! Ou traficantes? Mafiosos, claro! Presenciei o encontro de mafiosos! Nessa cidadezinha!, logo ali na esquina! Nunca pensei que! Nunca imaginei que!

Afasto-me da janela ou ligo para a polícia? E se alguém já tiver me visto? Marcada pela máfia, que futuro terei? Flamenguista, jornalista e agora alvo de gente perigosa... que destino ingrato. Bem que minha mãe falou, santa mãezinha!, não vá ser gauche na vida! Mas teimei, fui seguir mineiro de versos reluzentes e me dei mal. Pensando bem, se já estou condenada que mal faz ficar à janela? O almoço logo vem, talvez o último, poderei manter o clima de O poderoso chefão e me consolar no pós-mortem em, se não cobri nenhuma guerra, presenciei, não, descobri! onde mafiosos se encontram, Praticamente um I am new Tim Lopes. Coisa de botar no currículo, de aparecer na TV. Se se tratar de relações internacionais, então? Estou feita! Perpetuada heroína!

Mas, olha, um pessoal está saindo. O que trazem nas mãos? Binóculo, cadê binóculo? Isso eles não ensinam na faculdade! Preciso de um binóculo! Estão folheando algo. Todos, sem exceção. Não, um guardou na bolsa. Certo. Será um manual de como armar bombas? Como implantar bombas? Como implantar, armar e sair correndo? Vão saindo aos pouquinhos, meio sem querer, meio querendo ir ficando, ficando. Despedaçam-se em abraços múltiplos, despedidas e sorrisos vários. Que mafiosos mais sentimentais! Don Corleone que me perdoe, vai ver eu precisava mesmo tê-lo terminado. Esses italianos!

De longe parece choro, de longe parece muita coisa. A folia de momentos atrás, quanto tempo?, vai diminuindo,diminuindo, vai desaguando na rua de novo. Como se eu tivesse rebobinado a fita como antes. Vão andando de costas, acenando, sorrindo, se cumprimentando ao contrário, como se o relógio mudasse o curso, rebelde, um anti-horário em prol das gentes com seus manuais de armar suposições. Minhas, no caso. Que horas seriam? Tão tarde, tão tarde. Mas, olha!, O homenzinho parece duas vezes maior agora quando fechas as portas, quando retorna ao carro. Onde estão as caixas? Aquelas médias, que caem lentamente, que carregam o homenzinho, onde estarão? Ele entra no carro pelas próprias pernas, aprendeu a andar sem caixas e as esquece.

Quando o carro já vai longe, no entanto, saem atrás e param na esquina numa espera aflitiva. Para mim, está claro. Esperam pela volta dos mafiosos, italianos, sentimentais, armadores de bombas (terroristas?). Condenada por passar tanto tempo na vigília, já me sinto parte do esquema, incluída pela curiosidade, essa menina sapeca que tem ligações com todos os maus elementos, então O que resta? Visto-me de mafiosa também, sem gravata borboleta, e vou descobrir o mundo a começar pela esquina de baixo, no conteúdos das caixas, no meio dos livros.