Diante dum mundo
grande, mas com estatura pequena, incômodo é ouvir o barulho incessante dos
fogos na virada do ano - mais pelo barulho mesmo do que por pensar nos pobres
animais de audição sensível.
Incômodo medíocre é
verdade.
E era o que estava
no rascunho para uma possível futura crônica esquecida de ano novo.
Outro incômodo, no
entanto, tomou conta.
Charlie Hebdo.
Ainda que eu
espalhe aos quatro ventos que faço, que quero, que pretendo, que gosto de
jornalismo, é notável minha ignorância quanto aos grandes veículos e ao meio em
si. Por exemplo, até ontem, o dia do atentado, nunca tinha ouvido falar nesse
periódico - meu tão querido professor de Redação Jornalística, que acredita que
jornalismo se aprende conhecendo os grandes jornalistas, deve estar lamentando
o prenúncio de fracasso. Acontece, queridão.
E o incômodo pela
ignorância se juntou ao incômodo pela violência, pelas mortes, pelas mortes de
cartunistas e pela dúvida sobre o limite da sátira/liberdade de expressão e
juntos fizeram uma gandaia no meu cérebro durante todo o dia de ontem.
Depois das notícias
e atualizações nos principais portais, depois das notas de pesar e críticas e
insultos ao terrorismo, queria ouvir uma discussão a respeito do ponto que,
para mim, é de permanente dúvida e que já mencionei acima.
Não encontrei um
convite à discussão aos moldes tradicionais de fórum. Ao invés disso, numa rede social, o debate
partia e se encerrava em uma crítica à fala do cartunista brasileiro Laerte
[sobre o atentado, obviamente] que figurava entre outras comentários numa matéria da Folha.
Acusava-o de estar culpando as vítimas, de ser um militante obcecado e já ter sido
um extraordinário cartunista. Ora, ainda na semana passada fiquei sem palavras com a
charge certeira do Laerte sobre a fala da nova ministra da agricultura! Mesmo achando o pronunciamento desnorteado (não sei, sou a favor da liberdade de expressão; não conheço, mas sou a favor da liberdade de expressão), guardei
a ofensa quase pessoal para expor minha eterna questão: tem limite? Ao dono da
crítica, por acaso, o mesmo sensei que citei lá atrás, confessadamente radical nesse sentido, não há limites
para a liberdade de expressão. Ponto. O resto são ecos de antigas discussões, circulares, fechadinhas, limitadas.
Sempre que posso deixo claro que: como quem-sabe futura jornalista, eu adoro o vasto mundo da imprensa que a liberdade de expressão permite. A possibilidade de ir até o infinito e voltar sem ter desvios ou barreiras é fabuloso! É uma arma essencial para o exercer pleno da profissão. É indiscutível. Mas como pessoa, cidadã, sentimentalóide, consumidora de jornal, telejornal e outros meios... Sempre esbarro aí. Quando fere o outro, ainda mais quando já se trata de um alvo comum, quando desrespeita, fico com o coração pesado e com cara de bunda: mas, poxa vida.
Isso no jornalismo.
Outro problema me surgiu quando pensei nas charges como sátira e só. Ainda que os relacionem, charge não é jornalismo (é?). E quando penso no objetivo da sátira, vejam só, não consigo encontrar limites. Diferente do jornalismo cuja preocupação é informar, da charge é unicamente satirizar e por conseguinte incomodar. Não é para ser agradável - e qualquer limite parece impossível. Aos meus olhos, é diferente e ainda maior que a piada. A piada, como vejo sendo feita, tem como objetivo diminuir o outro e frequentemente aquele que já é diminuído; a charge é crítica, é ácida, é debochada, [insira aqui infinitos adjetivos que denotem o quanto acho charge um negócio fantástico], é, precisa ser, inteligente.
A diferença parece forçada? Estou 'perdoando' os mortos muito facilmente? Não acho que precisem do meu perdão (pobre de mim!). Quero crer que sabiam o que faziam (os riscos e etc) e se não se precaviam o suficiente é porque se entregaram de corpo e alma ao que gostavam... ou eram loucos mesmo (não sou artista, vou justificar de que outro jeito?).
No dia seguinte ao atentado, eis que me chamo Empatia.
