Ler
Chatô é passear em grande estilo pela primeira metade do século XX do Brasil.
Em papel couchê e farto de fotografias várias, o calhamaço de mais de 700
páginas pesa, incomoda, impressiona, mas nada se comparado à vida do homem, do nordestino, brasileiro,
jornalista Assis Chateaubriand.
Fernando Morais nos apresenta o mais humano dos homens. Aquele que ajudou gentes,
pensou no futuro fazendo o presente do país, construiu um império e, ao mesmo
tempo, preocupou-se infinitamente consigo próprio, foi antiético e implacável
com inimigos que lhe apareceram à frente ou tratou de inventar.
Porque como inventou o sr. Chatô, como manipulou o sr. Chatô. Se quiser ter opinião, que compre um jornal.
Comprou 40. Depois de escrever para os outros, passou a viver com papel e lápis
para compor artigos diários para os seus próprios. Como escrevia o sr. Chatô, como
difamava o sr. Chatô. E se contradizia, e virava casaca. Foi germanófilo,
aliadófilo, mas acima de tudo capitalistíssimo! Entendeu a importância da
publicidade nos jornais antes de todo mundo e fez dinheiro e fez dívidas todas.
Como fez dívidas o sr. Chatô, como fez alavancas o sr. Chatô.
Encontrou e manteve durante toda a vida gente que o ajudasse em suas loucuras e
desvarios.
O
Cidadão Kane sul-americano. Logo na orelha (durante o livro nos deparamos
outras muitas vezes com essa expressão) já nos são apontadas as semelhanças e
desfeitos os enganos: Charlie é só um criançola saudoso de seu rosebud perto de
um Chatô enorme e desbravador.
E tamanha
vida dá ares de novela ao livro quando então a relação com o homem se dá em “Vai, Chatô!”, “Não, Chatô!”, “Pra que isso,
Chatô?!” e semelhantes. As páginas vão virando, as décadas vão passando,
pegamos em armas, depomos as armas, pintamos o rosto, tiramos a maquiagem e
quando, enfim, pensamos que Chatô é um chato, a história dá aquela guinada e
continuamos aferrados à espera do desenrolar dos fatos. Agora ele vai se dar mal, quer ver? Não dá e quando dá pensamos que
há um senhor vácuo ainda a ser preenchido porque do final já temos conhecimento
do inevitável.
Quando se
fecha o livro e então se quieta, pensa-se nos números impressionantes, nas tramas
em que esteve metido, no cenário brasileiro-mundial da época, parece lógico que
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo não poderia ter existido
noutro período. O dinheiro concentrado nas mãos de alguns e ao seu dispor, os
primeiros passos de novos meios de comunicação, período turbulento na política,
o que mais era preciso para construir um império? O talento desse homem
arretado.
Todas
as críticas entendidas já foram feitas. Todas as recomendações (leia esse
livro! Leia esse livro!) já foram dadas. Afinal, o livro já completou 20 anos,
mas contidos os aplausos, faltavam meus espantos: que história, que vida, que
homem.
Após duas décadas também, em maio, tivemos o primeiro trailer do filme homônimo de
Guilherme Fontes com Marco Ricca interpretando Chatô. http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-113380/
