sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cidadão Chatô



Ler Chatô é passear em grande estilo pela primeira metade do século XX do Brasil. Em papel couchê e farto de fotografias várias, o calhamaço de mais de 700 páginas pesa, incomoda, impressiona, mas nada se comparado à vida do homem, do nordestino, brasileiro, jornalista Assis Chateaubriand.

Fernando Morais nos apresenta o mais humano dos homens. Aquele que ajudou gentes, pensou no futuro fazendo o presente do país, construiu um império e, ao mesmo tempo, preocupou-se infinitamente consigo próprio, foi antiético e implacável com inimigos que lhe apareceram à frente ou tratou de inventar.

Porque como inventou o sr. Chatô, como manipulou o sr. Chatô. Se quiser ter opinião, que compre um jornal. Comprou 40. Depois de escrever para os outros, passou a viver com papel e lápis para compor artigos diários para os seus próprios. Como escrevia o sr. Chatô, como difamava o sr. Chatô. E se contradizia, e virava casaca. Foi germanófilo, aliadófilo, mas acima de tudo capitalistíssimo! Entendeu a importância da publicidade nos jornais antes de todo mundo e fez dinheiro e fez dívidas todas. Como fez dívidas o sr. Chatô, como fez alavancas o sr. Chatô. Encontrou e manteve durante toda a vida gente que o ajudasse em suas loucuras e desvarios.

O Cidadão Kane sul-americano. Logo na orelha (durante o livro nos deparamos outras muitas vezes com essa expressão) já nos são apontadas as semelhanças e desfeitos os enganos: Charlie é só um criançola saudoso de seu rosebud perto de um Chatô enorme e desbravador.

E tamanha vida dá ares de novela ao livro quando então a relação com o homem se dá em “Vai, Chatô!”, “Não, Chatô!”, “Pra que isso, Chatô?!” e semelhantes. As páginas vão virando, as décadas vão passando, pegamos em armas, depomos as armas, pintamos o rosto, tiramos a maquiagem e quando, enfim, pensamos que Chatô é um chato, a história dá aquela guinada e continuamos aferrados à espera do desenrolar dos fatos. Agora ele vai se dar mal, quer ver? Não dá e quando dá pensamos que há um senhor vácuo ainda a ser preenchido porque do final já temos conhecimento do inevitável.

Quando se fecha o livro e então se quieta, pensa-se nos números impressionantes, nas tramas em que esteve metido, no cenário brasileiro-mundial da época, parece lógico que Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo não poderia ter existido noutro período. O dinheiro concentrado nas mãos de alguns e ao seu dispor, os primeiros passos de novos meios de comunicação, período turbulento na política, o que mais era preciso para construir um império? O talento desse homem arretado.

Todas as críticas entendidas já foram feitas. Todas as recomendações (leia esse livro! Leia esse livro!) já foram dadas. Afinal, o livro já completou 20 anos, mas contidos os aplausos, faltavam meus espantos: que história, que vida, que homem. 
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Após duas décadas também, em maio, tivemos o primeiro trailer do filme homônimo de Guilherme Fontes com Marco Ricca interpretando Chatô. http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-113380/