sábado, 25 de junho de 2016

De sapato a Salto alto: o Intercom Sudeste é aqui!

Imagem de divulgação do evento no Facebook

Do que vem antes do começo:

Eu não sabia, mas quem quer que repare no Portal Intercom acaba encontrando na aba A Intercom , dã, do que se trata. Quando nos perguntam, e como perguntaram!, o que é o evento dizemos simplesmente: ah, é um congresso de Comunicação. Se estamos prolixos, emendamos: cada região organiza o seu e os melhores trabalhos apresentam no congresso nacional. Se nos pegaram numa hora realmente boa, acrescentamos: esse ano o congresso nacional será em São Paulo :). Não é só um congresso, é uma instituição de quase 40 anos - a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação. Você descobre o que é e, de cara, sana a dúvida quanto a concordância: se diz A Intercom ou O Intercom? Depende. Ao que parece, se estou falando do congresso da Intercom, digo o Intercom, já se eu estiver falando da instituição...

O começo:

Imagem de divulgação no site
(ainda que não conste a região, esse é o prédio da CEUNSP,
logo Intercom Sudeste)
Depois de ter acesso ao congresso pertinho de casa (a edição 2015 aconteceu em Uberlândia -MG), Salto passou a existir quando não seguido pela explicação "é depois de Campinas", "perto de São Paulo", o que quer dizer em língua mineira que é muito longe, longe demais, longo pra caramba, nem-dá-para-ir.

Fomos. A bailarina-secretária-jornalista Monielly Barbosa e eu. Fazendo escalas pelas cidades, matando tempo em rodoviárias até chegar ao destino. Para onde vocês vão? Para Salto. Que Salto? Porque há isso também. Há vários Salto. Fora as piadinhas com sapato de salto, chinelo, tênis, numa busca rápida no Google, encontro facilmente nada menos que 8 cidades com esse nome: Salto da Divisa (Minas Gerais), Salto de Itu (São Paulo), Salto Grande (São Paulo), Salto do céu (Mato Grosso), Salto Veloso (Santa Catarina), Salto (Uruguai) e Salto del Guaíra (Paraguai). Desconhecendo todas essas cidades (Nina diz que adora viajar, mas mal saiu do seu estado, a pobre) e já tendo lido o mapa, a resposta incerta é: Salto de Itu, que não é de Itu, mas como fica coladinho, deve ser esse mesmo. E é.

Salto - SP:

A bailarina-secretária-jornalista-fotógrafa-mor Monielly, eu
e a Ponte Estaiada/Mirante ao fundo.
Salto de Itu, que-não-é-de-Itu, é uma estância turística. Completava 318 anos quando chegamos brindados com a inauguração da Ponte Estaiada (o mirante) e a reforma da praça Archimedes Lammoglia.

Cidade desconhecida, dinheiro pouco (olha a crise! É mentir... ops), precisamos de um hotel próximo e relativamente barato. Achamos o Hotel Rio Branco na mesma rua (pros meus critérios, qualquer coisa na mesma rua é perto, seja um, dois ou cinco quadras como é o caso), rachamos as despesas e fizemos a reserva (50% antecipados, 50% depois. Você paga primeiro e eu depois? Ok. Ok). 

A diária só começava ao meio-dia, mas, como chegamos cedo, permitiram que deixássemos as malas no hotel. Havia credenciamento por fazer e palestra logo cedo. No entanto, achamos o Tietê no meio do caminho. Nos dirigíamos ao prédio do CEUNSP, onde seria sediado o Intercom, quando ouvimos o barulho inconfundível da correnteza do rio. Somos mineiras, estamos acostumadas a rios grandes (ba dun tss), mas o Tietê naquele ponto dava a certeza de que qualquer coisa viva que caísse ali dentro desapareceria. Até a palavra. Gritasse RIO TIET- e antes que se completasse o grito já teria sumido. E era tão próximo, tão impressionante que acabamos visitando aquele ponto muitas vezes, mais de uma vez ao dia. Para fotos e para embasbacamentos. Da minha parte, principalmente.

O Intercom:

Uma parte do prédio da CEUNSP 
 De costas para o rio, o prédio da CEUNSP é monstruoso... e misterioso. Acabamos por não descobrir o que era antes. Colégio de padres? Parece. Enorme. Com ladeira de paralelepípedo ou coisa parecida. Com janelões azuis enormes. Com tijolos a vista. Com canos vermelhos que me lembravam estações de trem inglesas - não faz sentido. E gatos (na UEMG, temos cães). E banca de livros usados e banca de livros da Unesp. E lanchonete. Tudo junto numa área coberta enorme com mesas e cadeiras de plástico vermelho. 

Os blocos têm, pelo menos, dois andares. Sem elevador. As escadas parecem maiores, os lustres são redondos e as salas são realmente muito grandes. E geladas. Não duvido que num dia mais frio tenha nevado nas salas do bloco C.

Tanto a oficina em que inscrevi (sobre Jornalismo Literário. Uma única oficina para três dias de evento. Um absurdo!) quanto as palestras assistidas (sobre a importância de João Batista de Andrade no documentário e Ilustração Publicitária) aconteceram todas nesse bloco. As não assistidas também - não porque não fui, mas porque a palestrante não pôde comparecer.

Andança:

Três dias de evento, mas só dois com atividades. Distância muita, cansaço também. Viajar à noite é chato e perigoso e um bailarino fantástico vai estar em Fronteira na tarde de domingo! Vamos embora no domingo! Mas antes...

Vista panorâmica da praça Archimedes Lammoglia, centro de Salto
O primeiro dia se passou todo no vai-e-vem da rua José Galvão. De hotel até CEUNSP e arredores, de arredores de CEUNSP até hotel. Não que fosse pouco. A cidade é pequena e tudo o de relevante tanto do ponto de vista funcional quanto turístico se amontoa ali no centro: padaria, restaurante, pizzaria, farmácia, supermercado, as praças, o museu, a igreja... A ponte estaiada. 

Mapa turístico da cidade de Salto
Ainda não consta no mapa turístico, mas a ponte estaiada/mirante já é um dos pontos turísticos mais visitados da cidade, um dos primeiros pontos turísticos que visitamos, mas antes veio o museu.

Cobiço museus desde antes de me interessar por História com H maiúsculo e já cobiçava esse museu antes de entrar, antes de saber o que tinha, antes mesmo de escolher hotel. O hotel fica próximo do museu. Ma-ra-vi-lha! 

Mais até do que bem organizado, o museu saltense é recheadinho de história. Bom, são 318 anos, não é? Não há um lugar certo por onde começar a visita e bate um desespero tentar ler e ver tudo - ainda que eu tenha a impressão que a ordem é cronológica e horária. À direita, há salas e mais salas. Além de textos diretamente na parede, contei dois computadores. Imagino que como todo museu moderno, inseriram o digital para deixar mais atrativo ao público e permitir algum tipo de interação, os objetos, no entanto, seguem sendo o centro das atenções: máquina de tecelagem, cofre, caixa registradora, carteiras escolares, piano e uma disputadíssima banheira:


 Algumas quadras de casas antigas depois e você só não vê o mirante se fechar os olhos. Escolhemos o caminho mais longo por absolutamente nenhum motivo específico. Cruzamos a ponte para, logo depois, caminhar muitos metros de volta até o prédio de paredes espelhadas. Da ponte, podemos ver Nossa Senhora de Monte Serrat. Diferente do mapa acima, a estátua fica bem mais distante. Ao contornarmos o mirante, achamos a porta e uma fila. Havia uma fila! E conforme fomos esperando mais pessoas foram se juntando, todas ansiosas para ver sua casa de cima. A moça graduada em Turismo que cuidava da subida dos visitantes esclareceu sobre o aviso que proibia expressamente a subida pelas escadas. Só pelo elevador. E se a pessoa for claustrofóbica? perguntei. Não sobe. Para outra pessoa, explicou melhor: haviam tido problema com crianças. Segundo ela, o mirante demorou de 3, 4 anos para ser construído e há o projeto de teleférico ainda para ser viabilizado. Diferente de um taxista que empolgado diz que já está 90% concluído, a monitora de turismo diz que só na gestão de outro prefeito como se fosse algo distante a se perder de vista.


Curiosidade sobre a estátua de Nossa Senhora de Monte Serrat. Crédito: Monielly Barbosa

O próximo passo, parada (ou salto, ba dum tss) foi o Parque Rocha Moutonneé. Empolgadas com a possibilidade de ver os amigos dinos, como diz a Moni, andamos cerca de 20 min por uma estrada sem acostamento e irregular para encontrarmos o parque sem guia turístico. Havia um aviso para assinarmos o livro de visitas que não estava lá. E havia vários outros turistas zanzando. Sem guia turístico. O parque estava aberto, em pleno funcionamento, sem um maldito guia turístico que pudesse dar uma informaçãozinha complementar para as jornalistinhas tentando exercer a função. Gravamos boletins (Segurei a câmera, no caso. Muito bem, aliás) ou coisa parecida. Queria um guia turístico.

Monielly e 'migo dino'
Há mesmo estátuas de dinossauro lá. Dois robóticos que fazem barulho e mexem o pescoço e as patas dianteiras. O tiranossauro rex, pelo menos. Moça, moça, o sauro está com pescoço cortado, disse uma pequerrucha encantada pelo sauro. E nem era a primeira vez dela lá, diz a mãe. Eram mesmo monstrões fantásticos. Há um lago - em referência ao início da vida, segundo a Moni. E há a pedra que por ter formas parecidas com o de um carneiro dá nome ao parque. É um lugar bem grande, mas eu esperava outro

Peirópolis com fósseis expostos para vermos, uma apresentação da área onde foram encontrados, essas coisas. Sem guia, sem fósseis, sem informação.

A volta foi mais demorada. As voltas. Quando voltamos para casa no domingo, a 1h entre Salto e Campinas pareceu grande e as 5h (é isso?) entre Campinas e Rio Preto pareciam não ter mais fim. É lei? Toda volta demora mais? É para irmos nos desligando, abandonando devagarinho? Não sei se funciona, não, hein.

Sobre a cidade:

O tamanho diminuto da cidade vem desde sua fundação. Era uma fazendola quando nasceu, um sítio, pertencente ao sobrinho do bandeirante Raposo Tavares no município de Itu. Por conveniência, Antônio Vieira Tavares pediu permissão ao bispo para que se construísse uma igreja em suas terras. Com a doação das terras em testamento em 1700, Salto passou a ter como data de fundação a da benção e da primeira celebração de missa na Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat em 16 de junho de 1698.

A praça da igreja leva o nome de seu fundador. Em mais de um lugar, há referências aos que construíram a cidade. Na dita praça, o marco zero tem as estátuas de um trabalhador, um padre, um bandeirante, uma mulher em pé e outra ajoelhada, mas a placa não parece se referir às estátuas - é um agradecimento ao Antônio Vieira Tavares. Seria ele o bandeirante? Não faço ideia.

Em azulejo, atrás do CEUNSP, estão pintados, dessa vez mais nitidamente, os homens que construíram a cidade. Os homens. Sem mulheres dessa vez.

Os homens que construíram a cidade, eu e mais janelas azuis 

Uma semana após a visita e recuperada do cansaço da viagem, ainda não superei o fato de Salto, uma cidade turística, não ter tirolesa. Na minha cabeça, fazia todo sentido Salto → saltar → tirolesa. Não tem. Se tem, não vi. E se tem e não vi, ficarei profundamente ressentida com Salto (optando sempre pelo chinelo).

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Entrei na arquibancada errada ou Mamãe, eu fui golpista!

Imagem do Google - Qualquer semelhança pode ou não ser mera coincidência

Sou flamenguista desde o último campeonato brasileiro em que o meu time ganhou. Um pouquinho antes, para ser mais precisa. Resolvi dar mais atenção ao futebol, o Flamengo estava fazendo uma boa campanha, fiquei encantada, resolvi torcer e ganhou. Nunca tive muita sorte com esse tipo de jogo, tanto que os títulos posteriores são escassos e nem me interessa tanto assim - meu time jogou ontem? Empatou com o São Paulo? Que maravilha. Tenho um time, torço por ele quando está em campo e se restringe a isso minha posição clubista.

Caso é que: criaram um Fla x Flu na UEMG. 

Print de email recebido e divulgado  pela página Movimento
Estudantil Unificado
informando a mudança da data
Ainda que a reunião dos docentes com a SECTES tenha sido adiada do dia 9 para o dia 13, a assembleia dos alunos não teve a data alterada: aconteceu mesmo na última quarta-feira, 15, às 19h30.  

Com um público visivelmente menor, mas mais sincronizado, engajado na sua "própria" luta, a assembleia ocorreu num clima de absoluta tensão. Já prevíamos que as notícias não eram boas. Os repasses foram desanimadores: nenhum avanço na reunião recém-ocorrida. Não que fosse absolutamente novo. Desde antes de iniciarem a greve já sabiam que não havia proposta sequer de negociação por parte do governo. Continua sem ter. Segundo a professora Eliana Panarelli, responsável nestas assembleias por ser porta-voz e fazer os repasses do que ocorre nas reuniões de docentes, a cada proposta só recebiam não, não e não. No entanto, optaram por luta que segue. Os membros da mesa frisaram, em mais de uma oportunidade, que independente da decisão que se teria ali, os professores seguiriam com a greve. Esclareceram que, ainda que algumas requisições dos alunos já estivessem encaminhadas, precisam da assinatura, do documento para poder chamar de seu, cantar vitória. O tom foi sempre sóbrio e não continha tanto otimismo - nem da parte deles, nem da do corpo da assembleia que reagia histérica às falas de um ou outro grupo.

Dessa vez, quem mais vezes tomou o microfone foi o grupo intitulado Pró-aula. Não se pode afirmar que todos os que tomaram o microfone pedindo a volta imediata das aulas, chorando as pitangas e a formatura sejam parte desse grupo, mas certamente compartilham das mesmas ideias. O grupo em questão orquestrou uma reação. Saíram subitamente e em massa do anfiteatro e voltaram após alguns minutos como se nada tivesse acontecido. Quando puderam, repetiram os argumentos de sempre ao microfone e replicaram e insistiram até que o maestro (que faz as vezes de mediador) pedisse que parassem, que já estava bom.

Não estava. Ainda que fosse impossível dizer qual tinha mais aderentes enquanto misturados, ao serem separados, os pró-aula à direita de quem entra, os pró-greve à esquerda e os professores ocupando a fileira do meio, ficou nítido que os grevistas representavam a maioria ali. 104 a 88. Entre a contagem para confirmação e os gritos de NÃO VAI TER GOLPE foi um pulo. O nosso Fla x Flu.

Criaram um post antes, mas só responderam a essa imagem.
Uma imagem rende mais 'tretas' que mil palavras,
Assim como as torcidas quando não brigam no estádio, se enfrentam na rua, o assunto foi levado para as redes sociais, para o grupo dos Bixos. Quem participou da assembleia sabia que aquela definição sobre o que é golpe não era por acaso. Nova discussão, os mesmo desentendimentos.

Ainda na assembleia, marcaram uma reunião com a professora Andreia para a noite do dia seguinte,16, para que ela explicasse melhor a questão referente à reposição de aulas e, na sexta, para que os membros do Pró-aula trouxessem suas ideias de como lutar sem precisar recorrer à greve (uma dos argumentos do grupo é de que pode-se muito bem continuar a luta estando em aula). Segundo um membro da comissão de greve, 15 pessoas compareceram. Alguns sequer tinham ideia das atividades que ocorriam na ocupação e as ideias que trouxeram, diz, já haviam sido pensadas, debatidas e descartadas - ir nas escolas, por exemplo, buscar apoio da cidade.

Uma reunião entre os professores da UEMG unidade Frutal ocorreu agora à tarde e decidiu pela continuidade da greve. Nova reunião com os 'representantes' do governo deve acontecer no dia 23, quinta-feira, e no dia seguinte, assembleia dos estudantes.  

terça-feira, 7 de junho de 2016

La strada - e não tem nada a ver com o filme do Fellini

Desde o início das aulas temos tido problemas com a estrada de acesso à UEMG. Há dois meses* a estrada antes de terra começou a ser asfaltada e com isso criaram uma estrada paralela para se chegar à universidade. De uns dias pra cá, ela parece pronta, ainda que mantenha a divisória, mas poucos são os que ousam se aventurar. A estrada paralela, cheia de buracos, curvas e lama, parece mais confiável que a nova e é a escolhida pelos mineiros cautelosos e já conhecedores de onde o carro resvala no chão.

(A possibilidade dos mineiros serem pessoas radicais que gostam de rally não pode ser descartada, contudo. Nunca se sabe o que se passa na cabeça de povo movido a pão de queijo e café.)

Na segunda-feira, 6, houve a que chamam III Assembleia Unificada, mas há dúvidas de que tenha sido a terceira mesmo e a única união vista foi a dos pró-grevistas presentes – desde o início da reunião eles parecem ter representado a maioria. Havia, claro, uma parcela relevante dos contrários à greve presente, no entanto, em muito inferior ao número que, fora dali, expressa seu ressentimento quanto à ocupação e à falta de aulas.

Uma reunião de docentes à tarde deu o tom da assembleia noturna: independente do resultado, a greve dos professores continua. Divulgada essa decisão, muitos trataram com indiferença a necessidade da presença de nova assembleia, “não vai adiantar de nada mesmo”.

A assembleia começou com atraso. À hora marcada, das mais de 300 cadeiras que compõem o anfiteatro, apenas 80 estavam ocupadas. O atraso tornou impensável posteriormente a sugestão de uma aluna de alongar para 5 minutos o tempo dado aos alunos inscritos para expressarem sua opinião – alunos e um professor dos menos de dez presentes*.

A explicação da professora Eliana Panarelli sobre a reunião ocorrida, a atual situação dos profissionais e a necessidade de continuidade iniciou os trabalhos. A mesa, composta por 5 membros, ocupou a maior parte do tempo com explanações e repasses de informação. Apresentaram um vídeo institucional sobre a greve, um vídeo da presidente do Diretório Acadêmico e abraços a dois servidores públicos que estreitaram laços com os alunos nesse mês de ocupação.

A ideia de que seria muito pouco estratégico terminar a greve antes da reunião que ocorrerá na quinta-feira, 9, e que pode decidir a situação dos professores foi amplamente adotada. Até mesmo os que desejam o fim da greve, se renderam a esse argumento, “mais uma semana, que diferença vai fazer?”. As horas seguintes se passaram em rusgas, pazes e repetição de argumentos: quero ter aulas vs todo mundo quer ter aula, mas.

A UEMG nunca enfrentou tamanha greve, na verdade, greve de tamanho nenhum. A greve é a estrada nova, que está sendo asfaltada e que alguns estão cruzando entusiasmados com camisetas combinando enquanto outros temem o que virá pela frente e preferem a velha lamacenta, certa, e cheia de buracos.

Uma nova assembleia foi aprovada por aclamação para o dia 15 de junho. 

sábado, 4 de junho de 2016

Formas de se escrever uma história

A sinopse diz:
'Formas de voltar para casa' narra as memórias - ouvidas e vivenciadas - de um homem cuja infância se passou durante a ditadura de Augusto Pinochet, no Chile. A narrativa se desdobra em dois momentos - o passado - começo dos anos 80 -, que o protagonista tenta recuperar para, então, finalizar um livro que ele está escrevendo no presente. Na busca por entender acontecimentos nebulosos, ele percorre um melancólico e dolorido caminho de volta na tentativa de escrever a própria história.
Mas se você também não costuma ler sinopses, o livro começa com Personagens secundários e um menino narrando um dia de terremoto e como conheceu uma garota mais velha e ficou encantado por ela. Nada especial, mas os capítulos curtos fazem a leitura mais rápida e temos a impressão de que a história segue assim também quando:  era uma história do novo livro que o homem está escrevendo. E que ele afirma para a irmã que não a citava para protegê-la, que era ficção. E quer que a ex-esposa, com quem está tentando reatar, leia, dê palpites, opine. A sinopse é delimita e esclarece mais que todo o livro. Sabemos que há um entrecruzar da ficção com a realidade, sabemos -ele cita- a ditadura do Pinochet, mas que são memórias, assim, me-mó-ri-as, um livro de memórias, não fica claro, não.

A partir do momento que vamos entendendo quem é Claudia e deduzindo ninharias do enredo, a única certeza que fica mesmo é que ditadura é ruim igual em todo lugar. Não sei vocês, mas o que sei do Pinochet se resume a dois filmes (The house of spirits (1993) e No (2012)) e a célebre frase que o professor de Redação Publicitária adotava para definir seu modo de ensinar: "De Piaget a Pinochet". Drástico, não? No entanto, perseguição política, ativismo político, gente lutando, gente morrendo, gente se mantendo neutro, gente lamentando quem se mantém neutro ou alheio ao que se passa tem em todo governo ditatorial. Não houve a mesma coisa por aqui? O que deve diferir mesmo é a quantidade e a brutalidade. Lamentável em qualquer parte.

De resto, não é uma escrita que me toque. Não me tocou. Não houve decepção, não sei o que esperava ao iniciar a leitura, mas de qualquer forma não deixou nada comigo. Soou fria, sem surpresas ou encantos.Acompanhei a história do menino, a do escritor, seus problemas, fui simpática à história de Claudia, à de quem luta e de quem se omite, mas aquela qualquer coisinha que incomoda, que perturba, que toca... não houve. Talvez porque seja minha primeira experiência com o Zambra. Talvez. Foi o 3º livro dele por aqui. Haverá outras oportunidades, outras formas de tecer empatia, escrever uma história.