sábado, 13 de fevereiro de 2016

A arte de contar histórias em Big Fish (2003) e O voo da guará vermelha (2005)

“Entrou por uma porta e saiu por outra, quem quiser que conte outra” é um clássico bordão dos contadores de histórias com variáveis e, provavelmente, mais presente na memória de leitores de Tatiana Belinky e dos telespectadores da TV Cultura.

Este trecho é parte de um fecho comum de história contada que mais convida que desafia outrem a continuar. Como uma roda, uma ciranda, uma corda (?) feita toda dessa matéria. Como trovadores e repentistas. Muitas obras trazem contadores de histórias em seus enredos - numa varredura mental impossível não lembrar de Chicó em O auto da compadecida interpretado pelo Selton Mello- mas quase nunca coincidem de aparecer fortuitamente ao mesmo tempo em duas mídias diferentes.

Conhecido por seus personagens excêntricos e pela parceria com Johnny Depp, Tim Burton surpreendeu com uma história o-mais-próxima-do-"comum"-que-ele-consegue, Big Fish (2003). Claro, o excêntrico ainda aparece aqui, mas trabalhado de forma diversa. As histórias fantásticas de Edward Bloom, mistas de ficção e realidade, são o eixo do filme: ao mesmo tempo em que apresentam o personagem, reforçam a divergência e o distanciamento com seu filho William Bloom, um jornalista cético e apaixonado pela verdade.

Em O voo da guará vermelha (2005) da Maria Valéria Rezende, ganhadora do Jabuti em 2015, vemos o estreitar da relação entre o faz-tudo Rosálio da Conceição e a prostituta Irene através da literatura. Ele, em busca de aprender a ler/escrever e desvendar o mundo das palavras, vai contando sua saga e os personagens que encontrou pelo caminho até chegar ali e ela, à procura de um pouquinho mais de vida, compartilha com ele o que sabe renovando as esperanças quanto ao presente.

Ambos protagonistas, Ed e Rosálio, têm uma relação intrínseca, carnal, com o contar histórias. Ao mesmo tempo que diverte, melhora a realidade (em Big Fish, o médico conta a Will o modo como realmente nasceu – sem o brilho que o pai colocava ao repeti-lo infinitas vezes); ao mesmo tempo que conforta (entre outros casos, a prostituta amiga de Irene é consolada por uma história inventada de Rosálio), dá o pão.

Os co-protagonistas, Will e Irene, no entanto, já são mais distantes. Todos contam histórias, Will é jornalista e conta histórias, é sua profissão; Irene se fantasia em cores todos os dias para vender o corpo e lê para o Rosálio, mas é a realidade que fala mais alto - o que não os impede de, à certa altura, serem arrastados pela onda narrativa do pai de um e do amado-amigo-parceiro de outro.   

Nas duas obras, a realidade se cruza, se confunde, se metamorfoseia em ficção. Em Big Fish, como já foi dito, Edward usava o fantástico para melhorar suas histórias, mas dada a dimensão do mundo faz-se bem em não duvidar que coisas inacreditáveis acontecem todos os dias e que, quem sabe?, este fosse realmente um personagem sortudo. Mesmo em O voo da guará vermelha, mais "pé no chão", mais crua ao mostrar a vida (dura) de Rosálio, temos a ficção 'eufemismando' a realidade seja nas invenções do protagonista, seja na(s) metáfora(s) da autora.