Ela está preocupada TCC. Acha que não vai dar tempo, ainda que falte 1 semana. O trabalho de conclusão de curso é uma fase difícil e para uma virginiana perfeccionista parece ainda pior: não vai dar tempo, não vai dar tempo, não vai dar tempo. E até passar e ver que, ó, deu tudo certo, é um sufoco e flerta ainda que momentaneamente com a vontade de desistir. Porém, e não é spoiler para ninguém: sabemos que não vai.
Carla Elvídia Alves Rezende nasceu no Pará em 1996, morou a vida toda em Confresa (Con-fre-sa) no Mato Grosso até vir terminar o ensino médio em Frutal para cursar Jornalismo, seu objetivo-mor desde que veio passar as férias por aqui e soube que a UEMG tinha o curso. Até então pensava em ser atriz, mas a timidez não permitiu.
Com pais separados, voar para longe do ninho materno ainda jovem representou um amadurecimento precoce e uma criação de receios: e se eu tiver aproveitado pouco a companhia da minha mãe? E se eu me arrepender depois? A virginiana tem qualquer coisa em câncer no seu apego ao lar.
Na última semana, às vésperas de ser contratada efetivamente pela rádio em que estagia há meses recebeu um áudio da mãe, dona Osmarina colhedora de pequi: mamãe ficou triste que você não vai voltar, mamãe queria que você viesse trabalhar na TV daqui. O coração bambeou. Naquela noite, segundo conta o namorado, Carla chamou pela mãe durante o sono.
Com alguma antecedência, alguns meses e várias parcelas, Carla adquiriu seu anel de formatura com a pedra do curso, vermelha, uma rubi. Embutida num anel quase masculino, mas bonito, é o que às vezes dá força para continuar seu trabalho por mais difícil e cansativo que seja. No início da semana da banca, Carla está abatida e não acredita que vai dar certo. Perguntam a data da banca e ela desvia do assunto, quando aponto a resposta escrita no mural improvisado e falo em voz alta, sou fuzilada: se não der certo, ela não quer testemunhas. Mas, ah, o anel, tem o anel.
Todos, absolutamente todos, apontam a persistência como uma das principais características de Carla. E a descrição geralmente vem acompanhada de garra, força, companheirismo, determinação. É assim que Monielly Barbosa, sua colega de faculdade, a descreve: uma sucessão de elogios. É assim que Thaísa Santana, sua antiga colega de apartamento, a descreve também e alerta: não pisem na bola. É virginiana, ajuda todo mundo e gosta das coisas do seu jeito. Seu orientador de TCC, Maurício Caleiro, uma das principais referências de seriedade e profissionalismo de todos seus alunos, foi taxativo: “penso que se cada estudante tivesse um terço da garra e do empenho dela, a universidade brasileira teria outro nível, bem mais alto”. Wellington, o namorado, concorda com tudo e a chantageia quando está com baixo astral: não quer ter que desmentir nada. Ainda que sua opinião sobre si mesma oscile, Carla afirma que busca forças na sua própria história, nas dificuldades que passou para seguir em frente e, como as pessoas não a conhecem tão bem, acabam tendo uma visão prematura e parcial de que ela é só forte quando, na verdade, também tem seus momentos de fraqueza.
Se você olhar de perto, o Mato Grosso parece uma fábrica de jovens prestes a dominar o mundo. Um dos colegas com quem Carla conviveu por lá, Kaime, menino viajante que já rodou o globo, lembra de uma das aventuras que viveu com ela por lá que indica a determinação que conheceríamos depois: "uma das aventuras que vivemos foi a de montarmos uma barraquinha de lanches na exposição anual da cidade. Foram 4 dias e 4 noites dedicados integralmente nesse plano. virávamos à noite! Chegamos a até mesmo a dormir na barraca. No final de tudo não tivemos lucro alguma haha mas a experiência foi a mais maravilhosa possível".
É dia da sua banca e ela chegou com antecedência. Está ansiosa, mas ciente de que vai dar certo: já assistiu duas vezes o resultado final e gostou. Os companheiros de trabalho demoram um pouco, os convidados vão chegando aos poucos. Carla anda de um lado para outro em seu salto de 15 cm, comprado para a formatura. Ansiosa, sim, tímida, nunca. Apresentam e, ao sair, um dos convidados comenta “Muito bom, é um trabalho redondinho”. Trabalho nota 10,0.
Um jornalista? José Hamilton Ribeiro. Carla lembra da sua sensibilidade característica, assistida pela TV na infância, ao conduzir as reportagens, "uma espécie de gentileza gratuita que conseguia fazer com que o telespectador entrasse na história", e busca trazer isso no seu trabalho. Ele, uma referência para ela e ela, uma referência para seus colegas: tudo o que havia de áudio para ser feito no último semestre passava pelos ouvidos de Carla, para ajudar, ver o que achava, dar pitaco.
Um jornalista? José Hamilton Ribeiro. Carla lembra da sua sensibilidade característica, assistida pela TV na infância, ao conduzir as reportagens, "uma espécie de gentileza gratuita que conseguia fazer com que o telespectador entrasse na história", e busca trazer isso no seu trabalho. Ele, uma referência para ela e ela, uma referência para seus colegas: tudo o que havia de áudio para ser feito no último semestre passava pelos ouvidos de Carla, para ajudar, ver o que achava, dar pitaco.
Em meses de trabalho na rádio, tem muito contato com policiais. Um deles, inclusive, tentou convencê-la a prestar concurso para policial. Quando me contou, Carla supôs que o convite se devesse à sua altura, essas pessoas que passaram do 1,70, sabe?, mas a gente sabe que ela tem o tamanho exato de uma jornalista, a Jornalista Carla Rezende.

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