segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

E se a Dilma não tivesse sofrido impeachment e Lula não tivesse sido preso?

Fim de ano e final de governo combinam mais com metas do que com suposições, mas elas terminam por ser inevitáveis em algum momento... ainda mais quando eventos importantes e quase inéditos acontecem em um período relativamente curto, apenas 2 anos.
O último impeachment, por exemplo, tinha acontecido há 24 anos, ninguém mais se lembrava de que dava para tirar um presidente de outra forma sem ser por meio da urna. A maioria, aliás, que já tinha se acostumado a assistir tudo do sofá, não se lembrava como era ir à rua para manifestação até 2013. Em 2014, as eleições acirradas com contas e crise mascaradas e Aécio inconformado, 2015 passou inteiro sob a sombra da possibilidade do impeachment até Temer mandar a cartinha de rompimento, rompimento por carta é tão demodê (em 2018, porém, ele aprendeu a lavar roupa suja publicamente por vídeo), Cunha deixar clara a chantagem e ter início o processo que, em maio de 2016, afastaria Dilma provisoriamente e depois, em setembro, definitivamente do comando do Executivo. 
Deste 2016 também parece datar a expressão-desejo-notícia-meme "Lula preso amanhã". 3 palavras, conciso, objetivo. Tal qual um martelo de mira fixa e incansável. Em 2017, realmente Lula foi condenado em primeira instância pelo caso do Triplex do Guarujá e, em 2018, quando já viajava pelo país em sua pré-candidatura, condenado em segunda instância e, enfim, preso. 
Mas e se nada disso tivesse acontecido? Se a Dilma não tivesse sido impinchada, amanhã seria ela quem entregaria a faixa ao candidato vencedor... que poderia bem ser Lula já que figurou na liderança por algum tempo mesmo depois de preso. Então, teríamos, ahn, quase 20 anos de um partido no poder? O arrepio na espinha da classe média, da direita, da mídia, etc, diante de tal ideia lembra um ataque epilético. Ninguém ousaria dizer que é saudável um jogo de cadeiras tão pouco diversificado, mas é inevitável desconfiar do caráter de quem aprovou os meios pelos quais passamos e os fins onde chegamos trilhando esse caminho tortuosíssimo. 
Desprovidos de otimismo, porém, sempre, sempre munidos de ideias mirabolantes, poderíamos supor que Temer, em sua infinita bondade, quis poupar Dilma de ter que passar a faixa presidencial para Bolsonaro que elogiou & tem seu torturador como herói. Ou o Destino, esse engraçadinho, pesa a mão nas brincadeiras. Nunca saberemos.

Podia ser a gente, etc e etc
  

domingo, 13 de maio de 2018

1ª Coletiva de Imprensa

Na quinta-feira, depois de problemas com a publicação de uma matéria, o chefe do estágio propôs que eu participasse de uma coletiva com um jornalista importante, o "repórter do Chico Xavier", o Saulo Gomes. Na sexta-feira, me ocupei em pesquisar sobre a vida e obra do homem e elaborar uma pauta.
Coletiva significava a companhia de repórteres veteranos da cidade, gente que obrigatoriamente a experiência deixou melhor que eu. Era um problema ser pior que eles? Não, mas pagar mico ainda é algo impensável. Espremi algumas poucas perguntas que não pareciam ser idiotas e fui dormir abraçada ao caderninho de pautas, crente que a proximidade dele me iluminaria.
Não iluminou.  
Depois de uma ansiedade dilacerante de dedos e sono, uma euforia proporcional: iria entrevistar um jornalistão, o cara que acompanhou por 30 anos o Chico Xavier, mas que também tinha sido o primeiro jornalista perseguido pela ditadura, um jornalista investigativo como poucos, um monstro com mais de 60 anos de experiência.
Marcada para sábado às 9h, às 8h50 eu já previa que só chegaria às 9h10 e tudo estava bem porque 10 minutos de atraso é algo relativamente normal. Porém, às 9h02 eu já repensava toda minha existência e insistência em ser jornalista. Chegando lá às 9h10 descobri que a coletiva, na verdade, seria às 9h30 e desceu a paz sobre o mundo.
Fui direcionada aos fundos da livraria espírita onde alguns bancos indicavam enfileirados, a fartura de livros infantis e uma tela improvisada indicava que ali havia sido exibido algum filme infantil. Já haviam duas pessoas conversando e eu aguardava o momento em que poderia me enturmar e me sentir menos ET. Assim que pintou a oportunidade, me pus a conversar sobre o jornalista, usando já o conhecimento recém-aprendido, mostrando que havia estudado.
O sr. Saulo Gomes atravessou o portão junto com sua comitiva às 9h28 e eu o recebi com o maior sorriso do mundo: era um senhor com roupas de senhor, cabelos brancos impecavelmente penteados para trás, camisa de mangas compridas e calça no umbigo com cinto e tudo, andar encurvado, olhos fundos, nariz proeminente - a única semelhança com as fotos de moço que havia visto na internet - e aquela calma que só a velhice bem vivida pode proporcionar.
A coletiva iria acontecer no Centro Espírita ao lado ao qual tínhamos acesso atravessando o pequeno pátio. Por fora, dois lances de escada/rampa, por dentro, só uma portinha. Lá dentro, uma antessala com bebedouro e, enfim, o centro espírita com uma mesa enorme apinhada de obras da figura ilustre - livros, a biografia escrita sobre ele e o box com os dois programas do Pinga Fogo que levaram Chico Xavier para o mundo.
Até que Saulo percorresse o espaço do portão até o lugar onde estávamos, me vi presa numa teia de prosa que só me permitia balançar a cabeça e responder com monossílabos. Não via problema nisso porque estava conversando com gente famosa na cidade, com anos de experiência, mas assim que o astro rei chegou e eu continuava ali impedida de ir tentar me aproximar, me arrependi amargamente de ter permitido. Até tentava quebrar a prosa, olhando para todo e qualquer barulho que outrem fazia ao redor, mas nada surtia efeito. Quem me tirou da teia foi o próprio jornalista que foi me cumprimentar, perguntou meu nome e desde então se tornou o assunto da prosa, alvo dos elogios todos.
Arrasta a mesa para lá, arrasta a mesa para cá, onde vai ser realizada a entrevista? Na frente ou atrás da mesa? Precisa de luz? Tem que tirar essa propaganda? Fui agraciada com uma das cadeiras mais próximas que, gravando com um aplicativo de celular, foi como uma colher de chá para a novinha que não dispunha de gravador-gravador nenhum. Enquanto perguntavam, regulavam silenciosamente por meio de gestos quantas perguntas faltavam e cobravam, pergunte, pergunte, pergunte.
Reli as perguntas que elaborei e, conforme iam perguntando, fui pesando quais perguntas compensavam ser feitas. De 5, só fiz 2, sendo que uma delas saquei na hora, de queima-roupa, e outra não foi respondida como eu queria. Na primeira, o coração batucava, doido, devido ao esforço da coragem. Na segunda, mais tranquilo o coração, saiu chocha a pergunta. Não que as perguntas alheias tenham sido melhores. Na verdade, apenas uma me surpreendeu por não ter lembrado do artifício quase óbvio. O resto foram perguntas sem brilho, sem dificuldade, quando não enfadonhas pela introdução prolongada que desnorteava o entrevistado.
Uma moça brasileira que mora na Itália acompanhou a entrevista de perto e em silêncio, quase como se falasse qualquer outro idioma que não tivesse origem latina.
Em seguida houve uma sessão de fotos. Todos disputando uma foto com o senhor sorridente que quase nem se mexia, rotativamente flagrado por outra lentes que queriam um pouco da figura brilhante. Levei comigo da 1ª Coletiva de Imprensa, a entrevista mais importante que já fiz até hoje, uma foto e um autógrafo no meu caderninho de pautas com esperança de inspiração para pautas melhores.

sábado, 14 de abril de 2018

O que ficou de Marielle

A vereadora

Há um mês fui apresentada à Marielle da forma mais trágica que poderia ser: pela notícia de seu assassinato. Horrível como todo assassinato, mais horrível a cada hora que passava, a cada notícia que chegava, a cada interpretação que se fazia e ao ver o desalento de quem a conhecia e amava. No fim, todos se identificavam, a admiravam, a queriam bem.
Pegando Marielles aqui e ali, frases, falas, gestos, a gente ia se dando conta do quão imensa ela era, da importância e bravura admiráveis e a responsabilidade ia pesando, pesando nos ombros. Ela lutou tanto, pagou com a vida tanta luta, e antes de vermos quem será a próxima vítima assumimos para nós a função de lutar também, de ter uma pouquinho da grandeza da que ela era feita. Bom, há a possibilidade real de não termos, mas alguma coisa pode-se ser feita e é nessa esperança que nos seguramos para fazer coisas boas e honradas.
Escolhi a Comunicação, o Jornalismo, e desde a morte dela, alguns dias depois, decidi que por meio dele talvez eu pudesse continuar a luta da Marielle em prol dos direitos humanos, sendo honesta, fazendo um bom trabalho, sendo ética, coisas que não deveriam ser assim tão difíceis. Outros jornalistas já foram mortos (tantos, tantos!) e me inspiro numa vereadora? Sim, sendo uma boa jornalista, acredito, honrarei todos os colegas de profissão - mesmo que, por enquanto, o nome não me caiba. Ser jornalista ainda é algo grande demais para uma graduandinha.
Marielle, presente!     


quinta-feira, 22 de março de 2018

Para onde vão os jornalistas

Há quase 2 anos eu escrevia aqui para o que não queria o jornalismo. Citava casos locais e nacionais, coisa que nem lembro, coisa que nunca vou esquecer. Memória é coisa doida. Vontade também.
Passei a faculdade pensando se dava para a coisa. Isso de fazer jornalismo é tão difícil. Mal remunerado, dependente de tantas coisas e tão difícil quando independente e tudo isso sem perder a importância, a possibilidade de salvar e estragar vidas com a mesma facilidade. As tais fake news que, na minha cabeça, nem sentido fazem: se é uma news, é uma informação, é feito por um jornalista, há um compromisso com a verdade. No fundo, não me sai da cabeça que é só uma nova roupagem ou um upgrade no conceito de boato. Parece ser contraditório usar fake e news assim tão perto, um para caracterizar o outro. Claro, ingenuidade. Ainda no outro post eu citava a inesquecível Escola Base que, independente de ser por erro jornalístico ou proposital (talvez o que diferencie boato de fake news), parecia verdade, mas era fake news. Com a morte da Marielle Franco, a vereadora do Rio, boatos (?) circularam dizendo que era tinha tido a filha com um traficante, aos 16, se tornado vereadora por conta do PCC... Não vi nada disso difundido na grande mídia a não ser para desmentir, mas só o fato disso pautar a mídia, além de me preocupar, me leva a outra questão frequentemente discutida pelos interessados em Comunicação: a possibilidade de que qualquer um possa fazer jornalismo.
Para meu chefe de estágio, é sinal que o jornalismo no interior vai morrer.
Para um estudioso, é sinal que o jornalismo vai ter que se desdobrar e fazer melhor.
Para minha ex-professora de Jornalismo, não lembro.
A visão do estudioso é a mais reconfortante e estimuladora, porém, não muda a realidade, não vende mais jornais, não garante a independência (a Cynara do blog Socialista Morena ainda não consegue viver disso). Ainda mais no interior onde me encontro, onde me formei.
Os formandos de 2017 ou ganharam o mundo, ou estão deixando o modo jornalista off-line. Não há estudioso otimista que nos tire da fossa pós-faculdade, nem mesmo tendo pautas, nem mesmo a decisão frente à morte de uma pessoa com um legado de luta tão bacana quanto o da Marielle (eu posso lutar por direitos humanos com o jornalismo, mas, ah, que desânimo).
Os jornalistas depois da faculdade vão pro saco.
    

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

A Carla do Brasil

Ela está preocupada TCC. Acha que não vai dar tempo, ainda que falte 1 semana. O trabalho de conclusão de curso é uma fase difícil e para uma virginiana perfeccionista parece ainda pior: não vai dar tempo, não vai dar tempo, não vai dar tempo. E até passar e ver que, ó, deu tudo certo, é um sufoco e flerta ainda que momentaneamente com a vontade de desistir. Porém, e não é spoiler para ninguém: sabemos que não vai.

Carla Elvídia Alves Rezende nasceu no Pará em 1996, morou a vida toda em Confresa (Con-fre-sa) no Mato Grosso até vir terminar o ensino médio em Frutal para cursar Jornalismo, seu objetivo-mor desde que veio passar as férias por aqui e soube que a UEMG tinha o curso. Até então pensava em ser atriz, mas a timidez não permitiu. 

Com pais separados, voar para longe do ninho materno ainda jovem representou um amadurecimento precoce e uma criação de receios: e se eu tiver aproveitado pouco a companhia da minha mãe? E se eu me arrepender depois? A virginiana tem qualquer coisa em câncer no seu apego ao lar.

Na última semana, às vésperas de ser contratada efetivamente pela rádio em que estagia há meses recebeu um áudio da mãe, dona Osmarina colhedora de pequi: mamãe ficou triste que você não vai voltar, mamãe queria que você viesse trabalhar na TV daqui. O coração bambeou. Naquela noite, segundo conta o namorado, Carla chamou pela mãe durante o sono.

Com alguma antecedência, alguns meses e várias parcelas, Carla adquiriu seu anel de formatura com a pedra do curso, vermelha, uma rubi. Embutida num anel quase masculino, mas bonito, é o que às vezes dá força para continuar seu trabalho por mais difícil e cansativo que seja. No início da semana da banca, Carla está abatida e não acredita que vai dar certo. Perguntam a data da banca e ela desvia do assunto, quando aponto a resposta escrita no mural improvisado e falo em voz alta, sou fuzilada: se não der certo, ela não quer testemunhas. Mas, ah, o anel, tem o anel. 

Todos, absolutamente todos, apontam a persistência como uma das principais características de Carla. E a descrição geralmente vem acompanhada de garra, força, companheirismo, determinação. É assim que Monielly Barbosa, sua colega de faculdade, a descreve: uma sucessão de elogios. É assim que Thaísa Santana, sua antiga colega de apartamento, a descreve também e alerta: não pisem na bola. É virginiana, ajuda todo mundo e gosta das coisas do seu jeito. Seu orientador de TCC, Maurício Caleiro, uma das principais referências de seriedade e profissionalismo de todos seus alunos, foi taxativo: “penso que se cada estudante tivesse um terço da garra e do empenho dela, a universidade brasileira teria outro nível, bem mais alto”. Wellington, o namorado, concorda com tudo e a chantageia quando está com baixo astral: não quer ter que desmentir nada. Ainda que sua opinião sobre si mesma oscile, Carla afirma que busca forças na sua própria história, nas dificuldades que passou para seguir em frente e, como as pessoas não a conhecem tão bem, acabam tendo uma visão prematura e parcial de que ela é só forte quando, na verdade, também tem seus momentos de fraqueza.

Se você olhar de perto, o Mato Grosso parece uma fábrica de jovens prestes a dominar o mundo. Um dos colegas com quem Carla conviveu por lá, Kaime, menino viajante que já rodou o globo, lembra de uma das aventuras que viveu com ela por lá que indica a determinação que conheceríamos depois: "uma das aventuras que vivemos foi a de montarmos uma barraquinha de lanches na exposição anual da cidade. Foram 4 dias e 4 noites dedicados integralmente nesse plano. virávamos à noite! Chegamos a até mesmo a dormir na barraca. No final de tudo não tivemos lucro alguma haha mas a experiência foi a mais maravilhosa possível".

É dia da sua banca e ela chegou com antecedência. Está ansiosa, mas ciente de que vai dar certo: já assistiu duas vezes o resultado final e gostou. Os companheiros de trabalho demoram um pouco, os convidados vão chegando aos poucos. Carla anda de um lado para outro em seu salto de 15 cm, comprado para a formatura. Ansiosa, sim, tímida, nunca. Apresentam e, ao sair, um dos convidados comenta “Muito bom, é um trabalho redondinho”. Trabalho nota 10,0.

Um jornalista? José Hamilton Ribeiro. Carla lembra da sua sensibilidade característica, assistida pela TV na infância, ao conduzir as reportagens, "uma espécie de gentileza gratuita que conseguia fazer com que o telespectador entrasse na história", e busca trazer isso no seu trabalho. Ele, uma referência para ela e ela, uma referência para seus colegas: tudo o que havia de áudio para ser feito no último semestre passava pelos ouvidos de Carla, para ajudar, ver o que achava, dar pitaco.

Em meses de trabalho na rádio, tem muito contato com policiais. Um deles, inclusive, tentou convencê-la a prestar concurso para policial. Quando me contou, Carla supôs que o convite se devesse à sua altura, essas pessoas que passaram do 1,70, sabe?, mas a gente sabe que ela tem o tamanho exato de uma jornalista, a Jornalista Carla Rezende.