domingo, 13 de maio de 2018

1ª Coletiva de Imprensa

Na quinta-feira, depois de problemas com a publicação de uma matéria, o chefe do estágio propôs que eu participasse de uma coletiva com um jornalista importante, o "repórter do Chico Xavier", o Saulo Gomes. Na sexta-feira, me ocupei em pesquisar sobre a vida e obra do homem e elaborar uma pauta.
Coletiva significava a companhia de repórteres veteranos da cidade, gente que obrigatoriamente a experiência deixou melhor que eu. Era um problema ser pior que eles? Não, mas pagar mico ainda é algo impensável. Espremi algumas poucas perguntas que não pareciam ser idiotas e fui dormir abraçada ao caderninho de pautas, crente que a proximidade dele me iluminaria.
Não iluminou.  
Depois de uma ansiedade dilacerante de dedos e sono, uma euforia proporcional: iria entrevistar um jornalistão, o cara que acompanhou por 30 anos o Chico Xavier, mas que também tinha sido o primeiro jornalista perseguido pela ditadura, um jornalista investigativo como poucos, um monstro com mais de 60 anos de experiência.
Marcada para sábado às 9h, às 8h50 eu já previa que só chegaria às 9h10 e tudo estava bem porque 10 minutos de atraso é algo relativamente normal. Porém, às 9h02 eu já repensava toda minha existência e insistência em ser jornalista. Chegando lá às 9h10 descobri que a coletiva, na verdade, seria às 9h30 e desceu a paz sobre o mundo.
Fui direcionada aos fundos da livraria espírita onde alguns bancos indicavam enfileirados, a fartura de livros infantis e uma tela improvisada indicava que ali havia sido exibido algum filme infantil. Já haviam duas pessoas conversando e eu aguardava o momento em que poderia me enturmar e me sentir menos ET. Assim que pintou a oportunidade, me pus a conversar sobre o jornalista, usando já o conhecimento recém-aprendido, mostrando que havia estudado.
O sr. Saulo Gomes atravessou o portão junto com sua comitiva às 9h28 e eu o recebi com o maior sorriso do mundo: era um senhor com roupas de senhor, cabelos brancos impecavelmente penteados para trás, camisa de mangas compridas e calça no umbigo com cinto e tudo, andar encurvado, olhos fundos, nariz proeminente - a única semelhança com as fotos de moço que havia visto na internet - e aquela calma que só a velhice bem vivida pode proporcionar.
A coletiva iria acontecer no Centro Espírita ao lado ao qual tínhamos acesso atravessando o pequeno pátio. Por fora, dois lances de escada/rampa, por dentro, só uma portinha. Lá dentro, uma antessala com bebedouro e, enfim, o centro espírita com uma mesa enorme apinhada de obras da figura ilustre - livros, a biografia escrita sobre ele e o box com os dois programas do Pinga Fogo que levaram Chico Xavier para o mundo.
Até que Saulo percorresse o espaço do portão até o lugar onde estávamos, me vi presa numa teia de prosa que só me permitia balançar a cabeça e responder com monossílabos. Não via problema nisso porque estava conversando com gente famosa na cidade, com anos de experiência, mas assim que o astro rei chegou e eu continuava ali impedida de ir tentar me aproximar, me arrependi amargamente de ter permitido. Até tentava quebrar a prosa, olhando para todo e qualquer barulho que outrem fazia ao redor, mas nada surtia efeito. Quem me tirou da teia foi o próprio jornalista que foi me cumprimentar, perguntou meu nome e desde então se tornou o assunto da prosa, alvo dos elogios todos.
Arrasta a mesa para lá, arrasta a mesa para cá, onde vai ser realizada a entrevista? Na frente ou atrás da mesa? Precisa de luz? Tem que tirar essa propaganda? Fui agraciada com uma das cadeiras mais próximas que, gravando com um aplicativo de celular, foi como uma colher de chá para a novinha que não dispunha de gravador-gravador nenhum. Enquanto perguntavam, regulavam silenciosamente por meio de gestos quantas perguntas faltavam e cobravam, pergunte, pergunte, pergunte.
Reli as perguntas que elaborei e, conforme iam perguntando, fui pesando quais perguntas compensavam ser feitas. De 5, só fiz 2, sendo que uma delas saquei na hora, de queima-roupa, e outra não foi respondida como eu queria. Na primeira, o coração batucava, doido, devido ao esforço da coragem. Na segunda, mais tranquilo o coração, saiu chocha a pergunta. Não que as perguntas alheias tenham sido melhores. Na verdade, apenas uma me surpreendeu por não ter lembrado do artifício quase óbvio. O resto foram perguntas sem brilho, sem dificuldade, quando não enfadonhas pela introdução prolongada que desnorteava o entrevistado.
Uma moça brasileira que mora na Itália acompanhou a entrevista de perto e em silêncio, quase como se falasse qualquer outro idioma que não tivesse origem latina.
Em seguida houve uma sessão de fotos. Todos disputando uma foto com o senhor sorridente que quase nem se mexia, rotativamente flagrado por outra lentes que queriam um pouco da figura brilhante. Levei comigo da 1ª Coletiva de Imprensa, a entrevista mais importante que já fiz até hoje, uma foto e um autógrafo no meu caderninho de pautas com esperança de inspiração para pautas melhores.