Ao chegar à porta da livraria, todos repetiam o
código imposto pelo vento frio que arrepiava a nuca: levantavam automaticamente
a gola do casaco. Alguns completavam esfregando as mãos e as escondendo no
bolso, ou bafejando nelas para que entorpecidas pelo bafo ou pelo calor
calassem o frio. Outros sentiam a necessidade de um extra para se sentirem
menos ridículos ou, ao menos, vivos, diziam baixinho ou em alto e bom som: Que
frio, que frio, hein, mesmo que não houvesse ninguém para responder um mínimo ‘pois
é’.
Livraria de esquina, vento de esquina. Ali onde o
vento faz a curva e encontra a nuca de quem, numa manhã de sábado, resolve
prestigiar o mesmo amigo dois anos depois. De tão magricela, pela nuca dele, o
vento não passa, o frio não toca. Vai sem casaco mesmo, crente no calor humano.
De todo modo, respeita o código, levanta a gola de um casaco invisível. A
sociedade literária dos golas alta. Um pouco mais frio, alguns fios mais
brancos, uma dorzinha nos ossos, indícios da idade chegando, as felicitações no
bolso, um novo livro poesia e o mesmo amigo poeta.
Enquanto o poeta está ocupado já autografando e
conversando com os amigos, já passa das 11h, a mesa estreita está cheia, ele
espera a sua vez. Pede um café e olha os livros ao redor. O café ainda é a
melhor coisa dali, infelizmente. Outro magricela toca teclado, meio assim de
lado, absorvido na sua vocação. Olhando daqui parecem três mundos distintos num
mesmo ambiente. Não, quatro. As donas da livraria não participam de nenhum dos
mundos. No delas, o que interessa é o negócio. Passam de banda àquela gente
literata, esboçam algo parecido com sorriso, atendem os fregueses que aparecem
procurando por outra coisa que não autógrafo e voltam para detrás do balcão.
Outro mundo.
Quando repara que o número de pessoas ao redor do
poeta diminui, ele se aproxima. Traz consigo o livro recém-adquirido e enquanto
recebe o autógrafo comenta amenidades. Não acha de bom tom recorrer aos tempos
passados em comunhão de trabalho. A saída do amigo foi sentida por todos.
Melhor não mexer em ferida. Não é o momento. Dá as felicidades trazidas no
bolso, comenta como gosta do primeiro poema aleatório que surge no abrir ao
acaso do livro e tenta parecer honesto fingindo que entende aquela literatura
de frases curtas.