domingo, 11 de junho de 2017

O que leva o vento

Ao chegar à porta da livraria, todos repetiam o código imposto pelo vento frio que arrepiava a nuca: levantavam automaticamente a gola do casaco. Alguns completavam esfregando as mãos e as escondendo no bolso, ou bafejando nelas para que entorpecidas pelo bafo ou pelo calor calassem o frio. Outros sentiam a necessidade de um extra para se sentirem menos ridículos ou, ao menos, vivos, diziam baixinho ou em alto e bom som: Que frio, que frio, hein, mesmo que não houvesse ninguém para responder um mínimo ‘pois é’.

Livraria de esquina, vento de esquina. Ali onde o vento faz a curva e encontra a nuca de quem, numa manhã de sábado, resolve prestigiar o mesmo amigo dois anos depois. De tão magricela, pela nuca dele, o vento não passa, o frio não toca. Vai sem casaco mesmo, crente no calor humano. De todo modo, respeita o código, levanta a gola de um casaco invisível. A sociedade literária dos golas alta. Um pouco mais frio, alguns fios mais brancos, uma dorzinha nos ossos, indícios da idade chegando, as felicitações no bolso, um novo livro poesia e o mesmo amigo poeta.

Enquanto o poeta está ocupado já autografando e conversando com os amigos, já passa das 11h, a mesa estreita está cheia, ele espera a sua vez. Pede um café e olha os livros ao redor. O café ainda é a melhor coisa dali, infelizmente. Outro magricela toca teclado, meio assim de lado, absorvido na sua vocação. Olhando daqui parecem três mundos distintos num mesmo ambiente. Não, quatro. As donas da livraria não participam de nenhum dos mundos. No delas, o que interessa é o negócio. Passam de banda àquela gente literata, esboçam algo parecido com sorriso, atendem os fregueses que aparecem procurando por outra coisa que não autógrafo e voltam para detrás do balcão. Outro mundo.

Quando repara que o número de pessoas ao redor do poeta diminui, ele se aproxima. Traz consigo o livro recém-adquirido e enquanto recebe o autógrafo comenta amenidades. Não acha de bom tom recorrer aos tempos passados em comunhão de trabalho. A saída do amigo foi sentida por todos. Melhor não mexer em ferida. Não é o momento. Dá as felicidades trazidas no bolso, comenta como gosta do primeiro poema aleatório que surge no abrir ao acaso do livro e tenta parecer honesto fingindo que entende aquela literatura de frases curtas.

 Bebe mais café e cochila enquanto compadres do poeta declamam alguns poemas do livro. O café é mesmo bom e naquela poltrona bate um solzinho irresistível. Vai ficar tudo bem enquanto não pedirem para ele declamar. Aquela voz de gralha gripada não fica bem nem sob efeito de xarope de cachaça. E se der a hora de ir embora? Confia no taco e volta ao sono dos bons. Que ideia lançar um livro justo num sábado de manhã! A barriga dá alertas nucleares de fome. Enquanto o poeta conversa numa nova rodinha, ele bate em seu ombro um ‘até mais’ e sai sem esperar resposta para seu mundo, o de fora, mais frio e menos literário.