sábado, 22 de outubro de 2016

O que um jornalista pode aprender com Frost/Nixon (2008)

Frost/Nixon é um filme de 2008, baseado numa dramatização das entrevistas concedidas por Richard
Nixon a David Frost em 1977, quase três anos após o escândalo de Watergate e sua renúncia. Os personagens têm o mesmo objetivo: os holofotes do sucesso. Enquanto Nixon visa sua reabilitação para a vida pública, já que mesmo tendo recebido o perdão presidencial ainda pairava sob sua cabeça a pecha de corrupto, Frost, um performer, apresentador de programas de entretenimento, tinha em mente a audiência que poderia alçá-lo à glória outra vez. O filme teve 5 indicações ao Oscar e não levou nenhum.

Ainda que os momentos de maior apreensão e atenção ocorram quando os protagonistas estão frente a frente, e aí podemos ver como um entrevistador deve ou é melhor se portar para conseguir tirar do entrevistado o que deseja, depois de dois anos de graduação em Comunicação/Jornalismo, outros pontos saltam aos olhos. 

David Frost arriscou tudo para que essa entrevista desse certo. No filme, fala-se em U$500 mil que ele estaria pagando do próprio bolso e que tentava vender a todo custo para empresas. Se não obtivesse nenhum resultado favorável com o material, provavelmente os nascidos nas décadas seguintes jamais saberiam que houve um homem que entrevistou Nixon e conseguiu dele uma resposta visualE jornalista faz isso? Faz. Tem uma matéria boa ou relevante? Manda para um jornal ou portal de notícias. Eles vão aceitar? Logicamente, nem sempre. Século XXI, 2016, há sempre a possibilidade de publicar em sites ou blogs próprios e/ou montar seu portfólio. Investir uma soma assim em um portfólio, por exemplo, é que parece completamente irreal. 

Fora a persistência de Frost, tão necessária ao jornalista, outros fatores contaram muito para que seu nome fosse salvo do esquecimento: a preparação, por exemplo. Há uma certa dificuldade em encontrar uma concordância se David Frost foi ou não jornalista. As Wikis dizem que além de apresentador, comediante, era jornalista, mas o Imdb, por exemplo, e o próprio filme dizem o contrário. Durante o longa, Frost é alvo de críticas inclusive por parte de sua própria equipe. Você não deveria descansar para sua entrevista? Isso não é coisa que um jornalista faria. Ele não age mesmo como um jornalista. 

Houve até um ensaio, antes do primeiro encontro, com as possíveis respostas de Nixon e réplicas possíveis, mas, na gravação, o básico, interromper o entrevistado quando sua resposta desvia, sequer foi tentado. Em TV sabemos que o tempo é ainda mais contado, requer jogo de cintura muito maior para que não se perca tempo, tempo é dinheiro, tempo é dinheiro!, e Frost parecia não se dar conta disso. Pior, chegou a recusar que um membro da sua equipe, pesquisador, aprofundasse em um ponto novo que poderia 'pegar' o entrevistado. Excesso de confiança seu nome é David Frost. Antes afirmava já ter feito outras entrevistas, mas sob que condições ninguém tratou de esclarecer. Parecia um novato nisso de perguntar e diante de um hábil político, que mesmo não lidando bem com gente, sabia discursar, um bebê de colo não seria mais inapto.   

Depois de dois rounds perdidos e definitivamente com a corda no pescoço, o que teria salvo David Frost foi um telefonema de Nixon bêbado que levou o então entrevistador a enfim estudar e chamar aquele seu colaborador para fazer aquela pesquisa. Teria porque acusam o roteirista de tê-lo inventado. Aqui essa polêmica pouca importa, o foco é a preparação. Se é preciso estudar o assunto antes de uma entrevista, imagine para falar com um ex-presidente. Se é preciso estudar o assunto antes de uma entrevista, imagine para falar com um ex-presidente que renunciou por conta de um escândalo, ótimo com discursos longos e do qual se espera uma confissão, um pedido de desculpas e, se possível, um julgamento que não lo deram. Era muita pressão sobre as pretensões mesquinhas de Frost por audiência? Talvez, mas ele teve que arcar com ela.            

sábado, 1 de outubro de 2016

Paixão

Uma das pautas caídas: um adesivo indesejado
Invejo as suas paixões. Esse alucinado sentimento por outrem me intriga. A intensidade, a loucura, o sofrimento. Não tenho desses descabimentos.
Queria ter.
Amanhã tem eleições e eu realmente queria encarar a urna com confiança e retribuir o sorriso de um dos candidatos cujas fotos aparecerão lá.
Dizer "meu candidato"e ter fé de que é realmente a melhor escolha, que é honesto e fará o melhor possível, no caso, pela cidade. Cantarolar o jingle com sentimento e por gosto, colar adesivos na porta de casa, no carro, distribuir santinhos, mudar a foto do facebook. Que inveja sinto dos que fazem tudo isso por livre e espontânea vontade!
E os que militam? Discutem, brigam, defendem com unhas e dentes o que/quem acreditam. Que fortes são, que corajosos, que apaixonados. Compram, propagam, colaboram com o discurso do seu candidato. Faça chuva ou faça sol. Seja absurdo ou perfeitamente lógico. Seu discurso, meu discurso.
Para quem vive política, amanhã é festa. A festa da democracia. 
Em Itumbiara (GO), nessa semana, um candidato a prefeito foi assassinado durante um comício. Um grupo de pessoas partidárias da vítima, revoltadas com o que parecia ser uma ação de fundo político, realizaram um quebra-quebra na cidade. 
Vou exercer meu direito ao voto, vou contribuir para mudar minha cidade, vou apostar nessa pessoa aqui em quem confio. Meu candidato. Prefeitão, vereadorzão. E tira foto junto e cola adesivos pelo corpo e se envolve na bandeira e. 
Que inveja.