| das internet |
O fusca em questão é
branco e fazia parte de uma casa rosa. Era uma referência. A casa rosa com fusca branco na garagem. Não havia casa rosa sem
fusca branco ou fusca branco sem casa rosa. Também não havia fusca branco sem
senhor vermelho e careca e senhor vermelho e careca sem um fusca branco. E
havia a senhorinha morena de cabelos curtos que sempre saltava de dentro do
fusca – do banco traseiro ou do passageiro. E ela tinha, sempre teve, pelo que
me lembro, óculos arredondados.
Não lembro bem de como
eram os antigos, mas os últimos eram pequenos, ela era pequena, e modernos. Não
lembro a marca, nunca lembro, mas lembro da sensação para além dos óculos de
que ela era uma senhorinha moderna. Destoando de mim e do meu gosto por
coisinhas miúdas – os primeiros óculos, escolhi por conta da caixa, os segundos
pelo formato, o terceiro pela marca e o quarto pela cor. Por miudezas é que me
sentia mais próxima da outra senhorinha de cabelo de trança longa e feita coque
no alto da cabeça com grampos. Nela também ficavam amparados na cara óculos
arredondados.
Arredondados também
eram meus primeiros óculos e os óculos quebrados da colega dados pelo avô e num
patamar altíssimo de estima – de onde veio a ideia da crônica.
Com óculos retangulares
não consigo enxergar nada. Preciso depositá-los à frente, limpar o suor dessa
tarde infernal para pensar no lugar deles nas nossas vidas. O mote me foi
repassado, mas nunca herdei óculos, não sei o que é isso. Entendo o que seja a estima e isso é de grande
valia, ao menos. Da mais próxima, a senhorinha de trança-coque, por exemplo,
guardo um botão – redondo, rá. E, ah, no botão, há um
carro, mas para desvario do texto não é um fusca.
É engraçado que tudo
caminhe em círculos quando as linhas só seguem retas. É engraçado porque a
história, a saudade e a vida são mesmo cíclicas. Quem estuda História um mínimo
que seja sabe que ela se repete, erra igual várias vezes, quem sente saudade e
sente saudade de novo e de novo e de novo sabe que ela não acaba assim e a
vida, bem, ainda que termine um dia, é cheia de idas e vindas, cheias de
histórias e saudades, um absurdo de loopings.
No meu inconsciente
está presente qualquer lembrança que denota que essa é a forma da natureza, a
forma perfeita. Está mesmo presente em tudo quanto vemos. Vai ver está também
em tudo quanto sentimos... ainda que algumas dores pareçam afiadas demais para não
conterem pontas e algumas alegrias pareçam preencher círculos ao invés de serem-los
elas mesmas.
Enfim, o fusca não é o
mais perfeito dos carros, há quem diga que sequer seja um, e os óculos estão todos
sujeitos a reparos. O que não os impede em momento algum de ser objeto de
estima. Aqui, por exemplo, estão todos eufóricos com o fusca velho que de tão
recém-chegado é quase novo. Limpa, lava, encera. O que precisa arrumar? Isso, isso e isso. A mim que sou
materialista torta, assim vazio, sem um senhor e uma senhorinha não representa
lá grande coisa. Numa casa que não seja rosa, então, é só mais um fusca. Mas só para mim. Já os óculos da colega,
caso diferente, não sei que fim tiveram. Um dos lados da ponte havia quebrado e
esperava por solda. No pós-Simpósio de Comunicação, haveria muito tempo para
consertá-los. Para ela, segundo explicou, os óculos eram uma maneira de trazer a
lembrança do avô sempre por perto, mantê-lo sempre junto. Uma ponte entre ela e
o avô. Esta fortuitamente passível de solda.

